Em Caná da Galileia...


Basta!

Durante o dia de ontem, uma passagem do Diário de Santa Faustina atravessou-me a mente, e não descansei enquanto não a encontrei (e olhem que encontrar determinada passagem, que conhecemos vagamente, num livro tão grande como este Diário, é como procurar agulha em palheiro!). É uma passagem que me ocorre muitas vezes durante a missa, especialmente quando me preparo interiormente para receber a Sagrada Comunhão e me pergunto se estarei preparada. Não penso que seja uma passagem muito difundida, e já vão ver porquê. Aqui fica:

Recebi a Sagrada Comunhão cá em cima, uma vez que não podia descer à capela, pois estava muito enfraquecida (…). Um dos padres jesuítas trouxe-nos a Sagrada Comunhão. Deu o Senhor a três Irmãs e depois deu-m’O a mim e, porque pensou que eu era a última, deu-me duas Hóstias. Mas estava uma das noviças numa outra cela e faltou para ela. O sacerdote voltou novamente e trouxe-lhe o Senhor. Então Jesus disse-me: “É com relutância que entro nesse coração. Recebeste essas duas Hóstias, porque não Me apresso a vir à alma que se opõe à minha graça. Não Me agrada visitar uma alma assim.” (Nº 1658)

Não se assustem. Este Jesus é o mesmo que, noutra passagem, censura Faustina por não ter ido comungar em determinada missa. Nesse outro dia, Faustina debatia-se com o facto de não ter confessado uma pequena falta, e achara – erradamente – que o seu pecado não lhe permitia unir-se eucaristicamente a Jesus:

Sabe, minha filha, que Me causaste maior pesar pelo facto de não te unires a Mim na Sagrada Comunhão, do que por essa pequena falta. (Nº 612)

Tenho-me esforçado por querer o que Deus quer, tal como vos desafiei a fazer no início desta Quaresma. E nesse sentido, aceito como vinda de Deus a suspensão das missas comunitárias, segundo a lógica do Livro de Job, que também vos propus: ainda que tenha sido Satanás a forçar a tal ordem, ao espalhar uma pandemia deste calibre, até Satanás é um instrumento nas mãos de Deus, e tudo acontece para Sua maior glória, especialmente se nos chega pelas mãos da Mãe Igreja.

Mas de uma coisa tenho a certeza: tudo tem o seu lugar nos planos de Deus, nada acontece por acaso. Como não foi por acaso aquele pormenor aparentemente insignificante da “dupla comunhão” de Faustina. Nessa altura, Jesus quis dizer-lhe, de uma forma muito concreta e muito gráfica, que quem não está preparado – como era o caso daquela noviça – não O deve receber. E no entanto, a mensagem que atravessa o Diário de Santa Faustina é só uma: Deus é Amor! Não há, portanto, contradição alguma entre estas duas mensagens.

A suspensão das missas comunitárias não é “apenas” uma medida sanitária, como a suspensão das aulas presenciais ou das idas à praia. Se a missa é “a fonte e o cume da vida de um cristão”, como nos disse o Concílio, então a sua suspensão tem um significado espiritual profundo, e contém uma mensagem da parte de Deus que precisamos aprender rapidamente a ler. A minha luta interior nestes dias não tem passado tanto pela aceitação da norma da CEP, como pela tentativa de descobrir uma chave de leitura que a explique, a partir da eternidade.

Por isso, ontem dei comigo a perguntar-me (e confio suficientemente em vós para partilhar convosco a minha pergunta): e se esta impossibilidade de participar na Eucaristia e receber Jesus no coração for a forma que Deus encontrou, na nossa geração, para nos dizer, basta?

Basta de Comunhões sacrílegas! Basta de nos aproximarmos da Comunhão em estado de pecado grave! Basta de olhar para o Corpo de Cristo como um símbolo, apenas um símbolo do seu amor por nós! Basta de nos aproximarmos da Comunhão e, ao mesmo tempo, defendermos o aborto e a eutanásia, caluniarmos o próximo, praticarmos a contraceção, vivermos com o namorado sem estar casados, faltarmos à missa as vezes que nos apetece, cometermos adultério, abandonarmos pai e mãe em instituições para não nos darmos ao trabalho, violarmos, um a um, todos os mandamentos da Lei de Deus!

