Em Caná da Galileia...


Balasar

Conheço a história da Beata Alexandrina desde a minha juventude, porque sempre gostei de ler sobre santos e místicos. Mas nunca tinha visitado Balasar. Até sábado…

A história de Balasar começa um século antes de Alexandrina, com um milagre visível até aos dias de hoje: na manhã do Corpo de Deus de 1832, apareceu no chão em frente da igreja uma cruz de terra. Por mais que se tentasse varrer ou destruir a cruz, ela resistia. Em breve o povo deu início a ininterruptas peregrinações ao local, que se tornou fonte de graças. Anos mais tarde, construiu-se à sua volta uma capelinha, onde ainda hoje a podemos venerar.

Também nós entrámos na capelinha e nos ajoelhámos à volta da Cruz. Como foi bom rezar assim, na intimidade da nossa família, diante de tão belo milagre! Cruz de terra, de pó, como terra e pó somos… Ali rezámos a nossa consagração e o Shemá, e ali cantámos alguns cânticos sobre a Cruz, dos que certamente já conhecem: Via Crucis, As Minhas Pegadas… A capelinha tem uma acústica perfeita, fazendo o som vibrar e ecoar em todo o seu espaço. Lindo!

Em Mogofores, falamos muito na Beata Alexandrina, pois ela foi Salesiana Cooperadora e viveu a sua mística em íntima união com os Salesianos que, na altura, aqui frequentavam o seminário. O seu último diretor espiritual foi inclusivamente um Salesiano muito amado aqui em Mogofores, o padre Humberto Pascoal. Quando visitámos o quarto de Alexandrina, sentimo-nos em casa:

Alexandrina era uma menina divertida e brincalhona, um pouco “maria-rapaz”, que gostava de trepar às árvores e aos telhados, saltar muros e calcorrear os montes. Os meus filhos, que adoram trepar às árvores e aos telhados, saltar muros e calcorrear os montes, sentiram de imediato uma enorme empatia! Visitámos a salinha de onde Alexandrina, com catorze anos, saltou pela janela, no dia em que o seu antigo patrão entrou em sua casa para a violar:

Alexandrina viveu experiências místicas impressionantes. E todas elas aconteceram ali, numa casa simples de aldeia, num quarto pequenino e pobre, onde Alexandrina viveu paralítica a partir dos dezanove anos:

Foi sobre esta pobre esteira que atapeta o chão, que Alexandrina viveu, durante quatro anos, a Paixão do Senhor às sextas-feiras. Falando-lhe, num dos seus muitos êxtases, no dia 5 de dezembro de 1947, Jesus explicou a ligação entre a aparição da Santa Cruz, um século atrás, e a “crucifixão” de Alexandrina:

Jesus: «És a Minha vítima, a quem confiei a mais alta missão. E como prova disso atende bem ao que te digo para bem o saberes dizer.Quase um século era passado que eu mandei a esta privilegiada freguesia a cruz para sinal da tua crucifixão. Não a mandei de rosas, porque a não tinha, eram só espinhos; nem de oiro, porque esse com pedras preciosas serias tu com as tuas virtudes, com o teu heroísmo a adorná-la. A cruz foi de terra, porque a mesma terra a preparou. Estava preparada a cruz; faltava a vítima, mas já nos planos divinos estava escolhida; foste tu. O mal aumentou, a onda dos crimes atingiu o seu auge, tinha que ser a vítima imolada; vieste, foi o mundo a crucificar-te.»

 

Na casa de Alexandrina, sentámo-nos à volta do fogão, como já antes tínhamos feito na Casa da Irmã Lúcia. Deus também está no meio das panelas, disse Santa Teresa de Ávila. As Famílias de Caná sabem-no. Deus está connosco na cozinha, quando a família se reúne à volta do fogão, da lareira ou da mesa para partilhar a refeição e a vida, sem televisão, sem nada que nos distraia uns dos outros e de Deus.

Durante os últimos treze anos da sua vida, Alexandrina alimentou-se exclusivamente da Eucaristia. Uma hóstia por dia, e Alexandrina tinha alimento suficiente para viver e ser feliz! Os médicos tentaram encontrar uma explicação ou, em alternativa, uma grande fraude, mas nada descobriram. Uma vez, o sacerdote usou um estratagema para se assegurar de que Alexandrina vivia realmente um milagre: levou-lhe uma hóstia sem estar consagrada, agindo contudo como se se tratasse da Eucaristia. Alexandrina sorriu e disse: “Senhor padre, isso não me serve de alimento!” Um pedacinho de pão daquele tamanho não serve, de facto, de alimento para um ser humano. Só Jesus sacia a nossa fome! Alexandrina foi disso sinal e testemunho.

