Em Caná da Galileia...


A rotina de quem não tem rotina

Ao longo dos anos, muitos leitores deste site têm-me dado a alegria de me escrever, partilhando comigo a sua caminhada, os seus problemas e as suas alegrias. Frequentemente, colocam-me questões, que eu vou respondendo individualmente.

Porque muitas destas questões se repetem, decidimos iniciar um formato aqui no site de perguntas e respostas, sempre que se justifique. Assim, de vez em quando, Em Caná da Galileia proporá uma resposta a alguma questão vossa. Posso ser eu a responder, pode ser algum outro Power, ou pode ser uma família que me pareça estar mais capacitada para o fazer, dependendo da pergunta que chegar. Venham daí essas perguntas!

E que tal começarmos?

Esta semana chegou-me uma pergunta muito interessante, feita por uma enfermeira muito empenhada no seu trabalho, que vai casar brevemente. Diz assim:

Teresa: ajude-me a compreender como se pode ser mãe e esposa sem rotina, trabalhando por turnos…nenhuma semana é igual à outra, não há sábado, domingo, feriado; o Natal não é festa de família, a semana Santa não é vivida com a comunidade, a Páscoa, os aniversários…os momentos importantes talvez tenham que ser vividos no coração, em silêncio, à cabeceira dos doentes. Isso resulta quando não se tem uma família…e encontrar Jesus aí é algo belo e misterioso. Mas….como podem marido e filhos compreender que a mãe tem de estar no hospital no dia dos seus aniversários? Como podem compreender que a mãe não está na missa do galo? Na eucaristia dominical? Na festa da escola? Não pode rezar todos os dias antes de dormir? Não está em casa durante a noite algumas vezes por semana?

Eu tenho uma vida profissional intensa, como professora. Mas precisamente porque sou professora, não sei o que é trabalhar fora do horário em que os meus filhos também estão ocupados na escola. Assim, pedi à Sónia Santos, enfermeira dedicada e mãe de cinco filhos (um deles ainda não nasceu) que respondesse à nossa leitora. E ela assim fez:

Resposta da Sónia Santos

Sou casada há nove anos, espero o 5º filho e sou enfermeira.
Antes de mais dizer-lhe: tudo é possível! Mas também nem tudo é desejável…

Rotina? É uma coisa que não existe na vida familiar, existem antes rotinas que se vão criando para encaixar o que tem de ser com o que queremos que seja. No meu caso, nos 9 anos de casamento estou grávida pela 5ª vez, o que significa 5×3 meses pré-parto sem trabalho noturno, 4×6 meses de licença parental, 4×6 meses de redução de horário por amamentação e sem turnos, etc.. Imagina quantas rotinas já existiram cá em casa?

Apesar de tudo isto, percebo bem as suas questões porque nos períodos de horário normal elas também surgem. Às vezes, só começando a vivenciar as experiências é que vislumbramos as soluções. Imagine subir uma montanha. Cá de baixo parece impossível. Caminho andando é que se encontra o caminho, aquela pedra mesmo a jeito com outra logo a seguir…

Indo às suas questões, umas são de resolução simples, basta alguma dose de boa vontade e sentido prático. A regra mãe é: descomplicar, descomplicar, descomplicar! Para começar a descomplicar posso dizer que, na prática, o único turno que implica mais com a nossa rotina familiar, com o tempo de família mais nobre, são os turnos da tarde. Isto durante a semana, porque ao fim de semana já é este o turno que permite maior aproveitamento do tempo em família. Até já fizemos um mês de férias de verão, num ano que não foi possível conjugar as minha férias com o encerramento da creche, comigo a trabalhar todos os dias no turno da tarde, rezando e indo à praia em família durante a manhã.

Os dias de aniversário (que na maior parte das vezes calham em dias de semana) encaramo-los como o fazem quaisquer outros pais que trabalham de segunda a sexta-feira. Os aniversários calham quando calham e a festa faz-se sempre no dia e no fim de semana mais próximo possível. Nós enfermeiros, trabalhamos por turnos, mas apenas trabalhamos 8h por dia como qualquer outro trabalhador, portanto é sempre possível o encontro e o desfrutar da alegria que a memória destes dias nos traz, podendo no limite implicar uma troca de turnos.Posso afirmar que nunca precisei de faltar a nenhuma festa da escola. Há sempre uma troca possível com algum colega (tenho 3 filhos na mesma escola e às vezes as festas são em dias diferentes da mesma semana!).

Missa dominical

Quanto à missa dominical, não há qualquer impedimento. Jamais! Nunca em domingo algum deixámos de ir à missa juntos. Isto é absolutamente inalterável, haja o que houver. E os nossos filhos vão à missa a partir do momento em que têm alta da maternidade. No que depende do horário de trabalho é muito fácil, ou vamos de manhã, ou vamos à tarde. E no nosso país raras são as famílias que não têm acesso a uma Eucaristia Dominical entre o sábado à tarde, o domingo de manhã ou o domingo à tarde, num raio de menos de 20Km.

