Em Caná da Galileia...


A Via Sacra e o poder do amor de Deus

Todos os anos, em noite de Sexta-feira Santa, a paróquia de Mogofores sai à rua para rezar a Via Sacra. A cada ano, o percurso é diferente, para que a cada três anos, a Via Sacra percorra as três zonas principais da aldeia. As estações são rezadas diante das casas dos paroquianos, que adornam as entradas com a cruz do Senhor e cobrem o chão e os muros de velas. Para mim, não há noite mais bela em Mogofores que a noite da Via Sacra. Vivo o ano inteiro à sua espera, e seria uma enorme tristeza não tomar parte desta noite iluminada.

Mas sexta-feira passada, a chuva teimou em cair quase todo o dia. E à chuva, juntou-se o temporal, o frio, o vento. Pela primeira vez, pensou-se na necessidade de fazer a Via Sacra simplesmente nos pórticos do Santuário.

“Um pouco de fé! A Via Sacra irá sair como costume”, afirmou o nosso pároco, no final da celebração da Morte do Senhor, a meio da tarde. Teríamos nós esse pouco de fé?

A noite chegou. O vento soprou as nuvens para os lados e a lua mostrou o seu brilho. No céu assim iluminado, podíamos nomear as constelações… Sorri e pisquei interiormente o olho a Jesus:

Quem é este homem, a quem até o vento e o mar obedecem? (Mc 4, 41)

No cimo da colina, os paroquianos reuniram-se para a bela oração do Caminho da Cruz. Este ano, o senhor padre propôs para reflexão o texto da Via Sacra que escrevi para as Famílias de Caná, aqui disponível no site. Já o conhecem?

Mas este ano houve uma novidade: pela primeira vez, tivemos a ousadia de chamar as crianças e os jovens para participar na representação de quadros vivos em cada Estação. E nem o vento, nem as previsões de chuva, nem os ditos concertos na Feira de Março os afastaram: no cimo da colina reuniram-se os soldados, as mulheres de Jerusalém, Verónica, a Mãe de Jesus, Simão de Cirene, S. João, Pilatos e, claro, Jesus. Os acólitos, de tochas acesas, seguiam atrás da Cruz. E os cantores espalhavam-se pelo povo, para a todos ajudar a louvar o Senhor. O cortejo da Morte de Jesus podia começar.

Percorri esta Via Sacra com especial gratidão. Gratidão pelos catequistas, especialmente o João e a Isabel, queridos pais de Família de Caná e colaboradores assíduos deste site, que souberam ensaiar e preparar os quadros vivos; mas também por todos os catequistas que souberam entusiasmar os seus meninos a participar, renunciando aos atrativos mundanos propostos para este dia como tentações poderosas. Gratidão pelo nosso pároco, que com a sua fé, a todos contagiou. E gratidão para com o Senhor, que afastou as nuvens e fez brilhar as estrelas.

Olhando para o Francisco, representando Jesus, senti um arrepio percorrer-me todo o corpo. O Niall confessou-me depois que experimentou a mesma sensação incómoda. Tratava-se de uma representação, mas mesmo sendo representação, custa ver o nosso filho coroado de espinhos e com uma cruz às costas. Pensei em Maria, e percebi que a sua dor era inimaginável. Como pôde Ela contemplar Jesus torturado até à morte, e mesmo assim, perdoar e acolher-nos a todos como filhos? A cada dia admiro mais esta mulher, que Deus escolheu para Mãe do Salvador.

Chegámos ao fim da Via Sacra. Entramos na matriz a cantar Deus é Rei! Deus é Rei! e aclamando Jesus. E é então que, lá fora, ressoam as primeiras gotas de chuva. E com que força batem no chão! Todos exultamos, com a certeza de presenciar um milagre. Pois qual seria o humano que, por mais que se esforçasse, podia segurar as nuvens durante o tempo exato que demorou o caminho?

Sem Via Sacra, não há domingo de Páscoa. A Via Sacra é o único caminho que leva à Ressurreição. Porque foi o amor até à cruz que irrompeu naquela manhã de Páscoa como força que nenhuma morte pode conter.

Depois de uma noite assim, de estrelas e de renúncia, de gratidão e de desconforto, de fé e de confiança, o grito de Aleluias ressoa, alegre, do mais profundo da nossa alma. Ele está Vivo! Aleluia! Aleluia!

3 Comments

  1. Ricardo Correia

    Aleluia!
    Olá! Espero que a Páscoa tenha sido santa e boa para sua família, como foi para mim e para a minha mãe. Pena que este ano não tenha podido ir na via sacra. Perdi o meu pai a um ano atrás e a minha mãe como tem asma e não pode apanhar muito frio, este ano, não nos foi possível ir, com muita pena nossa. Mas não deixou de ser uma Santa Páscoa, com muita alegria e muita fé. Sempre que ligava o rádio ou via o noticiário, davam chuva para o fim-de-semana da Páscoa, com agravamento a partir de sexta-feira, então eu rezei a pedir a Deus que no sábado e domingo, pelo menos não chovesse, milagre ou não, a partir de sexta-feira a noite o tempo melhorou e não choveu e a via sacra saiu sem chuva. No domingo recebemos com muita alegria o compasso em nossa casa e Cristo na nossa vida. Já agora gostava de saber o significado do compasso para sua família. E para terminar gostava de de saber quando um convívio de família de cana, aqui em São João da Madeira, que fica mais ou menos a 40 kilometros de Aveiro. Cada vez mais adoro este site e a sua família.

  2. Imagino o arrepio… não consigo sequer imaginar a dor de Maria…
    Na Via Sacra a que fui, ficamos no pequeno Santuário e acabei por não participar nas da minha Paróquia… há dias piores… há dias melhores…
    Ainda bem que não choveu! Mimos de Deus!!!

    Perante o Mistério da Paixão, pergunto-me sempre… este é, para mim o Mistério maior, mais complexo do que a Ressurreição ou a Consagração…
    E peço perdão e perdão, pois ainda hoje O crucificaríamos… continuamos sem estar à altura da redenção e tropeçamos continuadamente nos mesmos erros…
    Que o Senhor nos guie! Vem aí o domingo da Misericórdia!!! Aleluia

  3. Confesso que também senti um certo desconforto quando vi o Francisco com a coroa de espinhos e carregando a cruz. Disse a mim própria que era apenas uma representação, mas o coração teimou em sentir um certo receio de “e se isto fosse a sério?”… Se senti o que senti e nem sou mãe (ainda), nem imagino a dor tremenda de Maria…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *