Em Caná da Galileia...


Aqui estou!

No passado dia 11, o Daniel completou o seu primeiro aninho. Que grande animação cá em casa! Não sei qual dos manos estava mais excitado, nem qual foi o primeiro a entrar aos saltos no nosso quarto para o abraçar e lhe cantar os parabéns, tal a confusão e o barulho. Nessa tarde, a Clarinha veio mais cedo da universidade para ter tempo de fazer um bolo para o jantar.

“O Daniel não vai comer, mas nós vamos, e festa é festa!” Disse, enquanto amassava com a ajuda da Sara. Uma velinha acesa, os manos a soprar em coro, o Daniel muito sério a apreciar a atenção redobrada, as Bodas de Caná ali ao redor da mesa. E sim, o Daniel provou um bocadinho do bolo de laranja da mana e parece ter gostado!

Um destes dias, enquanto abraçava o meu bebé e o cobria de beijos, eu ia murmurando palavras de amor ao seu ouvido, e dizia-lhe com ternura: “O que faria eu sem ti?”

“Muitas coisas!” Respondeu-me do fundo da sala o Niall – não o Daniel – no seu tom brincalhão.

Rimo-nos juntos. Sim, sem o Daniel, eu teria tempo para fazer muitas coisas. Poderia, por exemplo, estender a roupa ao dobro da velocidade e sem ter de apanhar as molas espalhadas pelo chão duzentas vezes durante o processo; ou passar a segunda-feira – o meu dia sem componente letiva – a escrever, a preparar aulas e a tratar dos assuntos das Famílias de Caná, em vez de empurrar tudo isso para o serão para ficar a brincar aos legos ou ao jogo fabuloso de “o bebé-deita-ao-chão-e-a mãe-apanha”, esse jogo que todos os bebés de um ano gostam de jogar.

Porque tenho um bebé pequenino (como outros terão um idoso acamado…), o trabalho ao computador fica reservado para os serões, que são muito mais longos do que seria desejável; e durante o dia, passo muitas horas simplesmente a brincar, ou a passear pelos campos em redor, empurrando a cadeirinha do bebé.

Paradoxalmente, é este tempo perdido que, ao jeito do Evangelho, descubro ganhar. No aniversário do Daniel, depois da escola, dei um curto passeio com alguns dos meus filhos, uns de patins, outros de bicicleta, o Daniel no carrinho. E ali parada diante das ovelhinhas ao fundo da nossa rua, sorvendo os goles doces de uma felicidade simples, esqueci-me por instantes do cesto de roupa para lavar, do jantar para fazer e da pilha de testes para corrigir.

Depois, num momento de revelação, talvez iluminada mansamente pelo sol que descia no horizonte, percebi que acabava de tocar ao de leve o mistério do Advento.

Advento é isto: é deixar que Deus interrompa os meus afazeres e, em vez de refilar, fazer espaço, respondendo como Maria e todos os que Deus convocou ao longo da História Sagrada: “Aqui estou!”

Vivemos tudo com demasiada pressa. Já me acostumei a ouvir os amigos dizer: “Aproveita bem este teu bebé, porque passa muito rápido!” A minha resposta é sempre a mesma: “Ai não passa não, que ando há vinte anos a mudar fraldas e a assistir a festas de Natal na creche!” (Ainda) aqui estou…

Fazer espaço para Deus é fazer espaço para o outro, o que vive em minha casa, o esposo, o filho, o pai ou a mãe. Fazer espaço para Deus é fazer espaço para o outro, o que sou chamado a servir, a visitar, a amar, no trabalho ou na paróquia. Estejamos nós a trabalhar por detrás de um balcão ou numa sala de aulas, sentados ao computador ou num hospital, precisamos de nos deixar interromper, uma e outra vez, pela imperfeição do irmão, pois é aí que o mistério da Encarnação acontece.

Aqui estou!

Quantas coisas faríamos sem estas interrupções contínuas! E quantas dessas coisas são perfeitamente inúteis para o Céu! “Isso não serve para o Céu”, já dizia Nossa Senhora à Lúcia diante daquele frasco de perfume que alguém insistia em lhe oferecer.

O Natal aconteceu porque Deus ousou interromper a nossa História e dividi-la em duas; ousou interromper os planos de Maria e de José, que se preparavam para o casamento; ousou interromper o seu descanso nos últimos dias da gravidez para os lançar no caminho de Belém, ousou interromper o sono dos pastores. Tentou, em vão, interromper a azáfama da hospedaria de Belém, e tenta hoje interromper a nossa azáfama…

E se, da próxima vez que alguém me interromper o trabalho, o descanso, o sono ou qualquer outra coisa, em vez de responder “agora não tenho tempo”, eu respirar fundo, sorrir e disser, “Aqui estou”?

Aqui estou, no primeiro aniversário do meu último bebé, inteira diante das ovelhinhas que vêm comer à mão dos meus filhos, inteira neste instante da minha vida que passará sempre demasiado rápido…

Aqui estou. Eis-me. Faça-se em mim espaço para Ti! Maranatha!

 

 

16 Comments

  1. Paula Cristina Fernandes de Almeida

    Parabéns!
    E também eu vou tentar dizer mais vezes “Aqui estou!”.
    Obrigada

  2. Maria José Duque

    Parabéns ao Daniel e à família! Que na correria dos dias tenhamos tempo uns para os outros e aprendamos com Maria a dizer: Aqui estou! Muito mais vezes! Bem hajam pela partilha!

  3. Que vela forma de começar a semana! Que texto tão bonito, obrigada

  4. Catarina Silva

    Maravilhoso!
    Fez-me tão bem este texto hoje! Desbloqueou o que estava bloqueado no meu coração. Deixou-me mais leve! 🙂
    Obrigada, Teresa!

  5. Niall (o marido)

    “O meu último bebé”. I’ll believe it when I see it, ha ha!! 😉

  6. Ahahahaha!!! 😉
    Muitos parabéns ao Daniel, aos pais e a toda a família!! O Daniel é um sortudo!! 🙂
    Que bela mudança de atitude que a Teresa nos convida a assumir nos momentos em que somos “interrompidos”… ótima dica!!… Responder “Aqui estou!”… Porque de facto faz toda a diferença na forma como encaramos o que vem a seguir!… Muito obrigada!! 🙂

  7. Isabel Marantes

    Querida Teresa e Niall,
    Muitos Parabéns ao Daniel (atrasados!) e hoje em especial muitos Parabéns ao querido Tomás!
    Um forte abraço para todos,
    Isabel

  8. Sim, esta partilha serviu mesmo para refletir… Ainda hoje com a pressa de fazer o jantar, a resposta ao meu filho foi mesmo esta ” agora não, tenho pressa… ” pois é a pressa sempre a pressa!!! Obrigada Teresa por me fazer parar e então dizer aqui estou.

  9. Rogério Tavares Ribeiro

    Parabéns ao Daniel!

  10. Marisa Milhano

    Oh que alegria tão grande! Parabéns querido Daniel!
    Obrigado Teresa por esta reflexão e partilha – vinha mesmo a calhar!
    Beijinhos

  11. Eu sei que escrevo sempre a mesma coisa, mas a verdade é que esta partilha – PARA VARIAR 😉 – veio mesmo a calhar, parace que a Teresa só escreve para mim…..
    “Isso não serve para o Céu”…. Que frase maravilhosa!!!!
    Todos os dias, imensas vezes, digo à minha filha “Agora nao, estou cansada / tenho de pôr a máquina a lavar / vou fazer o jantar / quero ver este filme”.
    E, no entanto, a verdade é mesmo essa: quantas coisas faríamos sem estas interrupções contínuas! E quantas dessas coisas são perfeitamente inúteis para o Céu!

    Vou ver se, com este empurrãozinho, consigo dizer mais vezes “Aqui estou!”

    Parabéns atrasados ao Daniel, que faz anos no mesmo dia que o meu marido 🙂

  12. Parabéns ao Daniel e a toda a Família Power!
    Obrigada Teresa por sempre nos relembrar do mais importante… aqui estou! Que assim seja nesta época tão atarefada, que as nossas “preparações” natalícias não nos afastem dos que chamam por nós!

  13. Muito obrigada pela reflexão… como sempre, certeira! Que saiba dizer sempre “Aqui estou”, junto com “nós Jesus”!

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