Oração familiar

Sempre que a mãe não está em casa depois do jantar para rezar, rezam só com o pai, isto não é problemático. As crianças são óptimas a aceitar os inevitáveis, assim os adultos os encarem e lhos apresentem de forma tranquila e pragmática. Isto não acontece só a enfermeiros, acontece também com muitas outras profissões. E feitas as contas, são muitos mais os dias em que está a família toda reunida do que o contrário.

Algumas noites (ou serões, no caso dos turnos da tarde) fora de casa por causa dos turnos da noite felizmente só acontece depois da criança ter 1 ano ou terminar o período de amamentação, que pode ir no máximo até aos 3 anos. Isto significa uma vantagem enorme no que toca ao período (primeiro ano e para algumas crianças até aos 2/3) em que eles ficam mais vezes doentes e/ou solicitam maior atenção durante a noite.

Apoio à maternidade

Por outro lado a lei prevê a possibilidade de isenção de trabalho por turnos (neste caso, fazer só os turnos da manhã) até aos 12 anos do filho mais novo. E há ainda a possibilidade de estender as licenças de maternidade para além dos convencionais 150 dias, e outra licença para apoio a filhos a gozar até aos  6 anos do filho mais novo (neste caso sem vencimento) que se pode utilizar em qualquer altura pelo tempo que  for necessário. No ano passado optei por ausentar-me do trabalho nos dois meses correspondentes às férias de verão deles, para que eles pudessem, nesse período, ser acompanhados em sua casa pela sua mãe, proporcionar-lhes a convivência entre irmãos que é uma coisa riquíssima, etc.

Isto para dizer que no que toca a leis que suportem a maternidade não estamos assim tão mal.  E, mais importante do que aquilo que legalmente facilita a gestão trabalho/vida familiar, cabe aos pais também fazer opções e estar atentos ao que a sua família precisa mais, em determinado período. Muitas vezes a opção pode ser a de trabalhar menos, (obtendo menos rendimentos, claro) com o objectivo de preservar os essenciais tempo de família e tempo para Deus. E quanto a isto não temos dúvidas. Fazem-se as contas necessárias, corta-se aqui e ali, adquirem-se novos hábitos mais sustentáveis, faz-se um bocadinho ou muito mais sacrifício e avança-se, sempre analisando a cada dia se é preciso repensar a estratégia.

Vocação vs. profissão

O enfermeiro pode ainda optar por um Serviço em que não tenha de trabalhar por turnos, estas mudanças nem sempre se fazem com a celeridade desejada, ou então, nem sempre são as que nos agradam mais do ponto de vista profissional. Temos de ter muito clarificado na nossa cabeça qual é o centro da nossa vida. A vocação que escolhemos viver foi a do matrimónio e, portanto é, acima de tudo, esse vínculo que determina todas as nossas decisões. A profissão, no limite, poderá ter de se reduzir a  um meio que serve este propósito. E mudar completamente de trabalho, de profissão, até, ou de cidade, etc, pode ser uma opção.  Isto não me impede de gostar muitíssimo do trabalho, serviço e área específica em que trabalho, nem de me empenhar profundamente em cada hora do meu trabalho e com cada doente que cuido, mas não é com essa vocação que estou sacramentalmente comprometida e no meu Serviço o bom cuidado dos doentes não depende única e exclusivamente de mim. Já na minha família eu sou a única mãe e esposa que existe.

A vida familiar passa por muitas fases e se hoje, com filhos pequeninos, percebemos que o tempo que ela nos exige é maior, temos de o proporcionar, sabendo que à medida que forem crescendo naturalmente os tempos se vão também ajustando.Às vezes estas decisões implicam uma boa dose de coragem e liberdade em relação ao comum, “ao todos fazem assim”, ou “lá no meu Serviço nunca ninguém pediu isso”. Liberdade também em relação aos medos e inseguranças que a família alargada (este não é o meu caso, graças a Deus!) e/ou a sociedade nos incutem de o mais importante de tudo ser garantir à família capacidade financeira, nem que isso signifique viver para acumular, ou para sustentar “coisas e mais coisas” que sabemos, não levam ninguém para o Céu…

Folgas e épocas festivas

Quanto aos fins-de-semana e épocas litúrgicas fortes vai-se também tomando decisões. Umas vezes temos horários mais convenientes e outras vezes temos horários de ir às lágrimas! Principalmente no que toca aos fins-de-semana. No entanto, cá em casa é garantido dias extra em casa quando a mãe está de folga durante a semana. E isso tem-se revelado muitíssimo importante pelo maior acompanhamento que conseguimos dar, pela rotina de dias em casa sem ser só de fim-de-semana, pelo poder partilhar o dia com os irmãos.

No Natal, no meu Serviço não é permitido tirar férias, podemos apenas manifestar a nossa preferência entre trabalhar no Natal ou Ano Novo. Para quem passa esta época litúrgica noutra cidade para se juntar à família alargada, a gestão às vezes é mais difícil, mas tudo se faz, mediante o que for razoável para cada família. Quanto à Páscoa, temos sempre optado por tirar férias no Tríduo Pascal, de modo a garantir a total disponibilidade para vivenciar todas as celebrações próprias desses dias até ao dia de Páscoa, em família. Este é para nós um período muitíssimo nobre em que fazemos absoluta questão de estar 100% disponíveis.

Entre o conforto e a cruz

Indo agora, não à vida fácil ou difícil de uma família cuja mãe é enfermeira que trabalha por turnos mas, à vida de uma mãe cristã. A vida de um Cristão não depende de circunstâncias, nem de profissões mais, ou menos exigentes. A vida de um Cristão não é para ser fácil, nem cómoda. A vida de um Cristão há-de ser vivida tornando sagrada a sua vocação, ou seja, com sacrifício. É o aqui e agora que temos de levar ao Céu, com o marido que temos, os filhos que temos, a saúde ou doença que temos, a profissão ou horários que temos, as tristezas ou as alegrias que temos. É entregando tudo nas mãos de Deus, para Sua maior glória. É oferecer o meu pequeno, ou grande insuportável pelos outros, pela santidade dos filhos. É viver a comunhão dos santos verdadeiramente e gerar Bem no mundo (longe ou perto) a partir do que vamos conseguindo alcançar de santidade.

“Saber, saber ser, saber estar, saber fazer e acima de tudo amar” este era o refrão do hino de enfermagem da escola onde estudei. Ser cristão é também assim, implica uma atitude activa, implica com uma sabedoria, esta, que decorre da oração e da relação íntima com Deus. Em tudo rezar: “Nós, Jesus! Tu e eu, juntos na cruz, juntos no céu.”. Implica, acima de tudo, com o Amor que colocamos nas coisas, que nos permite a constância de um olhar de Alegria e Esperança perante todos os desafios de que a vida é feita.

Carlo Acutis, um jovem italiano que morreu em 2006, com 16 anos e é considerado venerável pela Igreja, dizia uma coisa muito certeira, que nos atinge como uma espada de luz no coração: “A tristeza é um olhar voltado para si mesmo, a felicidade é um olhar voltado para o Céu”.

O pai também pode responder?

No início do nosso casamento achei que podia ser um pai moderno que fazia de pai e de mãe quando esta não estava. Por isso habituei-me nos primeiros tempos a ser pai solteiro por turnos. Mas com o tempo percebi que nunca conseguiria fazer de mãe, que os filhos sentem mesmo a falta da mãe quando ela não está, e essa falta é insubstituível.

Mas percebi também que quando essa falta é por turnos, isso não é necessariamente trágico. Pelo contrário, as crianças percebem a diferença dos jantares em que a mãe não está e até colaboram um bocadinho mais, na oração familiar são capazes de se portar um bocadinho melhor. Enfim, como em muitas outras coisas uma pequena privação ajuda-nos a todos a valorizar o que temos!

Rotina? Sim, temos. Quando a mãe faz o turno da manhã eu visto e dou o pequeno almoço a 4 pequenos e levo-os às escolas antes do trabalho, e quando regresso a casa do trabalho já a restante família me aguarda para um maravilhoso jantar e serão familiar. Quando a mãe faz o turno da tarde temos um alegre início de manhã em família antes do trabalho e das escolas, e ao sair do trabalho recolho as crianças nas escolas e ao chegar a casa encontramos o jantar prontinho a comer e a mesa posta que a mãe deixou antes de ir trabalhar (afinal está ausente mas presente em gestos), e assim garantimos que a hora mais tardia de chegada a casa não compromete o tempo de família e o tempo para Deus. E quando a mãe faz o turno da noite, é mais ou menos como quando faz o turno da manhã.

Por isso temos uma rotina… por turnos!

3 Comments

  1. Pilar Pereira

    Que maravilha de respostas! Eu sou professora, mas adorei ler a forma descomplicada como vivem a vida, na vossa realidade.

  2. Olívia Batista

    Uau! Teresa, adorei este novo formato!

    Família Santos, a vossa rotina é maravilhosa, com tudo o que conseguem “por turnos”, num destes dias ouvi a frase “a nossa vida não pode ser condicionada pelo nosso ponto de partida, mas pelo ponto onde queremos chegar”, e este vosso testemunho mostra isso mesmo!

  3. Maria Gonçalves

    Que maravilha de resposta! Ótimo testemunho…
    Adorei ler e perceber a forma tranquila e descomplicada como vivem a vida com filhos ainda pequenos.

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