Basta de inscrevermos os filhos na catequese para que façam a Primeira e a Última Comunhão, tudo no mesmo dia! Basta de festas de arromba para a Primeira e a Última Comunhão, ou pior ainda, para a Primeira de muitas Comunhões sem qualquer amor a Jesus!

Basta de faltar à missa porque apetece mais ir à praia, porque chove e faz frio, ou porque já não há catequese e, por isso, já não há “faltas”! Basta de chegar atrasados, porque “Deus não Se importa”! Basta de arranjar as nossas próprias regras – se chegar até ao Evangelho chego a tempo, se chegar no Senhor, tende piedade cheguei cedo!

 

Não ofendam mais a Nosso Senhor, que já está muito ofendido.

Assim disse Nossa Senhora aos Pastorinhos, há cem anos atrás.

A hora das trevas é sempre a hora favorável à conversão. Quando Jesus Se esconde, é sempre para que O procuremos. Quando Se cala, é sempre para que nos ponhamos à escuta. Entre o meio-dia e as três da tarde, naquela Sexta-feira Santa de há quase dois mil anos, as trevas cobriram a Terra. Mas precisamente nessa hora, acontecia a nossa redenção.

Por um breve momento te abandonei, mas com grande amor, volto a unir-me contigo. Num acesso de ira, e por um instante, escondi de ti a minha face, mas Eu tenho por ti um amor eterno. (Is 54, 7-8)

Se a minha intuição estiver certa (e ainda que não esteja!), é preciso que, neste tempo de fome, peçamos perdão, oferecendo o nosso sacrifício em reparação das ofensas cometidas e pela conversão dos pecadores – a começar por cada um de nós -, como Santa Jacinta fazia, ela que morreu na pandemia do seu tempo há precisamente cem anos (e também isto não é coincidência, pois Fátima é certamente uma chave de leitura para hoje).

Aqueles que, entre nós, tiverem a dita de comungar por estes dias, dos sacerdotes aos leigos, façamo-lo como Santa Faustina: “a dobrar” em devoção e amor e, de novo, oferecendo a nossa Comunhão em reparação e pela conversão dos pecadores – a começar por cada um de nós.

E é preciso que, quando de novo pudermos celebrar a Eucaristia com a nossa comunidade paroquial, renovemos a devoção, o fervor, o amor, a frequência com que nos confessamos, a pontualidade com que chegamos à missa, o cuidado na catequese dos pequenos e grandes, os encontros de adoração eucarística. É preciso cuidar do nosso interior, para que o Senhor Eucarístico tenha pressa em vir ao nosso coração.

Arrependei-vos, porque está próximo o Reino de Deus! (Mt 4, 17)

Ámen.

 

14 Comments

  1. Deus, sendo um Pai Bom, aproveita todas as situações da vida do seu filho para o corrigir e educar. Afinal, não quer Ele que o filho seja perfeito??! 🙂
    Este é o dia que o Senhor fez! Um dia longo de exame de consciência…porque no deserto o Senhor fala ao coração!
    Que belo tempo de reparação e de preparação… alguém me dizia “parece-me que vai haver um antes e depois covid-19″…que bom se assim for, para melhor! Estou confiante! 🙂

  2. Isabel Miguel

    Tenho pedido ao Senhor que haja um depois diferente. Que este tempo de “retiro” da vida quotidiana sirva para mudar o coração daqueles que não crêem verdadeiramente e não se esforçam em quase nada para fazer a vontade de Deus. É meu desejo sincero que haja muita conversão, incluindo a minha, pois quer me dera um dia alcançar a perfeição! Obrigada Teresa pelas suas palavras sempre sabias!

