Em Caná da Galileia...


Celebrar a Palavra em família – e com familiaridade

Tenho recebido, um pouco de todo o lado, pdfs com as propostas de cada diocese para a celebração familiar do Domingo III da Quaresma, ano A.

Ao mesmo tempo, tenho recebido pedidos de várias famílias para as ajudar a celebrar a Palavra, na falta da missa. Deverão seguir estes guiões que vão sendo divulgados? É obrigatório, para cumprirem o preceito dominical?

A estas duas questões, respondo de imediato: não, não é preciso seguir, não há qualquer obrigatoriedade. A celebração da Palavra em família pode ser feita de muitas formas diferentes, nenhuma superior à outra.

E nós, Família Power? Vamos usar algum guião?

Não. Nós nunca, em toda a nossa vida familiar, conseguimos seguir um guião de oração. Lembro-me de um episódio que se passou com o Francisco, quando era aluno no Colégio Nossa Senhora da Assunção e tinha cerca de doze anos. Depois de uma vigília de oração de quase duas horas, para celebrar o aniversário do nascimento da fundadora da congregação, chegou a casa com o pai, pelas onze da noite.

“Então, Francisco, rezaste muito?” Perguntei.

“Nem por isso”, respondeu-me prontamente.

“Como não rezaste muito? Estiveste duas horas na vigília de oração!”

“Eu sei, mas havia tantos textos para escutar, tantos textos para ler, tantas respostas a dar, que não sobrou muito tempo para rezar.”

Um dos maiores elogios que a Bíblia reserva para Moisés é este:

Moisés falava com Deus como um amigo com o seu amigo. (Ex. 33, 11)

Que ousadia, que familiaridade! Podemos nós falar com Deus como um amigo com o seu amigo? Eu não me imagino a sacar de um papel de cada vez que quero conversar com a minha mãe, com as minhas irmãs, com o Niall, com os meus filhos… Santa Teresinha dizia que se cansava facilmente a procurar nos livros belas orações. Preferia simplesmente dizer a Jesus o que tinha a dizer, com a simplicidade de uma criança.

Uma coisa diferente são as meditações, que podemos fazer individualmente no nosso tempo de oração, lendo-as a partir de um livro. É o que acontece, por exemplo, quando fazemos a Via Sacra, a Via Stellae, uma novena, um texto dos meus livros Os Mistérios da Fé (boa ajuda para estes tempos também!). Mas depois de uma meditação, não precisamos de rezar com palavras emprestadas. As que brotarem do nosso coração são certamente do agrado de Deus! Nos meus livros, por vezes termino as meditações com alguma oração, mas nunca mais do que duas curtas frases. Um texto inteiro, nem pensar! Não quero que as minhas palavras obscureçam as que brotam dos corações.

Naturalmente que, quando falo em orações emprestadas, não me refiro às longas orações da missa, como a Oração Eucarística! As orações da missa são, todas elas, sacramentais, especialíssimas. Não confundamos!

No nosso movimento, propomos cinco orações em comum: o Pai-Nosso, a Avé-Maria, o Glória ao Pai, o Shemá, a Consagração. Cada família terá mais duas ou três invocações ou orações prediletas, e nada mais. Isto pertence ao carisma do movimento, e por isso é importante, quando nos reunirmos, treinarmos a espontaneidade da oração familiar, permitindo a todos que exprimam o seu louvor ou a sua súplica ao Senhor com palavras simples e sinceras. E é importante que os nossos tempos de adoração eucarística decorram em silêncio, depois das orações normais de introdução, a fim de permitir a cada um conversar com Jesus “como um amigo com o seu amigo”. Nunca lemos extensos textos nessa altura, e apenas vamos cantando curtos cânticos para manter a atenção no Senhor.

Então, como podemos celebrar o domingo em casa, nestes tempos de fome? Podemos iniciar a oração familiar com um cântico e o sinal da cruz. Podemos ler as leituras da missa, a partir de um missal em papel ou online (aqui no site está um) – e todas, não apenas o Evangelho. Podemos, juntos, conversar sobre elas, deixando a semente cair na terra do coração de cada um. A partilha não precisa de ser demasiado séria, para não se tornar desconfortável. A Palavra está tão próxima de nós, que nos faz sorrir, que nos permite brincar, que nos emociona, que nos leva até a dizer um disparate sem medo de sermos criticados. Afinal, estamos em família! Alguém dirá alguma coisa realmente profunda, e todos serão tocados. O Espírito Santo nunca falha!

Se já estamos acostumados à oração familiar, será natural um momento de silêncio para pedir perdão, seguido do Ato de Contrição ou do Senhor, Tende Piedade. Façamos preces espontâneas por todo o mundo, ou sigamos as do missal, se o tivermos. Não esqueçamos, naturalmente, as vítimas da pandemia e todos os que trabalham para a combater. E antes de terminar, façamos uma Comunhão Espiritual, o que também não precisa de ser complicado. Peçamos simples e insistentemente a Jesus que venha ao nosso coração, ainda que não sacramentalmente, ao menos espiritualmente.

Já leram o post que escrevi (aqui) sobre as leituras da missa deste domingo, como escrevo todas as semanas?

Já escutaram o cântico que compus, há uns anos, sobre o Evangelho de amanhã, a Samaritana?

https://www.familiasdecana.pt/wp-content/uploads/2016/09/Rio-de-%C3%A1gua-viva.mp3

Inspirem-se, aprendam-no em família, e vamos a isso! Somos ou não somos Igrejas Domésticas, cada uma das nossas famílias?

Nós, Jesus!

PS – Para quem o desejar, na nossa página do facebook amanhã às dez horas será transmitida a Eucaristia a partir da nossa paróquia (assim o consigamos fazer). O senhor padre irá celebrar, a Lena LeBlanc irá acolitar e fazer as leituras, enquanto a Clarinha, o Francisco e eu cantaremos e tocaremos. Esperemos que nos possam acompanhar!

2 Comments

  1. Paula Almeida

    Obrigada. As 10 lá estaremos a assistir. Eu e a familia ca em casa. Beijinhos
    Paula Almeida

  2. Aguardamos!!!! 🙂
    Muito obrigada pela dedicação!
    Bom Domingo a todos 😀

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *