Em Caná da Galileia...


A mãe não vê…

Oração familiar, quarta-feira da semana passada, semana II da Páscoa. Com voz sonora, o Francisco proclamou o Evangelho. E entre várias frases de Jesus, leu as seguintes:

Todo aquele que pratica más ações odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus. (Jo 3, 20-21)

“Que engraçado, pensar nisto!” Disse eu, lembrando-me de repente das minhas aulas. “Nas minhas turmas mais problemáticas, em que os alunos pensam que eu não reparo que estão a brincar no telemóvel enquanto explico a matéria, todos refilam quando eu acendo a luz da sala!”

“Claro, sabem que com a luz vai ser mais difícil fazer o que está errado, que é estar distraído….”

“Mãe, acho que ontem na escola aconteceu o que diz aqui no Evangelho”, atalhou o António, muito sério do alto dos seus sete aninhos. “Quer dizer, foi uma conversa que eu tive… Eu descobri que tinha dinheiro no cartão. Foste tu que puseste?”

“Fui, lembras-te? Disseste que precisavas de comprar uma afiadeira e uma régua, e eu carreguei o teu cartão!”

“Bem, quando eu descobri isso, o Lucas disse que eu podia ir ao bar comprar pastilhas e bolos. Eu disse-lhe que tu não queres que eu compre nada no bar, e que na nossa família sempre levámos lanche de casa para comer na escola, mesmo os manos grandes. Eu sei que a Clarinha, que é grande, nunca compra nada no bar… Foi isso que eu disse ao Lucas.”

“Bem, e em que é que isso é semelhante ao Evangelho?”

“O Lucas respondeu: «A tua mãe não vê!»”

Fiquei uns instantes em silêncio. Depois perguntei: “E que respondeste tu?”

“Eu disse ao Lucas que era igual a mãe ver ou não, porque depois eu tinha de lhe contar tudo na mesma.”

Uma das coisas boas da escola é precisamente esta: permitir aos nossos filhos praticar os seus valores longe do olhar da mãe, confrontando-os com os dos amigos e resistindo à sua pressão. É este o bom combate da fé de que falam as Escrituras, e é deste combate que nasce a virtude. Que o António seja capaz de o fazer com sete anos é sinal claro, para nós, que a Palavra está a ganhar raiz no seu coração pequenino.

“António, ontem foste verdadeiramente Filho da Luz, como nos diz Jesus. Foste sinal no mundo de que a Luz vence as Trevas. Jesus ficou extremamente orgulhoso de ti, e eu também!  E tu sabes bem que há uma pessoa que vê sempre tudo. A Ele, nunca poderás esconder nem sequer os pensamentos mais ocultos do teu coração… ”

“Eu sei. Jesus vê sempre tudo o que eu faço e até o que eu penso!”

Continuámos a nossa oração, agora com o terço na mão. Cansado, o António deitou a cabeça no braço do sofá e fechou os olhos, ao som das Avé-Marias. Cobri-o com a manta. Foi um menino quase a dormir que, vinte minutos mais tarde, conduzi até à cama. Tão pequenino, e já tão grande!

Ser Família de Caná é também isto: oferecer diariamente aos nossos filhos uma boa “dose” de Palavra de Deus, para que diariamente também, no campo de batalha, eles a ponham em prática…

One Comment

  1. Pilar Pereira

    Forte, este testemunho!
    Obrigada, António, e obrigada, Teresa!

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