  3. claudia marisa dias da silva

    Obrigada Teresa por tantas e reconfortantes palavras!
    Também eu me sinto muito revoltada pela privação imposta da Sagrada Comunhão, a Igreja não é a cabeça, mas a sua vaidade e orgulho fazem-na pensar que é mais que Deus.
    Porque não deixaram os crentes escolher??? Quem quisesse poderia continuar a comungar. Então onde está a nossa fé? O corpo e o sangue de Cristo não são à prova de qualquer coronavírus???
    Quantas místicas tem avisado que receber a Sagrada Comunhão na mão é uma ofensa a Deus e que só mãos consagradas podem tocar nas santas partículas?
    Andamos a brincar com coisas muito sérias.
    Deveríamos receber a Sagrada Comunhão joelhos e descalços, é assim que agrada a Deus.
    Mas eu sou cobarde e tenho respeitos humanos, fico a pensar que os outros vão falar de mim e dizer que faço isso para me armar em santa.
    Que Deus me ajude.
    Beijinhos Teresa.
    Cláudia Silva

    • Obrigada por comentar, Cláudia! Não acredito, de todo, que o Senhor Se ofenda por O recebermos na mão ou na boca, em pé ou de joelhos, calçados ou descalços, ou até por não termos a necessária reverência dos gestos rituais. Já escrevi sobre isso aqui https://www.familiasdecana.pt/blog/da-nascente/em-cana-da-galileia/farisaismos/.
      Como diz o Evangelho, o pecado vem sempre do interior do homem, do seu coração. E é a isso que eu me refiro neste post, ou em qualquer outro!
      Quanto à proibição da Igreja, não faço, nem nunca fiz, o mais leve julgamento sobre o assunto, embora possamos discuti-lo e trocar ideias sobre ele, e isso já fiz, pois sendo um tema novo, está naturalmente aberto a discussão. A Igreja decide, bem ou mal, e Deus escreve a Sua vontade nessas linhas, sem qualquer prejuízo para nós, os crentes. Se aceitarmos com humildade e alegria o que a Igreja nos pede, aceitamos com humildade e alegria a vontade de Deus. E uma coisa tenho a certeza: sairemos sempre a ganhar, pois Deus vence sempre e recompensa a obediência. O Diário de Santa Faustina está cheio, a transbordar de pedidos de Jesus para que Faustina obedeça e se submeta. Inclusive, a mensagem da misericórdia foi considerada herética e o Diário proibido durante décadas, e tudo isso estava previsto na mensagem de Jesus, o que mostra como o Senhor Se submete à sua própria Igreja e quer que façamos o mesmo, e tira daí muitos, muitos frutos. O mesmo com outras revelações celestes.
      Aproveitemos, isso sim, este tempo para nos convertermos! Os tempos de trevas são sempre tempos de conversão!
      Bjs!

  4. Catarina Silva

    Teresa,
    De tudo o que escreveu neste post (com o qual concordo em absoluto!), houve uma frase que ficou a ecoar no meu coração:

    “….ou pior ainda, para a Primeira de muitas Comunhões sem qualquer amor a Jesus!”

    Quantas e quantas vezes, pensei isto. Observei isto. Quantas e quantas vezes isto ecoou no meu coração, causando-me muita mágoa ( agora já não). Comunhões sem qualquer amor a Jesus… E isto é tão profundamente grave…Tão profundamente grave, que eu vou abster-me de aprofundar mais este comentário, porque sei que este tema mexe muito comigo e tenho receio de alimentar algum tipo de mágoa em mim. Não quero.
    Obrigada, mais uma vez Teresa, pelo discernimento e pela coragem. Muita coragem mesmo. Acho que anda por aí muita gente a assobiar para o lado e a fingir que não é nada com ela…

  5. Maria do Rosário Leitão

    Obrigada por esta reflexão.
    Também me tenho perguntado muitas vezes neste tempo , o que é que Deus nos quer dizer.
    Tenho para mim que este “é um tempo favorável ” ; que não posso desperdiçar.
    Com este texto, fiquei com pistas novas👍👍

  6. A Eucaristia não é um prémio para os bons, mas remédio para os fracos, disse o nosso Santo Papa Francisco…. Mas o que faz de nós os bons ou os maus? Não sei, mesmo!
    Aqui noutro plano de reflexão e permitam-se o recurso à “enganadora casuística” mas, no meu pequeno universo, as pessoas que, por isto ou por aquilo ( ausência de confissão no último ano,etc,etc) deixaram de comungar, eventualmente deixaram de todo de ir à missa. Por outro lado, penso no meu caso: é extremamente difícil para mim confessar-me. É mesmo muito complicado, sofro nos dias anteriores, é um verdadeiro “bicho-papão”. Nem sempre me confessei quando devia, mas comungar renovou sempre em mim o compromisso de o fazer. Ajuda-me a manter uma vozinha no meu subconsciente e dizer “vai, confessa-te! Jesus espera isso de ti!”

