Em Caná da Galileia...


Anita na Escola

Como se devem lembrar, a Lúcia e o António deixaram o Colégio Nossa Senhora da Assunção, onde estiveram desde o ano de idade, para entrar na escola primária da nossa aldeia. Terça-feira de manhã, a excitação estava ao rubro: primeiro dia de escola!

Corremos para o carro, com as mochilas pesadíssimas de material. A Clarinha e o Francisco, na véspera, tinham passado algum tempo a ajudar os irmãos a preparar tudo, e eu esperava não me esquecer de nada. Conduzo até à escola, que dista três minutos da nossa casa.

Na escola, vozes de crianças entusiasmadas. Que alegria! Pais e filhos cumprimentam-se. Muitos conhecem-me como catequista, e acenam-me felizes: “Olá Teresa!” Entramos nas salas para a apresentação. Eu tenho de me dividir por duas salas… Na da Lúcia, reparo num terço enorme, pendurado na parede. Estou em casa.

Três e meia da tarde. À porta da escola, aguardo que a Lúcia e o António saiam. De repente, as portas das duas salinhas abrem, e as crianças correm contentes para o quintalinho do recreio. Como esperava, o António vem sozinho, enquanto a Lúcia está rodeada de amigos.

“Mamã, mamã, sou delegada de turma!” Exclama ela, sorridente.

“Mas… És nova na escola, e já és delegada?”

“Já. Todos são meus amigos. Brincamos todos juntos no recreio, porque somos poucos. Todos sabemos os nomes uns dos outros. Fiz uma corrida contra o menino mais rápido da escola, e adivinha quem ganhou: eu, claro! Adoro a nova escola!”

“E o António? Esteve sozinho?”

“Às vezes, mas eu chamava-o e ele veio brincar com os meus amigos. Não te preocupes, que ninguém está sozinho!”

“E que tal? Gostaram da escola?”

A Lúcia lança um olhar sonhador aos portões que se fecham atrás de si:

“Sabes, mamã, foi como entrar dentro do livro Anita na Escola…”

Horas mais tarde, os filhos mais novos já a dormir a sono solto, entrei no escritório e procurei nas estantes Anita na Escola. Levei o livro para a cama, para o folhear antes de adormecer. O livro, que viajou da minha infância para a infância dos meus filhos, ainda tem o cheiro da casa onde cresci. Abri-o e procurei o seu segredo…

O que aconteceria no nosso país se, por uma vez, os pais, os professores e os ministros da educação pudessem entrar na cabecinha pensante de uma criança que vai à escola?

O que aconteceria se, por uma vez, deixássemos de lado preocupações que vão desde o sucesso académico à capacidade de ocupação de tempos livres da escola, da qualidade dos materiais à quantidade de computadores, dos rankings aos métodos de ensino, e pensássemos antes, por exemplo… No número de berlindes que se podem guardar num bolso? Ou nos minutos que separam a nossa casa da casa do nosso colega de carteira? Ou a que é que sabem os pinhões que caem dos pinheiros no recreio? Ou quantos amigos podemos encontrar no caminho para a escola? Ou ainda, na forma como vamos ajudar a amiga nova, que chegou à nossa terra este verão e tem dificuldade em aprender? De repente, dei uma gargalhada: o que fariam os pais da Anita se assistissem a uma reunião de apresentação nas escolas de hoje?

Eu sei que o mundo mudou muito desde os anos 50 do século passado, que deram voz e cor à menina meiga das nossas infâncias e das infâncias dos nossos pais e avós. Eu nem sequer sou saudosista: sei que quase tudo na sala de aula é melhor hoje do que antes. Mas ao longo de quase duas décadas de escolarização dos meus filhos, a minha forma de ver a escola foi mudando. Hoje, sentada no meio dos outros pais nas cinco reuniões de apresentação a que fui, dou-me conta de que espero muito menos – e muito mais – da escola dos meus filhos.

É que as crianças continuam a ser crianças, agora como no tempo da Anita. E eu tenho muito medo que, ao procurarmos dar-lhes tudo aquilo a que têm direito na escola de hoje, lhes roubemos muito do que têm direito na escola de sempre…

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