Em Caná da Galileia...


A Igreja em jardim

Aqui na Irlanda, todas as igrejas têm por jardim o cemitério paroquial. Para entrarmos na igreja, precisamos de percorrer alguns caminhos ladeados de túmulos e de flores – não em jarras, mas plantadas em vasos ou na terra, as raízes acariciando o chão que acolhe os corpos dos que vão partindo.

Assim, cada vila ou cidade tem tantos cemitérios quantas igrejas. E as vistas são incrivelmente belas:

Sinto falta destes jardins em Portugal. Os nossos cemitérios têm muita pedra e não são tratados como jardins onde se sinta prazer em passear. E geralmente, hoje, estão suficientemente afastados das igrejas para nos lembrarmos de os visitar.

A maioria de nós, cristãos, é capaz de passar dias sem se lembrar dos irmãos que já partiram. Pior ainda: somos capazes de passar dias sem nos lembrarmos de que também vamos partir em breve.

A Igreja não é formada apenas pelos que habitam esta Terra, mas também pelos que habitam o Purgatório e pelos que já chegaram a Casa. Assim, dizemos que a Igreja dos que vivem na Terra é a Igreja Militante, porque combatente, lutando contra o mal para merecer a vitória da eternidade; a Igreja dos que já morreram, mas sem terem alcançado a santidade, é a Igreja Purgante, porque se encontra no Purgatório até ser lavada de toda a mancha de pecado; e a Igreja dos santos e dos que acabaram de se purificar no Purgatório é a Igreja Triunfante, a Igreja que já alcançou a vitória final. Só com estes três grupos, a Igreja está completa.

Chegar à igreja para rezar ou para participar na missa e ter de atravessar um cemitério bonito e arranjado é tão natural como entrar numa casa e contemplar as molduras e os quadros dos avós, dos tios, dos familiares ausentes. As inscrições nos túmulos falam de esperança, mesmo quando as mortes ceifam vidas jovens. Fomos apanhados de surpresa pela morte deste “Niall Power”, que podia ser um de nós…

A morte vista assim de perto deixa de meter medo e os irmãos que já partiram são lembrados com muito mais frequência, especialmente aqueles que já não têm quem os recorde. A caminho da missa, rezamos pelas suas almas, recordamo-nos de que também nós somos pó e ao pó havemos de voltar.

E quando nos lembramos de que somos terra, a nossa alma eleva-se muito mais depressa para o Céu…

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