Em Caná da Galileia...


Como? Adiem-se os sacramentos?

Das muitas notícias que nos chegaram sobre o estilo sacerdotal do Papa Francisco, no início do seu pontificado, foi a forma como costumava passar os meses de verão: em vez das merecidas férias, o padre Bergoglio passava o verão nos bairros sociais da sua terra, casando e batizando os que nunca tinham tido oportunidade de celebrar estes sacramentos. Que a ninguém se neguem os sacramentos essenciais, dizia.

Já Papa, deu inúmeros sinais da importância que, para ele como para a Igreja, têm os sacramentos, repetindo e tornando a repetir que a Igreja não é nenhuma alfândega a dificultar o seu acesso a todos. Recordo em especial um gesto interessante, que despertou muita atenção na altura: durante um voo internacional, o Papa Francisco casou espontaneamente dois hospedeiros de bordo, que já viviam juntos e tinham filhos em comum, e que não conseguiam apontar nenhuma boa razão para ainda não estarem casados. Lembram-se? 

Nas suas catequeses sobre o Batismo, o Papa referiu inúmeras vezes a necessidade de se batizarem os bebés, porque o Batismo não é simbólico, mas real.

E na Alegria do Amor, o parágrafo nº 212  parece profeticamente escrito para os tempos da pandemia:

Queridos noivos, tende a coragem de ser diferentes, não vos deixeis devorar pela sociedade de consumo e da aparência. O que importa é o amor que vos une, fortalecido e santificado pela graça. Vós sois capazes de optar por uma festa austera e simples, para colocar o amor acima de tudo.

A “terceira bilha” das Famílias de Caná é a Vida Sacramental. Falamos em “santa pressa,” quando nos referimos aos sacramentos, e falamos em simplicidade e austeridade, quando nos referimos à sua celebração comunitária. É, para nós, sem discussão: os sacramentos são inadiáveis. Estamos, assim, em sintonia com o Papa Francisco e com o Catecismo da Igreja Católica.

Por tudo isto, fico realmente espantada ao ver vários bispos e sacerdotes (graças a Deus, não todos!) pedir para que, nestes tempos de pandemia, os sacramentos do Batismo e do Matrimónio sejam adiados. Será possível pedir-se tal coisa? Que me desculpem: não é.

(Cf. Diocese de Vila Real, aqui, Diocese de Viseu, aqui, apenas dois exemplos…)

Pedir que se adie um Matrimónio é

a) partir do princípio que os noivos já vivem como casados, não tendo assim qualquer pressa em iniciar a sua vida sexual, que já está mais do que iniciada (e ainda que isso seja verdade para muitos, não é, graças a Deus, para muitos outros);

b) desconhecer o funcionamento da sexualidade humana, que não admite, a não ser heroicamente, uma espera demasiado longa;

c) dar aos noivos autorização para pecar, iniciando a sua vida sexual antes do casamento assim adiado. E neste caso, significa que não se acredita no valor do sacramento, ou seja, que não se considera realmente a sua necessidade para o início de uma vida matrimonial, pelo que não se considera pecado passarem a viver juntos antes do Matrimónio.

Pedir aos pais que adiem o Batismo, a não ser em perigo de morte, é dizer-lhes que o Batismo é um sacramento semelhante à Santa Unção, ou seja, necessário para a passagem deste mundo para o outro, podendo ser adiado até à hora da morte, que se espera, esteja ainda muito longe; e não o sacramento que nos inicia na filiação divina, e nos lança na maravilhosa aventura da fé. Diz o Catecismo:

A Igreja e os pais privariam a criança da graça inestimável de se tornar filho de Deus, se não lhe conferissem o Batismo pouco depois do seu nascimento. (nº 1250)

Eu nunca me convenci – todos os que me leem o sabem – que a pandemia nos ia transformar em seres humanos extraordinários e em cristãos de excelência, como tantos memes e tantos textos apregoavam. Mas até eu fico surpreendida que não se aproveitem as poucas coisas boas que a pandemia trouxe, nomeadamente, a enorme janela de oportunidade para pôr em prática as indicações, sugestões e pedidos do Papa Francisco relativamente a estes dois sacramentos.

Numa altura em que, e muito bem, a Igreja olha para o nosso querido Papa a fim de perceber a liceidade de algumas decisões sem paralelo na sua História, porque não olhar para o conjunto da sua mensagem e para aquilo que ela trouxe de verdadeira novidade? Ninguém pode negar que o tema dos sacramentos e da sua urgência ou simplificação é central neste pontificado. A obediência ao Papa passa sobretudo pela obediência ao sentido profundo da sua mensagem.