    Mas eu pouco sei de teologia nem serei o melhor exemplo, por isso desculpem me se disse algum disparate.

    Abraço para todos e muita saúde!

    • Disparate nenhum, Célia! Tudo vem do interior do coração, claro! E sim, a Eucaristia é remédio para os fracos, alimento para os famintos, cura para os doentes, sempre! Mas se a Célia anda por aqui, procurando ler e crescer na fé, não servirá certamente de exemplo para os casos que referi no post 🙂 Também não vou aqui nomear exemplos bem concretos que eu conheço, e que são tão diferentes das histórias que conta! O que sei é que se vai perdendo a fé na Eucaristia e no poder da Confissão.
      A propósito: eu gosto muito de me confessar em Fátima, onde os sacerdotes não fazem ideia de quem sou, onde posso confessar-me, escolhendo se quero estar cara a cara ou se não quero ser vista. A mim ajuda-me muito!
      Nós, Jesus!

  7. No rito de uma Igreja Ortodoxa da Ucrânia (não me lembro o nome) os bebés ou crianças recebem o baptismo e a primeira comunhão no mesmo dia, continuando a comungar a partir daí. Pelos 6 ou 7 anos recebem a primeira reconciliação a qual é celebrada como nós fazemos com a primeira comunhão. Isto tem me dado que contemplar…

    Também tem me dado que contemplar este jejum de comunhão eucarística e (aparente) exortação à comunhão espiritual. Será oportunidade de purificação da vivência da comunhão eucarística? Afinal pode haver comunhão espiritual sem eucarística, mas a comunhão eucarística não se consuma sem a espiritual… No ocidente contemporâneo, comungar o corpo de Cristo é simples… Eu tenho dito que a única condição sine qua non sobre lugares deste mundo onde viver é a possibilidade de pertença a uma comunidade cristã local e de comunhão eucarística, pelo menos ao domingo, nem que me tome o domingo todo a ir, estar e vir… é o que eu tenho dito… Para quê Senhor, para que é que me preparas, a mim concretamente, com esta vivência das restrições sobre a Eucaristia?

    • Olá Inês! Na Igreja Ortodoxa é sempre assim, comunhão e batismo juntos. Eu acho bonito ver essa concretização do apelo de Jesus, “deixai vir a Mim as criancinhas”. A “regra” é simples: todos comungam, a partir do momento em que são batizados e, claro, conseguem comer, porque Jesus é o Pão Vivo e nenhum batizado pode passar sem Ele. Depois, à medida que crescem e começam a pecar, precisam de examinar a sua consciência antes de o fazer, e é aí que entra a Confissão. Tão bonito! E como, acredito, em breve a Igreja Católica e a Ortodoxa serão uma só, quem sabe este rito é adotado por nós também? Ab!

  8. Por acaso costumo ir a Fátima com frequência. Claramente que essa sugestão foi posta no meu caminho… 🙂 muito obrigada! Abraço

  9. Tenho estado a pensar nisto e penso que não é da maneira como se comunga de que isto se trata…
    Muito sinceramente, parece-me que termos ficado sem missa é uma maneira de Deus nos alertar para o que irá acontecer se continuar a reduzir o número de respostas à vocação sacerdotal…
    Ficaremos sem missa, sem comunhão, sem confissão, um povo cansado sem alimento espiritual! Caminharemos para um futuro sombrio, se assim for…

    • Provavelmente, trata-se das duas situações e de mais outras ainda, Inês! Com Deus, nunca se sabe 🙂
      O importante é que aproveitemos este tempo para nos convertermos. Senão, teremos perdido – verdadeiramente perdido – o nosso tempo! Ab

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