Em Caná da Galileia...


Auto de Natal

Todos os anos revivemos, em família, a história do Natal. Fazemo-lo com toda a arte de que somos capazes. Procuramos na arca dos disfarces de carnaval as roupas adequadas, fabricamos os adereços, distribuímos personagens. Depois, com humor e leveza, mas muita seriedade também, fazemos a nossa atuação.

Sendo a narradora, leio diretamente da Bíblia, alternando entre os Evangelhos de Lucas e Mateus para que não falte nenhum detalhe do Natal. É importante ler a Palavra a partir da sua fonte, e não de adaptações infantis, porque a história do Natal não é apenas nem sobretudo uma história de crianças. A história do Natal é a história da nossa salvação, e é preciso que os adultos cá de casa também a possam acolher, com verdade e profundidade, sem linguagem infantilizada. Escutar a Palavra tal como ela foi inspirada por Deus é também uma forma de a irmos memorizando, para que depois, em qualquer momento da vida, ela possa descer da memória até ao coração.

Este ano, a avó veio passar a Consoada e a noite connosco. Assim, pudemos fazer o nosso Auto de Natal na noite do dia 24. Que noite tão bela! Depois do jantar e da cozinha arrumada, reunimo-nos no Canto de Oração Familiar. Cantámos vários cânticos de Natal (já escutaram o que a Clarinha compôs?), louvámos o Senhor e demos graças, fizemos-lhe as nossas súplicas e rezámos a nossa consagração a Maria. Depois, a hora da Palavra foi transformada na representação da história do Natal.

Ao sexto mês, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o Anjo disse-lhe…

“Anda, Sara, bate as asinhas e reza a Avé-Maria!”

“Avé Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco!”

“Isso mesmo! Agora és tu, Lúcia, a responder. Sabes a resposta de cor, não sabes?”

Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.

“Muito bem! Agora atenção, vamos ao Evangelho de S. Mateus, porque ele conta-nos uma outra anunciação. Lembram-se?”

“A anunciação a José!”

“Isso mesmo. António, estás preparado?”

José, seu esposo, não querendo difamá-la, resolveu deixá-la em segredo. Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, em tua casa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo.”

“O anjo agora pode descansar um bocadinho, que já trabalhou muito. Vamos, José, recebe Maria por tua esposa. Isso! E agora…

Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Todos iam recensear-se, cada um à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu à Judeia, à cidade de David, chamada Belém…

“Onde está o burrito que leva Maria? Ah, o Niall já está a postos e a fazer tanto barulho que nem dá para ouvir a Palavra! Ó burrito, fala mais baixo!”

“Agora, José, bate à porta e pergunta se há lugar para Maria ter o bebé! Quem é o dono da hospedaria? Pode ser a vovó. Vamos, avó, para o teu lugar!”

“Maria e José não se afligiram…”

E Maria teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria.

Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu em volta deles… De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas alturas!

“Pega na guitarra, Francisco, vamos cantar! Glória in excelsis Deo!

“Pastor e anjinho, toca a correr até Belém!”

Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente…

O nosso “fotógrafo” passou a “mago”, e por isso ficámos sem fotografias desta cena. O Francisco, a Clarinha e o David (ex-pastor…) estavam tão giros e tão compenetrados no seu papel! Vieram, ajoelharam, adoraram, ofereceram os seus presentes, e não se esqueceram de regressar às suas terras… por outro caminho!

A narração está a chegar ao fim. Vamos terminá-la todos juntos, de joelhos diante do nosso presépio de musgo e barro. Lemos a alegria dos pastores diante do Menino e como Maria tudo guardava em seu coração. Está na hora de retirar a imagem de Maria grávida do presépio e de a substituir pela imagem de Maria em adoração e do Menino…

De joelhos, cantamos mais cânticos de Natal. A Sara, o António, a Lúcia e o David colocam os quatro últimos símbolos na Árvore de Jessé. Não são precisas grandes explicações, porque acabámos de escutar a história. Está linda, a árvore, coberta de luzes e da Palavra!

Já só falta rezar o terço. Mesmo com sono, ninguém se afasta do Presépio. Hoje queremos oferecer ao Menino uns joelhos cansados, capazes de um pequeno sacrifício. Mais uma estrelinha no céu do Natal!

São quase dez horas da noite. Estivemos praticamente duas horas neste maravilhoso serão de Natal, numa oração familiar feita de alegria, de canções, de risos, de silêncios, de Palavras, de meditação, de gestos cheios de significado. Nem demos pelo tempo passar!

São horas dos mais novos irem dormir. Amanhã o dia irá começar muito cedo, quando os meninos correrem para a sala para abrir as prendas de Natal, lá pelas seis da manhã, e continuará com a missa e o almoço de Natal que juntará a família alargada. Será um dia ruidoso e alegre com toda a certeza.

Mas hoje há silêncio em volta do Presépio. De joelhos, agradeço a Deus a história que a minha família acaba de recontar e reviver. Só Deus se podia lembrar de uma história assim… Quanto mais a escuto e nela medito, mais me surpreende. Como pode alguém achar que a história do Natal já não tem nada para nos dizer? Ah, se o mundo soubesse escutar!

One Comment

  1. Bem haja querida Teresa pela partilha

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