Queridos católicos leigos, queridas Famílias de Caná, adiem a festa, adiem os convidados, adiem tudo, mas celebrem os sacramentos do Matrimónio e do Batismo com toda a dignidade e toda a urgência que lhes pertence. Se for preciso fazê-lo noutra paróquia ou noutra diocese, que seja, com as devidas autorizações. Não se trata aqui de obediência, de unidade ou de qualquer outra virtude. Trata-se, isso sim, de uma questão de vida ou de morte, essa vida e essa morte espirituais em que, surpreendentemente, a pandemia não nos ajudou a refletir mais do que fazíamos…

VID_20200516_162241

 

 

6 Comments

  1. Bom dia Teresa! Concordo plenamente consigo, custa me tanto ver crianças na minha própria família a serem batizadas com 1 e 2 anos de idade (mas isso não tem nada a ver com a pandemia). Bem haja pelas suas reflexões e comentários! Cumprimentos 🙂

  2. Lilian Nunes Vicente Fraga

    Olá Teresa! Já há quase vinte anos muita gente se espantou como eu e o meu marido marcámos casamento para daí a três meses. Mas para mim o estranho são casamentos marcados com antecedência de um ou dois anos. As pessoas dão mais importância àquele dia de festa do que ao que se vai passar nos anos seguintes, endividam-se (ou os pais) para terem a mais espectacular festa do universo.
    Quando nasceu o meu primeiro filho, houve familiares que ficaram desiludidos por termos feito o baptizado umas semanas depois do nascimento, no inverno e só com um lanche. Que não se baptizavam crianças em Dezembro e porque não esperar pelo primeiro aniversário e fazer um festão num jardim. Assim continuámos a fazer com o segundo e o terceiro filho.
    Nunca me arrependi de nenhuma destas escolhas. Gosto da simplicidade e vivo bem assim.
    (Ainda hoje a minha avó, de quase 99 anos, diz que nunca viu uma noiva ver três vestidos e escolher um em quinze minutos)

    • ahahahah que máximo, pensei que era só eu! Obrigada pelo seu testemunho! Não casei há quase 20 anos…nem há 20 meses…e foi tal e qual! Grandes guerras por a lista de convidados ser tão pequena, o vestido tão simples, não ter ido ao cabeleireiro, não ter tido fotografo, musica e afins… não ter convidado o primo, a prima, o namorado da prima, a prima da prima, a amiga da mãe e do pai que já não vemos há 10 anos mas que há 15 anos nos convidou para o batizado do filho… Bem…. a Igreja esteve sempre aberta e não vi a prima, o primo e a prima da prima na Eucaristia quando as bodas foram exactamente lá, com o melhor banquete…e para a eucaristia, que eu saiba, ninguém precisa de convite formal! Enfim…é o que temos! Daqui a 2 meses chegará a guerra do batismo, tal e qual! 😉 Sim, porque haverá um sacerdote corajoso num raio de 300km que batize por acreditar que os sacramentos não são simbólicos mas antes reais, tal como disse a Teresa, e inadiáveis! Esses sacerdotes ainda existem!!! Eu quero mesmo acreditar que sim!!!

      • Esses sacerdotes existem e eu conheço alguns! E não esqueçamos que outras dioceses têm indicações diferentes para a celebração destes sacramentos, que não implicam adiar. Aliás, as indicações da CEP (que não obrigam nenhum bispo particular) não falam em adiamento. Estas decisões estão a ser tomadas a nível diocesano, com a autoridade do bispo de cada diocese. Rezemos juntos por uma renovação sacramental! Bj

  3. Catarina Ramos Tomás

    Obrigada Teresa por nos ir formando nestas questões tão básicas da nossa fé.
    Já imensas vezes lhe agradeceram a simplicidade e clareza com que aborda assuntos tão complexos, mas hoje não resisto e escrevo mais uma vez.
    É certo que sou daquelas caseiras. Sempre me mantive muito pela minha paróquia e se calhar por isso nunca ouvi um padre falar assim.
    Desculpem estar sempre a ir buscar a minha vida, mas esta conheço bem. Quando quis batizar o meu primeiro filho foi-me dito que esperasse um pouco mais para que ficasse bem sentado nas fotografias; que não o batizasse na Vigília Pascal pois não poderia oferecer aos convidados o banquete de seguida; o processo burocrático para o batismo foi longo (mesmo estando nós – pais – muito integrados na comunidade…
    Na altura não conhecia a Família Power e por isso fui agindo de acordo com as “orientações” que me chegavam de quem presidia ao sacramento… E não, não procurei obter eu própria as respostas!
    Hoje faria diferente, porque entretanto que foi dada uma outra visão de como fazer.
    O meu Paróco em jeito de desabafo dizia que a melhor parte desta Pandemia era não ter que lidar com processos de casamento e batismo. O que é que se passa? Estará a casar e a batizar as pessoas suficientemente formadas?
    Não me lembro de me terem dito que o meu matrimónio comprometeria a minha entrada no céu…
    Lembro-me que me disseram para ser muito feliz…
    Isto tudo para dizer à Teresa que continue a formar (me). Aprendo sempre muito….

  4. Ora aqui fica uma notícia que encontrei, mostrando precisamente como pode ser um casamento na era covid: https://www.zankyou.pt/p/casar-em-tempos-de-covid-19-a-historia-de-um-amor-nao-adiado-em-portugal

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *