Em Caná da Galileia...


A janela

As obras na nossa casa estão a chegar ao fim, graças a Deus! Lembram-se do post sobre o jardim esburacado? Neste momento, o jardim está mais esburacado que nunca, mas apenas porque desistimos de consertar buracos e vamos mesmo colocar uma nova canalização. Entretanto, durante três dias, tivemos cinco filhos a dormir no quarto dos rapazes, e a Clarinha no escritório: há anos que tencionávamos abrir uma janela no quarto das meninas, sempre muito sombrio e húmido. Finalmente, o sonho concretizou-se, e a janela nasceu.

Durante três dias, foi preciso desinstalarmo-nos a valer na nossa casa. No quarto das meninas, os trabalhadores rasgaram a parede, martelaram, cortaram, feriram, abriram… Quando, por fim, a janela surgiu, por sobre a cama da Clarinha, todos soltámos uma exclamação de espanto. Afinal, o quarto não termina numa parede de tijolo: termina no infinito!

“É a janela da Heidi, mamã!” Concluiu a Lúcia, feliz. Ao serão, tenho andado a reler aos mais novos a história da Heidi (a original, não as adaptações que a branquearam do seu sentido profundamente religioso), que vivia feliz nas montanhas e contemplava o céu estrelado deitada na sua caminha de feno, através de uma janelinha aberta sobre o vale. “Podemos contemplar as estrelas à noite, aqui da nossa janela?” Claro! E à noite, já a Sara dormia profundamente, a Clarinha e a Lúcia sentaram-se na cama mais alta e contemplaram o céu estrelado.

De manhã, quando acordei a Clarinha, ela abriu a janela e espreitou: “Tão bonito! Vê-se a estrada até à curva!” Que fica para lá da curva da estrada? Ah, tão misteriosa, a vida, com as suas curvas surpreendentes! Sempre gostei de contemplar a curva da estrada a partir da grade do jardim. Agora, podemos fazê-lo também a partir da janela das meninas.

Enquanto, com a Clarinha, tratava do seu quarto, aspirando, limpando o pó, recolocando os objetos, livros e brinquedos nas respetivas gavetas e reorganizando os roupeiros, dei comigo a pensar no profundo significado desta Semana Maior…

A nossa vida humana esbarrava com uma parede escura e húmida chamada morte. Mas um dia, Jesus carregou nas suas costas martirizadas as nossas dores, os nossos pecados, os nossos sonhos, as nossas feridas, os nossos anseios, a nossa morte. Com chicotes, martelos, escarros, bofetadas, espinhos, pregos, insultos, ódio e indiferença, os homens mataram-no. O que eles não sabiam, é que a morte de Jesus abria uma janela na nossa parede… As janelas abrem-se com violência, sim! Graças ao mistério da sua morte e ressurreição, a nossa vida já não esbarra numa parede escura e húmida, mas prolonga-se até ao infinito luminoso e estrelado de um céu aberto sobre nós.

Assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. E, como todos morrem em Adão, assim em Cristo todos voltarão a receber a vida. (1Cor 15, 21-22)

Quanta desinstalação, quantos pequenos sacrifícios, quanta desarrumação, quanto pó levantado, quantas teias de aranha desfeitas e quanto trabalho é preciso, para permitirmos ao Senhor abrir a sua janela na nossa vida! Estamos prontos?

Que estes dias santos sejam, para todos nós, uma janela aberta para a Felicidade verdadeira, aquela que só Deus pode dar!

5 Comments

  1. Olívia Batista

    Ora aqui está uma excelente forma de abanar as estruturas… deixar de olhar apenas para as grossas paredes escuras e ásperas e começar a espreitar pela pequena Janela cheia de luz!

  2. Pilar Pereira

    Quando vi a referência à curva na estrada lembrei-me logo da Anne Shirley (sei que a referência te é muito familiar)!
    E sim, é verdade, temos de abrir janelas para deixar passar a Luz!

  3. Um parêntesis:
    Temos uma Playlist (quaresma/tríduo…) que coisa boa!!!
    Obrigada!

    • Agradece ao João Miranda Santos, que está sempre atento a estas coisas! Que os cânticos nos ajudem a todos, cantando ou escutando, a preparar a Páscoa do Senhor!

      • Obrigada pela dica, Olívia! Costumo ler o site no telemóvel e ainda não tinha reparado nesta compilação especial.
        Beijinhos e Santa Páscoa a todos. 🙂

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