Em Caná da Galileia...


A Palavra faz-Se carne

Todas as noites, a nossa oração inclui um momento muito especial: o recontar da história do símbolo do dia da Árvore de Jessé, e a leitura do respetivo versículo bíblico. Quem tem feito a Árvore de Jessé todos os dias, dá-se certamente conta de um detalhe curioso: todas as passagens bíblicas, sejam elas retiradas do livro do Génesis ou dos profetas, do livro do Êxodo ou dos livros dos Reis, apontam para Jesus.

“Ah!” Exclamam os meninos, invariavelmente, ao escutar a conclusão. “Então já nessa altura Deus estava a pensar em Jesus!” Essa altura é, por exemplo, a conquista de Jericó, ou o episódio da sarça ardente, ou a entrega das tábuas da lei no monte Sinai, ou as profecias de Isaías, ou as lamentações de Jeremias, ou o pecado de Adão no Jardim do Paraíso. Sim, já nessa altura Deus estava a pensar em Jesus… Dizem-nos as meditações da Árvore de Jessé que Jesus é…

…o novo Adão;

…a  Nova Aliança, que Deus fez e refez com Noé, com Abraão e com Moisés;

…o novo Isaac, oferecido em sacrifício por todos nós;

…a verdadeira Escada de Jacob, que uniu, para sempre, o céu à terra;

…o verdadeiro José, traído pelos irmãos e vendido por trinta moedas de prata, que a todos sacia a fome com o Pão do seu amor, na Eucaristia;

…o verdadeiro Moisés, enviado por Deus para resgatar um povo escravo;

“Sarça-ardente” feita Sagrado Coração, espinhos e lume misturados, ardendo sem queimar no fogo de amor;

Cordeiro Pascal, alimento da libertação de um povo escravo;

…a nova Tenda da Reunião de Israel, verdadeira morada de Deus entre os homens, caminhando connosco no nosso deserto;

…o mais perfeito Cerco de Jericó, no mistério da sua morte e ressurreição, capaz de derrubar o nosso pecado, resistente como as muralhas de Jericó;

…a verdadeira luz, que só pode brilhar quando partimos o cântaro do nosso orgulho, da nossa vaidade e do nosso pecado, como Gedeão e o seu exército;

…o verdadeiro Samuel, crescendo em estatura, sabedoria e graça no Templo do Senhor;

…o verdadeiro David, Bom Pastor capaz de dar a vida pelas suas ovelhas;

…o verdadeiro altar de Elias, consumido até ao fim no fogo do seu amor;

…o verdadeiro Neemias, enviado por Deus para reconstruir as nossas muralhas interiores, fortalecendo-nos contra o pecado e permitindo-nos regressar à verdadeira Jerusalém – a eternidade junto de Deus.

Ao longo dos anos, tenho encontrado alguma resistência da parte dos catequistas, um pouco por todo o país, em relação às histórias do Antigo Testamento. “Não devemos aproveitar o tempo para falar mais de Jesus?” Para mim, é com grande espanto que me dou conta que o Antigo Testamento só surge na catequese no quarto ano (não na nossa paróquia, onde seguimos as catequeses propostas pelos Mistérios da Fé). Como é possível passar três anos a falar de Jesus sem contar histórias do Antigo Testamento? Poderemos sinceramente conhecer Jesus sem conhecer toda a esperança a que Ele deu Carne e Sangue? Por que é que Jesus é o Salvador? Quem clamou por um Salvador? O Jesus que vem levar ao pleno cumprimento as promessas de Deus, o Jesus que o povo inteiro esperou, desde Abraão até João, não pode ser verdadeiramente conhecido senão a partir da Bíblia inteira.

Ontem, o correio trouxe-nos uma carta. É sempre uma alegria quando esta carta chega, trazendo no envelope uma boa notícia: “Palavra Partilhada”.

“Meninos, chegou a carta da Palavra!” Disse, quando nos sentámos para jantar. Abri o envelope e lemos a carta como oração de ação de graças pelo alimento que o Senhor nos dá, alimento para o corpo e alimento para a alma numa mesma refeição. Com a carta, uma surpresa: um marcador para a nossa Bíblia.

A Bíblia inteira não fala senão de Jesus, a Palavra, o Verbo de Deus, dita, murmurada, cantada, rezada, partilhada, enviada, e finalmente, Encarnada.

E isto é Natal.

 

 

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