Em Caná da Galileia...


A retinir nos nossos ouvidos

Oração familiar, ontem à noite. A primeira leitura é muito conhecida dos meninos, e a Sara vai como que fazendo a mímica da história enquanto leio. Por fim, chegamos ao momento fulcral:

“Samuel! Samuel!” E Samuel respondeu: “Fala, Senhor, o teu servo escuta!”

Todos abrem os ouvidos. Mas eis que a leitura conclui placidamente:

Samuel foi crescendo. O Senhor estava com ele e nenhuma das suas palavras deixou de se cumprir.

“Mãe” A Lúcia está particularmente desiludida. “Há anos que ouço essa história, mas nunca descobri o que é que Deus falou a Samuel! Nunca nos contam essa parte! Que palavras é que se cumpriram? Podes dizer-me o que é que Deus falou a Samuel?

“Tens toda a razão, Lúcia”, respondo, enquanto os outros me olham com curiosidade. “Vamos descobrir? Francisco, abre a Bíblia no Primeiro Livro de Samuel, por favor…”

Alguns segundos mais tarde, estamos todos preparados para escutar:

O Senhor disse a Samuel: “Eis que vou fazer em Israel uma coisa que fará retinir os ouvidos a todo aquele que a ouvir. Nesse dia cumprirei contra Heli todas as ameaças que anunciei contra a sua casa. Começarei e irei até ao fim. Anunciei-lhe que condenaria para sempre a sua família por causa da sua maldade, pois sabia que os seus filhos se portavam indignamente e não os corrigiu.” (1Sm 3, 11-13)

Os meninos olham-me horrorizados. Condenar para sempre?

“Estão a ver porque razão a Igreja decidiu saltar este pedacinho das Escrituras, quando organizou o missal? Esta parte não aparece, nem na missa diária, nem na missa dominical, quando esta leitura surge. Imagino que seja por causa deste ‘para sempre’. Sabemos, com Jesus, que o ‘para sempre’ somos nós que decidimos, porque Deus perdoa no exato momento em que nos arrependemos, ainda antes de nos confessarmos. Portanto, é preciso ler esta Palavra à luz do conhecimento de Deus que Jesus nos trouxe.”

“Sim, não imagino Deus a condenar Heli para sempre. Ainda por cima, ele parecia tão espiritual, ensinando Samuel a escutar o Senhor!”

“Claro. A sua boa obra para com Samuel não foi esquecida por Deus. Mas vamos agora ao cerne da questão: Deus pede a Samuel que diga a Heli o quão desapontado está com a sua atitude. Recordam-se que atitude é esta que Deus condena?”

“Heli sabia que os seus filhos se portavam mal, e não os corrigiu.”

Silêncio. É a Clarinha, a primeira a falar:

“Então quer dizer que o Purgatório dos pais e das mães pode ser muito longo, ao deixarem os filhos fazer tudo o que lhes apetece, apanharem bebedeiras e fumarem nas festas, faltarem à missa ao domingo de manhã por preguiça, verem o que não devem na televisão e jogarem online pela noite fora…?”

“Sim, Clarinha, estou convencida de que sim. Nós, pais e mães, teremos de dar contas a Deus pela forma como educámos os nossos filhos, tal como os sacerdotes terão de dar contas a Deus pela forma como educaram os seus paroquianos, espiritualmente falando. Ser pai e mãe é uma tarefa muito exigente. Deus não brinca em serviço! Claro que só podemos fazer a nossa parte, porque os filhos crescerão livres de tomarem as suas decisões. Mas da nossa parte de responsabilidade, não nos livramos!”

A conversa continuou ainda mais um pouco. Falámos de vários exemplos da vida dos santos e falámos do que os meninos vêem nas escolas e na universidade. Finalmente, depois de rezarmos o Terço, decidi sentar-me aqui e contar-vos, também a vós, o que Deus disse a Samuel, para que fique “a retinir nos nossos ouvidos.”

Onde vamos buscar a força para tão grandiosa tarefa?

Nós, Jesus! 

 

4 Comments

  1. Catarina Silva

    Hoje, creio que compreendi tudo…Há dias em que sou um bocadinho lenta 🙂
    Este post toca num assunto muito sério, que me tira o sono muitas vezes e que é a responsabilidade na educação e sobretudo na correcção dos filhos. Não se trata só de educação, trata-se de correcção no caminho que estão a tomar. E é muito difícil, exigente e por vezes desgastante ensinar uma e outra vez, a maior parte das vezes contra tudo e contra todos…Realmente só com a ajuda do Senhor! Sozinhos é impossível!
    Uma coisa é certa: as contas a dar a Deus, pela inercia e pelo “deixa- andar-que-se-todos-fazem-não-tem-problema”, são demasiado pesadas. Acho que muitas pessoas não têm consciência disto, infelizmente…
    Obrigada Teresa, pela análise cristã e católica de mais um tema “do mundo” comum a todos nós!

  2. Catarina Ramos Tomás

    “Onde vamos buscar força para tão grandiosa tarefa?”
    Eu venho buscá-la muitas vezes aqui…
    Porque os testemunhos de todos, não me deixam desanimar… Os que resultam, os que não resultam…
    Porque sei que rezam por mim…

  3. Isabel Marantes

    Obrigada, Teresa, por conseguir sempre relacionar a Palavra de Deus com a nossa vida diária!
    Cá em casa esta leitura fez com que falássemos sobre a importância de darmos tempo para ouvir Deus durante o dia, mas sobretudo logo que o dia começa. Temos de ligar o GPS (de que a Teresa fala noutro post) logo de manhã, pois não são todos os dias uma oportunidade de encontro com Deus?
    O Luís comentou como lhe dá força quando ao acordar se ajoelha e reza: “Servirei, Senhor”! Eu falei-lhes da oração de abandono de Charles de Foucauld que rezo ao acordar…
    A Leonor e o Miguel gostaram muito da frase de Samuel: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta”! e tentam rezá-la logo ao acordar. O David, de 5 anos, e que ainda mistura o inglês com o português reza simplesmente: “Aqui estou, meu Deus, your son David!”
    Não importa como o fazemos, mas façamos de cada dia, desde que o dia começa, um caminho em direção a Deus!

  4. Ainda não sou mãe…sou filha! Recordo, em tempos, de ouvir algo que me fez muito sentido e me ajudou a encontrar resposta para algumas questões que me inquietavam. Alguém dizia que na condição de pecadores somos todos solidários e que essa solidariedade permite que Deus “se solidarize” connosco reparando-nos e que nós nos solidarizemos uns com os outros reparando-nos uns aos outros. Ficou gravada no meu coração a expressão: a reparação é a via da consolação a Deus e a possibilidade que Ele nos oferece de refazermos as contas da história.
    Fico muito grata ao Senhor por esta possibilidade de, no dia a dia, poder reparar algo que foi menos bom da história da minha família consolando-O, para que todos tenham um lugar no Céu pela graça de Deus (de preferência sem passarem pelo purgatório!!! 😀 )
    Agora basta aprender com a Jacinta como se faz?! 😛 Ela é a melhor mestra para nos ensinar a mudar os planos do Pai!

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