Em Caná da Galileia...


A vida em Mim maior

João Batista é um profeta verdadeiramente grande, como disse Jesus aos seus amigos. Algumas das suas afirmações continuam a ecoar em nós e nas nossas igrejas, ajudando-nos a perceber o mistério de Deus: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” é talvez a mais poderosa.

Mas há outra que alimenta a minha oração continuamente:

É preciso que Ele cresça e eu diminua. (Jo 3, 30)

Se João foi grande, é precisamente porque foi capaz de diminuir. E diminuir na nossa importância não é, de todo, fácil! O nosso “eu” será, até ao fim da vida, o nosso maior inimigo e o último obstáculo a superar antes de entrarmos no Céu. Senão, façamos o teste:

Quando os outros me interrompem, deixo a frase por concluir, ou recupero a palavra logo que posso, interrompendo eu também?

Quando sei que me criticam ou caluniam, deixo correr com um encolher de ombros, ou fico “de rastos”?

Nas relações familiares ou de amizade, estou mais preocupado em construir harmonia, ou em ter razão?

Nas minhas conversas, preocupo-me mais com o “tu” que está diante de mim, com as suas coisas, os seus assuntos, ou estou continuamente a voltar ao “eu”, aos meus pensamentos e aos meus problemas?

Em família, procuro servir, dar espaço, deixar o outro ficar com a melhor parte, ou sou cioso do meu tempo e do meu espaço, das minhas coisas e das minhas preferências?

Nas redes sociais, procuro ser atencioso, alegre e simples, ou estou continuamente a marcar a minha opinião, a divulgar os meus “feitos gloriosos”, a provar que tenho razão, a “bater o pé”?

Quando as coisas não correm segundo os meus planos; quando os outros se atravessam no meu caminho; quando sofro uma tremenda injustiça; quando sou atraiçoado; quando o mundo parece estar contra mim, reajo com rispidez, ironia, amargura, ou mantenho a serenidade, a paciência e a alegria (sim, a alegria)?

Na minha relação com Deus, procuro aprofundar a minha fé, descobrir a Palavra, penetrar no mistério sagrado, ou passo o tempo a esmiuçar o meu passado, o meu pecado, os meus sentimentos e os meus pensamentos, numa autoanálise sem fim, não me permitindo nunca saborear simplesmente o perdão recebido e a alegria dos anjos face ao meu regresso?

Tenho cá em casa um livrinho pequenino mas precioso, que guardo na mesa-de-cabeceira como um tesouro. Chama-se O Manuscrito do Purgatório. Deixo-vos aqui algumas citações importantes para nos ajudarem neste esforço de diminuir, a fim de que Ele cresça. Ler estas passagens faz-me sempre ver o quão longe estou da perfeição, e do quão ridículo é, portanto, armar-me em “crescida”:

A renúncia perpétua à sua vontade, aos seus gostos, à sua maneira de ver, é um longo e meritório martírio que Deus muito aprecia.

Quantas vidas parecem repletas de boas obras e, à hora da morte, estão vazias – porque todas essas coisas aparentemente boas, todas essas ações notáveis, toda essa conduta que parecia irrepreensível, tudo isso não foi feito só por Jesus. O móbil das suas existências era aparecer, brilhar, ser considerados cristãos cumpridores. E aqui na outra vida, que deceção!

Acabaram-se as reflexões sobre si mesma, isso é só amor-próprio. Abra o coração à graça, una-se a Jesus e não desperdice o seu precioso tempo a examinar os porquês das coisas.

E finalmente, o segredo da felicidade:

Necessita de chegar a uma união tão grande com o bom Deus, que nada a perturbe: dores e alegrias, sucessos e insucessos, felicidade e desgraça. Nada disto deve minimamente impressioná-la. Ele quer que chegue àquele ponto em que nada pode perturbar a paz interior. Claro que isto não é obra de um só dia!

Há umas semanas, pude folhear um livro que tem feito furor na Irlanda, escrito por um sacerdote que o Vaticano já advertiu para que fizesse silêncio, pelas heresias que proclama. Ao folhear o livro, dei-me conta de que a palavra mais repetida era “eu”: “eu penso que”, “eu não vou deixar de”, “eu estou convencido que”. Não recordo ver por lá algo como “o Catecismo diz”, “as Escrituras afirmam”, “o Papa tem ensinado que”… Não posso fazer citações completas porque, apesar de ter sido um presente de Natal, já o enviei para a reciclagem.

Noutra ocasião, durante uma Eucaristia em que participei, senti um mal-estar crescente ao escutar os cânticos. Eram muito bonitos, mas ninguém na assembleia conseguia acompanhar tanta complicação artística, tanta elaboração literária. O coro parecia formado, não por cristãos servindo, mas por artistas exibindo o seu talento, chamando atenção para as variações que conseguiam fazer na guitarra e os vibratos na voz. A brincar, o Niall chama a este tipo de cânticos “Cânticos em Mim maior“. A expressão pegou cá em casa, e não só quando falamos de música!

Iremos viver este Tempo Comum que agora começa em Mim maior? Ou, à semelhança e pelo exemplo do Batista, vamos esforçar-nos por diminuir, para que Ele cresça?

