Em Caná da Galileia...


A Páscoa, o Tríduo e o martírio

Não se chega ao domingo de Páscoa sem antes se passar pelo Tríduo Pascal. Podemos, talvez, celebrar a ressurreição do Senhor durante uma Eucaristia profunda e vivida na manhã de Páscoa. Mas não é, de forma alguma, a mesma experiência pascal de quem vive estes acontecimentos, a par e passo, na quinta e na sexta-feira santas. Não pode ser! Tal como não é a mesma coisa visitar um amigo moribundo no hospital, ver de perto o seu sofrimento, os soros, os tubos, os rostos dos médicos, enfermeiros e companheiros de quarto, segurar as suas mãos entre as nossas e beijar-lhe as feridas, e ali ficar até ao fim; ou simplesmente receber a notícia, por outros, da sua morte e do seu funeral, depois de tudo terminado.

É por isso que as nossas igrejas enchem nos dias do Tríduo Pascal, mesmo não sendo dias de “obrigação”. Os cristãos sentem naturalmente esta necessidade de acompanhar o Amigo no seu sofrimento até ao fim, para que depois, a alegria da sua ressurreição seja infinitamente mais intensa também.

Foi assim cá em casa. Depois das longas e belas celebrações de quinta e sexta-feira, chegou a grande e solene Vigília Pascal. Apenas o Daniel, a Sara e eu ficámos em casa. Para o António, a Lúcia e o David, tratou-se da primeira Vigília (nos anos anteriores, a Vigília começara muito tarde). O António especialmente, mal podia esperar para assistir ao seu primeiro “lume novo”, ele que é o homem das fogueiras. O Francisco e a Clarinha tinham-lhe dito que iria adorar…

“Se o António adormecer, por favor não deixe que ele caia redondo no chão”, pedi eu à São, que também ia acolitar. Ela riu-se e prometeu-me estar atenta, mas não foram precisos cuidados: depois de tocar as campainhas durante o Glória, o António disse-me que ficou completamente desperto. Não queria perder nenhum momento da sua primeira Vigília! O “lume novo”, claro, foi a sua parte preferida.

A missa terminou, mas os meninos não regressaram logo a casa: havia bolo de batismo para comer, pois a Carolina LeBlanc, um mês mais velha que o Daniel, foi batizada na Vigília e a sua mamã quis que toda a paróquia partilhasse da sua alegria. Além disso, há no pátio do santuário um campo de futebol, onde sabe tão bem jogar sob o céu estrelado… Bolo e brincadeira: que melhor forma de iniciar a madrugada pascal?

Noutras partes do mundo, contudo, a manhã de Páscoa não começou com bolo e brincadeira. Noutras partes do mundo, a manhã de Páscoa começou com bombas e morte. Se o Tríduo Pascal nos prepara para o grande dia, estes “tríduos” que milhões de cristãos pelo mundo inteiro atravessam nos nossos tempos preparam a Igreja, sem qualquer dúvida, para uma nova era de fé.

Vítimas dos de fora e vítimas dos de dentro, a nova geração de católicos atravessa hoje uma longa Sexta-feira Santa… Quando chegará, para a Igreja, a verdadeira madrugada?

A boa notícia é que Jesus ressuscitou. Ressuscitou! Já nos demos conta? Ele está vivo! Os irmãos que morreram na manhã de Páscoa às mãos dos terroristas estão vivos também! Hoje, nestes tempos de facilitismo que vivemos, e depois de filmes como Silêncio, que tanto deu que falar há uns tempos, muitos cristãos acham absurdo o martírio e justificam a apostasia. Consideram sensato faltar às celebrações pascais por causa dos compromissos com as atividades desportivas e escolares, ou até mesmo porque é bom descansar, mas acham uma irresponsabilidade arriscar-se a morrer mártir, frequentando igrejas em países de perseguição aos cristãos.

Contudo, como nos relembrava o Papa Emérito Bento XVI e eu já citei, o martírio pertence à mais profunda definição de cristianismo. Depois de sofrerem a sua primeira flagelação, os apóstolos reagiram assim:

Quanto a eles, saíram da sala do Sinédrio cheios de alegria, por terem sido considerados dignos de sofrer por causa do Nome de Jesus. (At 5, 41)

Não se chega ao Domingo de Páscoa sem antes se passar pelo Tríduo Pascal. Louvemos o Senhor pelos mártires desta Páscoa e peçamos-Lhe perdão pelos que lhes proporcionaram tamanha honra!

Quanto a nós, cantemos aleluia enquanto pedimos ao Senhor um coração pascal, vigilante, atento aos sinais da madrugada, capaz de atravessar qualquer noite, desperto pelas campainhas do Céu…

Aleluia! Aleluia! Aleluia!

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