Em Caná da Galileia...


Consumismo espiritual

Primeiro de uma série de artigos sobre o carisma e a espiritualidade das Famílias de Caná

“Mãe, vem ver! Não vais acreditar! Olha!” O António leva-me pela mão ao jardim e mostra-me a pereira. Pela primeira vez desde que a plantámos, está coberta de pêras pequeninas e verdes, a crescer lentamente.

Quando viemos morar para Mogofores, para uma casa com terra a toda a volta, decidimos de imediato construir uma pequena horta. Não tencionávamos cultivar o suficiente para alimentar uma família numerosa. Queríamos apenas que os nossos filhos descobrissem como é difícil, cansativo – e maravilhoso – alimentarmo-nos com o fruto do nosso trabalho. E queríamos que os nossos filhos descobrissem que a natureza oferece abóboras no outono, morangos no verão, laranjas no inverno, favas na primavera. Evitaríamos assim aquelas birras fantásticas dos mais pequenos, exigindo fatias de melão em dezembro ou uvas em fevereiro.

De facto, os hipermercados habituaram-nos a consumir o que quisermos, quando quisermos, fazendo as misturas que bem quisermos. Se não tivermos cuidado, perdemos o contacto com a verdade pura das coisas criadas. E os nossos filhos crescerão com esta estranha sensação de que basta estender a mão, e tudo estará ao nosso alcance.

Ultimamente, tenho assistido a um alastrar deste espírito consumista à própria vida da fé. Vejo muita gente a correr atrás de vários movimentos de Igreja ao mesmo tempo, de várias revelações espirituais como aparições marianas, etc, também ao mesmo tempo, de missas celebradas por determinado sacerdote mais carismático, retirando daqui e dali o que mais lhes agrada, sem se comprometerem com nada em particular, ou sem entenderem realmente o que significa o compromisso que já assumiram. À mesa familiar, servem então esta “fartura espiritual”, esta mistura abundante de “frutos e legumes” digna do melhor hipermercado da zona.

É uma forma de ser cristão, naturalmente. Não me compete julgar ou criticar quem assim o faz.

Mas esta forma de ser cristão não é compatível com o Movimento Famílias de Caná. Comprometer-se com o Movimento implica uma renúncia, tal como o casamento com determinada pessoa implica renunciar ao casamento com qualquer outra pessoa, por muito maravilhosa que ela seja. É preciso afirmá-lo aqui muito claramente, porque este site pretende fazer crescer, amadurecer, educar o Movimento que, pequenino e ainda “menino de peito”, é por isso mesmo, muito frágil.

As Famílias de Caná têm uma “horta caseira” no quintal da sua casa. Como canta o salmista, “não andam atrás de grandezas nem de maravilhas que as ultrapassam” (Sl 131). Se as vinhas não derem uvas em janeiro, elas esperam pacientemente que o verão chegue; quando o pai puser os morangos na mesa, depois da longa espera do inverno, com que alegria os saborearão! E quando, como o António, se derem conta dos frutos pequeninos e verdes a amadurecer pela primeira vez numa árvore do pomar, então rejubilarão.

As Famílias de Caná possuem um tesouro único, nesta horta que adquiriram depois de vender tudo, como diz o Evangelho (cf. Mt 13, 44). Este tesouro chama-se família. Chama-se paróquia. Chama-se rotina. Palavras tão mal-amadas, palavras tão aparentemente banais. Pois não é o terreno da família, muitas e muitas vezes, um terreno pedregoso, difícil de cultivar? E o que dizer do da paróquia? Quantas paróquias nascidas na aridez de um deserto duro… Rotina? Podemos amar a rotina? Ah, como eu vos queria meter no peito este amor, a chave da vida monástica, capaz de plasmar santos século após século, até aos dias de hoje, em cada mosteiro escondido!

Mas não precisaremos, todos nós, de formação? Claro! Precisamos de formação, e de muita. Peçamo-la à paróquia, como crianças de colo aos pais! Organizemos Escolas de Pais, Catequese de Adultos, Encontros Bíblicos, etc, nas nossas paróquias, e vamos aí beber! Procuremo-la também noutros lugares, em leituras e cursos. E, claro, procuremo-la na nossa Aldeia de Caná e nos encontros nacionais, que iremos intensificar seguramente no próximo ano pastoral. Mas procurar formação não é o mesmo que experimentar emoções espirituais e diversos carismas.

A horta singela e pequenina das Famílias de Caná – a família, a paróquia, a rotina – é um campo que esconde um tesouro. Aqui nascerão – se lhe dermos tempo, espaço e amor – os frutos da paciência, da humildade, da alegria, da esperança e da fé. Aqui, pais e filhos crescerão numa maturidade espiritual profunda e sólida, quase sem se darem conta.

Mas só o descobrirá quem, como diz o Evangelho, tiver a coragem de vender tudo para comprar este campo (cf. Mt 13, 44). Vender também a sua ânsia de consumir, de experimentar, de mudar, de fazer riqueza lá longe…

Ser Família de Caná é estar Aqui. Agora. Na estação do ano presente. No jardim onde Deus nos plantou. Na verdade. Na realidade que é a nossa, a de cada um.

Senhor, meu coração não é ambicioso,

nem meus olhos se alteiam.

Não ando atrás de grandezas,

nem de maravilhas que me ultrapassam.

Não! Fiz calar e repousar meus desejos,

como criança saciada ao colo da mãe.

A minha alma é como uma criança saciada!

(Sl 131(130)

One Comment

  1. Bom dia Teresa,

    a emoção na prática religiosa é essencial ao homem, alegrai-vos e não temais, tantas vezes o dizia Jesus. Por isso o Santo Padre visitou Fátima em 2017, mas a transformação profunda, a presença consciente de Deus no centro da nossa vida requer continuidade e persistência.
    A rotina é determinante para a saúde mental, sim este é um caminho para o equilíbrio… um caminho em que os peregrinos, em família, se vão apoiando um aos outros, partilhando as premissas de cada horta! E assim seremos Igreja!

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