Em Caná da Galileia...


A missa, nossa Casa

Quando marcamos férias, um dos cuidados que temos é a proximidade de uma igreja para podermos ir à missa pelo menos aos domingos. Na Irlanda, graças a Deus, não é preciso esse cuidado, porque igrejas não faltam! Durante as nossas férias nunca ficámos sem missa, nem no dia 15 de agosto. Domingo que vem, se Deus quiser, já iremos à missa em Portugal.

Ir à missa é, para os católicos, chegar a casa. Porque a missa é sempre a mesma, seja em Portugal, seja na Irlanda, seja no fim do mundo. Mudamos de país, mas mantemos a liturgia, mantemos as leituras de cada dia, mantemos sobretudo o mesmo Corpo e Sangue entregue por nós.

No entanto, ir à missa em Portugal é diferente de ir à missa na Irlanda. Para as crianças, é uma questão de tempo: na Irlanda, a missa demora metade do tempo de Portugal, exatamente meia-hora. Com cânticos, com homilia, com tudo o que lhe pertence! A família do Niall, quando nos vai visitar a Portugal, estranha sempre a duração das missas. As duas horas que demorou o nosso casamento – e que passaram a voar! – são ainda hoje ocasião de divertidos comentários!

Se os meus filhos adoram a experiência, eu e o Niall sentimos a falta dos pequenos espaços temporais da missa portuguesa, com toda a solenidade que eles lhe acrescentam. Aqui, ainda o sacerdote está a fazer a Oração Coleta, e já o leitor está junto ao ambão pronto a fazer a primeira leitura… Em contrapartida, as homilias curtíssimas são muito claras e incisivas, e os sacerdotes têm a capacidade para, em dois ou três minutos, tornar a Palavra viva e eficaz, sem divagações, levando-a diretamente ao coração.

Há, claro, uma razão histórica para esta diferença: na Irlanda, e durante toda a infância e juventude do Niall, o povo maioritariamente católico praticante enchia as igrejas para a missa dominical quatro vezes de manhã e mais algumas à tarde. Na sua paróquia, o Niall tinha missa às oito, dez, onze e doze da manhã de domingo. Se cada missa fosse uma hora, tal não seria possível. Hoje, infelizmente, a Irlanda atravessa a mesma crise de fé e de vocações que toda a Europa em geral, e se o número de missas em cada domingo diminui, a meia-hora mantém-se.

Outra diferença é a decoração da igreja. Ora reparem no cadeirão do sacerdote, na igreja da paróquia onde nos encontrámos este verão:

Reparem também na alcatifa, nas cadeiras dos acólitos…

E vejam agora a decoração da área da pia batismal e do sacrário, na igreja que frequentámos há três anos atrás, nas últimas férias na Irlanda antes destas:

Há uma tendência na Irlanda de transformar a igreja verdadeiramente na casa familiar que acolhe os seus filhos a cada domingo, para a Refeição familiar por excelência. Não sei o que os liturgistas pensam disto, nem eu mesma sei o que prefiro: se a austeridade de um mosteiro trapista ou de uma igreja portuguesa, se a familiaridade de uma igreja paroquial irlandesa, com alcatifa acolhedora e tecidos estampados. Ambas têm, talvez, os seus momentos…

Conversando com o Niall, entendi algumas das razões para esta diferença entre a liturgia portuguesa e irlandesa. Na Irlanda, ao longo dos séculos de ocupação inglesa, o clero pertencia ao Império Britânico, império invasor, e era protestante. O povo irlandês, pelo contrário, era católico. As igrejas católicas nasceram quase sempre fora dos povoados, num lugar elevado, porque na aldeia ou cidade só eram permitidas igrejas protestantes.

Os sacerdotes católicos nasceram deste povo rude e simples, não tendo por isso nenhuma tradição aristocrática, o que libertou os seus gestos de muito do cerimonial envolvendo a liturgia (mantendo, naturalmente, o essencial). Sem estas pausas cerimoniais, a liturgia torna-se mais rápida; sem a referência aos castelos e palácios clericais, as igrejas tornam-se mais caseiras. Os meus sogros ainda hoje falam da ornamentação das igrejas portuguesas como algo belíssimo, mas estranho.

Há ainda outra diferença entre a missa em Portugal e na Irlanda. Chama-se… crianças. Crianças, crianças e mais crianças. Crianças por toda a parte! Famílias numerosas são muito comuns aqui, e enchem as praias, os parques infantis, as ruas… e apesar da crise de fé, as igrejas.

Que elas possam também encher as igrejas portuguesas! Não importa assim tanto que a missa dure mais ou menos, que o cadeirão do sacerdote seja de pedra ou de tecido estampado… desde que a Casa do Pai esteja cheia, a transbordar! Ámen!

2 Comments

  1. Sim, chegar à missa é voltar a casa! E vocês estão quase a chegar, que bom!
    Quer em Portugal, quer em Espanha há sempre uma igreja por perto, muitas vezes (durante a semana) uma missa a decorrer … os meus filhos até brincam com a minha pontaria para me cruzar com o Senhor…
    É essa uma grande graça que Ele me e nos dá, no conforto da surpresa com que nos cruzamos com uma Eucaristia inesperada!
    Até breve!

  2. Olá!!!
    Estal postagem acabou por responder à pergunta que fiz, numa outra publicação….apesar do essencial ser comum a todas as igrejas, acho curiosas estas diferenças!!
    Tive a oportunidade de fazer uma experiência missionaria na Tanzânia e para meu espanto 90% da missa é de joelhos e dura 3 horas. Tudo é feito com um brio e um zelo incrível.
    Obrigada pela partilha e boas férias

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