Então sim, alcançaremos aquela paz interior que nada nem ninguém pode perturbar, e seremos verdadeiramente felizes…

 

 

9 Comments

  1. Pilar Pereira

    O “Eu” é mesmo o maior obstáculo, sei-o tão bem! Diminuir? Ui, isso dói!
    Bem-hajas por estas palavras, Teresa!

  2. Catarina Silva

    Querida Teresa,
    Não sei se consegui compreender completamente o que quis transmitir neste post….Porque lendo estes dois excertos:

    “…Na minha relação com Deus, procuro aprofundar a minha fé, descobrir a Palavra, penetrar no mistério sagrado, ou passo o tempo a esmiuçar o meu passado, o meu pecado, os meus sentimentos e os meus pensamentos, numa autoanálise sem fim?…”
    “…Acabaram-se as reflexões sobre si mesma, isso é só amor-próprio. Abra o coração à graça, una-se a Jesus e não desperdice o seu precioso tempo a examinar os porquês das coisas….”

    Fiquei a pensar que, se não fizermos uma autoanálise profunda dos nossos gestos, dos nossos sentimentos e pensamentos, como poderemos identificar o nosso pecado? Se não identificamos o pecado, corremos o risco de achar o nosso “eu” perfeito e sem nada a corrigir. Pessoalmente sinto, que se não fizer “autoanálise” não identifico os meus pecados….E se há altura em que me sinto próxima do Senhor é quando me reconheço pecadora e, mesmo sem poder recorrer ao sacramento da confissão, me ajoelho diante do altar e Lhe suplico perdão…

    • Devemos identificar o nosso pecado com muita profundidade, chorá-lo, confessá-lo e tê-lo sempre diante dos olhos, para nos humilharmos sempre mais. Outra coisa é remoê-lo, remexê-lo, revivê-lo, incapazes de nos perdoarmos a nós próprios por o termos cometido. Antigamente, chamava-se a isto “escrúpulos” e era tratado como uma “doença espiritual”. Como diz o Papa Francisco, se eu não me consigo perdoar, porque havia Deus de o fazer?
      Conheço pessoas, Catarina, que vivem a fé à volta de si mesmas, de descoberta em descoberta sobre o seu “eu”, mas sem nunca descobrir o amor de Deus… Os meus filhos mais velhos sempre se queixaram de alguns retiros que fizeram, em que o centro era “quem sou eu”, em vez de ser “quem é Deus”. No dia em que nos centramos mais em Deus e menos em nós, de repente damo-nos conta de que somos irresistivelmente atraídos pela sua santidade e crescemos também nós em santidade. Diz S. João, “nós amamos porque Ele nos amou primeiro”. Então se conhecermos o amor de Deus, aprendemos a amar…
      Bj

  3. Catarina Silva

    Sim, Teresa. Percebi agora. Obrigada!
    Realmente são duas “autoanálises” completamente distintas e que tantas vezes se confundem…Uma é doentia e afasta-nos da cura enfraquecendo a alma. A outra é reparadora, fortalece a alma e aproxima-nos do poder salvífico de Deus.
    Como é importante o discernimento destes dois processos! Nunca tinha pensado nisto desta forma….Ou seja de como a “autoanálise” destrutiva nos afasta da santidade e de como a vivência da fé à volta do “eu”, nos impede de conhecer o Amor de Deus…
    “”nós amamos porque Ele nos amou primeiro”. Então se conhecermos o amor de Deus, aprendemos a amar…” Como isto faz sentido!
    As coisas que eu levo destes ensinamentos para pensar!
    Beijinho Teresa! Obrigada!

  4. Muito, muito boa a reflexão! Dava para fazer um retiro. 😉
    Lembrei-me de uma expressão usada pelo Papa Francisco: Não ficar a lamber as nossas feridas. Talvez o caminho seja: conhecer-se, reconhecer-se e lançar-se no fogo do Amor Misericordioso de Jesus!
    Que Ele cresça e eu diminua é das minhas frases de S. João preferidas, e diria das mais difíceis de viver, parece que a Deus se chega descendo.
    Concordo com o Mi(m) menor e calha bem porque é dos meus acordes preferidos. 🤣
    Não vou esquecer as suas orientações quando estiver a orientar o grupo coral. Less is more! Beijinhos de saudades😘

    • Natércia, este texto e mais uns que penso publicar em breve são baseados no retiro, no tema do ensinamento. Vou aqui, aos pouquinhos, explorar um pouco mais algumas das ideias que partilhei no retiro, aprofundando-as como conseguir. E o vosso lindo coro na Suiça não é, de todo, em Mim maior 🙂
      Bj!

      • Obrigada pelas partilhas! Não estivemos fisicamente no retiro, mas estivemos convosco através da oração!
        Vamos lutar para cantarmos sempre em Mim menor.:)
        Bjinhos de saudades

  5. Teresa,

    Obrigado pelas suas palavras, que tanto me ajudam a rezar. A renúncia é um caminho inevitável para a purificação dos nossos desejos. Além disso, é mais uma das provas do humor divino: quem mais renuncia ao seu “eu”, quem menos se preocupa em ser feliz, é quem é mais feliz. “Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, é morrendo que se vive para a vida eterna”. Os nossos desejos são limitados, a Graça é infinita; os nossos desejos são nossos, a Graça é divina. Deus-Espírito Santo é a nossa força, a semente que nos permite servir só a Deus, servir sem procurar nada em troca; e em troca Ele retribui cem vezes mais!

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