Tivemos o privilégio de visitar Balasar no dia em que toda a Igreja se uniu diante do sacrário, a pedido do Papa Francisco, nas “24 horas para o Senhor”. Quando entrámos na igreja para rezar, no início da nossa peregrinação, encontrámos dezenas de pessoas que adoravam Jesus. Em voz alta, alguém lia meditações extraídas da autobiografia de Alexandrina. Que bonito que foi, adorar Jesus com palavras inspiradas!

Depois, visitámos o túmulo de Alexandrina, ali mesmo ao lado, como ela tanto desejara, para estar perto do sacrário como sinal visível do seu amor a Jesus sacramentado.

Sobre a campa, uma mensagem para todos nós:

“Balasar é um sítio tão bonito! É tão bom estarmos aqui!” Diziam os meninos, aos saltos pelos campos, brincando uns com os outros como Alexandrina certamente gostava de brincar em pequenina.

Já no carro, enquanto conduzíamos por entre a chuva até à Maia, o Niall e eu conversávamos.

“Há qualquer coisa de muito familiar em Balasar”, dizia-me ele. “Nunca aqui tinha estado, e no entanto, ao visitar a igreja, a casa da Alexandrina, a Santa Cruz,  a Via Sacra, parece-me que sempre aqui tinha vindo…”

“Terá sido a imagem de Maria Auxiliadora?”

“Sim, mas não só…”

“A noção de ordem, limpeza e simplicidade dos lugares católicos é-te familiar!”

“Sim, e aquela sensação de solenidade e de humildade ao mesmo tempo, quando entramos numa igreja e está a decorrer a adoração eucarística…”

“O silêncio dos campos verdes, a solidão, a tranquilidade… É tão bom estarmos num lugar assim apenas rodeados da nossa família, sem confusão, sem barulho, sem multidões!”

Nesse momento, passávamos na estrada ao lado de um imenso mar de carros estacionados.

“Que se passa ali?” Perguntou-me o Niall, que conduzia e não podia olhar com atenção.

“É apenas a entrada para um espaço comercial”, respondeu o Francisco lá de trás. “Não reconheces o ambiente?”

O Niall deu uma gargalhada: “É mais fácil para nós reconhecer o ambiente católico de Balasar que o ambiente mundano de um centro comercial! Isto deve significar alguma coisa!”

“Talvez sejamos extra-terrestres, neste afã de procurar um lugar para fazer uma peregrinação matinal, em vez de procurar um centro comercial!”

“Acho que já entendi esta minha sensação de familiaridade em Balasar!” O Niall pareceu de repente elucidado. “A Igreja Católica é a nossa casa, seja em Mogofores, seja em Balasar, seja na Índia ou nos Estados Unidos. Lembro-me da mesma sensação de familiaridade quando, na Índia, visitei uma escola salesiana, ou nos Estados Unidos rezei numa igreja. A nossa casa é a Igreja Católica!”

Uma Igreja cheia de santos, irmãos mais velhos que nos trazem um pouco mais de luz… Nestes dias, a luz que brilha em Alexandrina tem sido, verdadeiramente, farol para os nossos passos. Se também a quiserem conhecer, aqui ficam os dois sites que nos têm ajudado a aprofundar a nossa experiência de sábado: Santuário Alexandrina de Balasar e Alexandrina Maria da Costa, dois sites magníficos, que vale a pena explorar!

One Comment

  1. Bom dia,

    tenho os olhos razos de lágrimas, comovida pela simplicidade com que a vida de Alexandrina é por vós visitada e comentada! A nossa casa no mundo, como o Niall foi inspirado, certamente que pelo Espírito Santo. Sim, concordo inteiramente, só somos Igreja, já adultos e antes de velhos, quando Ali é a nossa casa, porque é a Sua casa.
    É grande para mim o Mistério da Paixão, já o aceito, mas estou tão longe de compreender vidas como a desta senhora e o porquê de se constituírem escolha de Deus.
    Contudo comovem-me profundamente e apenas sinto a imperiosa necessidade de pedir perdão, de me arrepender e procurar ser melhor… Que Deus Nosso Senhor nos perdoe e que o holocausto de Seu Filho seja a nossa plena redenção…
    Mas não deixo de me lembrar da Páscoa da Ressurreição! Amar e aceitar…mesmo o que não entendo.

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