Em Caná da Galileia...


Brincar é coisa séria!

Vivemos tempos sérios, hoje em dia. Gostamos que nos convidem para coisas sérias e importantes, que valham a pena e rendam qualquer coisa.

Assim, se a atividade de catequese for séria e obrigatória, com direito a faltas, as crianças e os pais vão aparecendo. Mas se a atividade for um magusto, com direito a jogos e sujidade, então não é séria nem obrigatória, e nem crianças, nem pais aparecem.

Haverá algo mais sério na infância do que brincar? Haverá algo mais sério na vida de pais do que brincar com os seus filhos? Época de testes… Estudo atrasado… Demasiadas Atividades Extra-Curriculares… Não há tempo para brincar. Se a isso juntarmos a chuva – e em Portugal, até as canções aprendidas nos infantários dizem que a chuva constipa – temos a desculpa perfeita para faltar a um magusto.

Outro dia, alguém comentava comigo que as crianças de hoje já não fazem jogos de roda, esse tipo de jogos que se faziam antigamente em magustos e outras festas. Parece que o ministério da educação está preocupado com isto, a julgar pelo textinho que acompanha a avaliação do desempenho das expressões físico-motoras das provas de aferição do segundo ano, e que o António trouxe ontem para casa: “A participação em jogos infantis contribui para o desenvolvimento social e motor das crianças, ao promover o convívio e a interação com os outros e ao solicitar uma ação orientada para alcançar um objetivo.” Na escola primária, num destes dias, um grupo de professores de Educação Física foi “animar o recreio”, promovendo este tipo de brincadeiras. O Francisco esteve lá a filmar, a pedido da Câmara Municipal, e comentou comigo: “É triste chegarmos ao ponto de ser preciso enviar um grupo de professores a ensinar as crianças a brincar…”

Vivemos tempos sérios, hoje em dia. Vivemos tempos tristes, quando nem as crianças nem os pais sentem a necessidade de brincar. Mesmo à chuva. Mesmo com mau tempo. Apenas porque sim. Porque é bom estarmos juntos sem nada mais importante para fazer do que brincar.

Assim que os meus filhos se aperceberam de que ninguém – a não ser alguns catequistas – aparecia para o magusto, o desapontamento foi enorme. A Sara quase chorava e o António não se conformava com a ideia de que não ia haver uma fogueira para saltar.

“E se fôssemos para nossa casa?” Sugeri aos catequistas e suas famílias, bem como à única família de duas crianças da catequese que apareceu. Se bem o pensámos, melhor o fizemos. Já em nossa casa, aproveitámos para cantar os parabéns à Joana, a menina da catequese que fizera sete anos na véspera, e à Sara, que comemora o seu aniversário de batismo em dia de S. Martinho. Tocou-se guitarra e cantou-se, pôs-se a conversa em dia, as crianças brincaram pela casa toda às escondidas, ao quarto-escuro e a outras brincadeiras – e foram deixando as marcas do carvão a assinalar a sua passagem – e, todos, ganhámos o dia.

Viva o magusto! Viva a brincadeira! Vivam os enfarruscados! Haja Famílias de Caná para incentivar o mundo a voltar a ser pequenino e… brincar!

Deixo-vos com as nossas caras de pura felicidade…

2 Comments

  1. Catarina Ramos Tomás

    Gosto da forma como me provoca! Como me desassossega!

    Eu que sou a organizada de serviço, paranóica com o tempo que não chega para tudo e sofredora com tudo o que fica por fazer…

    Não me lembro de ter brincado com os meus filhos no fim de semana…

    Vou rever isso…
    Vou por no princípio da lista 😉

  2. Olá Teresa, que bonita está. Que Deus a abençoe, hoje e sempre.
    Há muito que não deixo comentário, mas sempre venho aqui.
    Havia tanto a dizer sobre as brincadeiras em Família; que belos rostos enfarruscados, tal e qual os das minhas crianças, lá nos Jardins de Infância por onde passei. Como educadora de infância, alertei tantas vezes os pais, de que eles eram “o brinquedo favorito” dos seus filhos, não precisavam de encher o quarto com brinquedos, quase a ponto de sufocar quem lá dormia.
    No próximo dia 18 espero estar no Encontro no Salão de Ílhavo e “saborear” os vossos ensinamentos. Vou passar palavra da realização deste Encontro…
    Abraço

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