Em Caná da Galileia...


Controlo de velocidade de cruzeiro

A nossa missão em Faro foi preparada com muita animação, pois nunca lá tínhamos estado como família. Queríamos aproveitar ao máximo o tempo de missão para fazermos também a nossa descoberta do Algarve. Estávamos muito entusiasmados com a ideia de viajarmos num único carro – geralmente levamos dois, pois o monovolume só tem sete lugares -, graças à generosidade dos salesianos, que nos iriam emprestar a carrinha de nove lugares do colégio. Uma viagem de cinco horas faz-se melhor estando todos juntos, em animada conversa.

Assim, sábado de manhã fizemo-nos à estrada, ainda não eram nove horas. Depois de alguns quilómetros em autoestrada, eu perguntei ao Niall: “Não achas que devias acelerar um pouco? A autoestrada está vazia, e tu vais a 115 à hora…” Nervoso, o Niall respondeu-me: “Teresa, eu tenho o pé no acelerador até baixo. O carro não responde. Deve ter o controlo de velocidade de cruzeiro ligado. Preciso de desligar isto, ou não vamos chegar hoje ao Algarve…” A seu pedido, procurei na gaveta o livro de instruções e passei-o para o banco de trás, onde o Francisco o estudou atentamente. Depois pôs-se a dar orientações ao pai: “Carrega no botão tal, desbloqueia o botão tal…” Mas o tempo, mais do que os quilómetros, ia passando, e a carrinha continuava a 115 à hora numa autoestrada vazia.

“Hoje é o dia de anos do Tomás. Tudo vai correr bem!” Disse eu, procurando acalmar o Niall. Passámos Fátima, sempre à mesma velocidade. Um pouco à frente, um sinal luminoso na autoestrada pedia prudência. “Finalmente um obstáculo a contornar!” Brincou o Niall, que mesmo na aflição não perde o sentido de humor. “A esta velocidade e com a estrada vazia, estava quase a dormir!” Por fim, parámos numa estação de serviço, e enquanto eu levei os meninos à casa-de-banho, o Niall e o Francisco dedicaram-se a descobrir o dito botão. Quando retomámos a viagem, o problema estava resolvido.

Graças a Deus! Felizes, cantámos canção após canção, a Clarinha à guitarra,  enquanto acelerávamos (dentro do bom senso e da segurança normal) para podermos chegar ao Algarve a horas do nosso encontro. Descontraídos, o Niall e eu aproveitámos a viagem para pôr a conversa em dia. É tão raro viajarmos num único carro e podermos conversar durante cinco horas seguidas! Não há ninguém sobre a Terra com quem eu mais goste de falar do que com o Niall, e por isso saboreei cada minuto da nossa conversa.

Por fim, em tons castanhos esverdeados e céu azulão, entrámos no Algarve. Colinas atrás de colinas, o mar ao fundo, uma paisagem deslumbrante, e chegámos a Faro às duas horas em ponto, portanto, com uma hora de antecedência. Mas… Por que estariam tantas dezenas de pessoas em pé diante da igreja de S. Luís? Não era certamente para nós, tão cedo! A Patrícia veio ao nosso encontro, reconhecendo a carrinha dos salesianos. Cumprimentei-a: “Patrícia, o encontro é só às três, não é?” “Não, estava marcado para as duas”, respondeu-me, surpreendida.

Já experimentaram ver um filme com o botão do Fast-Foward ligado? Pois foi assim que nós nos calçámos, vestimos casacos, saltámos do carro, agarrámos no computador, nas colunas, na guitarra, nos livros, e corremos para o palco.

Ninguém deu pela nossa pressa. Afinal, tínhamos chegado a horas, e à boa maneira portuguesa, o atraso com que começámos não foi nada de relevante. Agradeci ao Senhor não ter permitido que eu me desse conta do engano antes, pois então o pânico teria sido muito maior e nem sequer teríamos parado para almoçar!

Controlo de velocidade de cruzeiro. Quantos de nós viajam pela vida com ele ligado? 115 quilómetros à hora durante todo o percurso. Cumprindo hoje as mesmas leis da Igreja que cumpríamos há dez anos atrás, e que continuaremos a cumprir até à morte, farisaicamente felizes, recusando pelo caminho qualquer proposta de ir mais longe, qualquer desafio que obrigue, ainda que levemente, a perder o controlo absoluto da vida de fé e a correr riscos.

Estamos conscientes de que o nosso testemunho é contra-corrente e incomoda muitas pessoas. Há uns anos, um amigo comentou, no final do nosso testemunho, em tom de crítica: “Eu pensava que bastava ser-se boa pessoa para se chegar ao céu, e vocês vêm dizer que é preciso ser-se santo.” E uma amiga explicou-me por que não queria tomar parte no nosso encontro de Aldeia de Caná: “Nós vamos sempre à missa, lá em casa. E batizei os meus filhos. Não sinto necessidade de mais nada, obrigada na mesma!”

Talvez o que de mais importante aconteça no nosso testemunho familiar seja isto mesmo: durante hora e meia, nós desafiamos as famílias a desligar o controlo de velocidade e a arriscar, a alta velocidade, a caminho do céu. Entre a mediocridade e a santidade há muitas vezes apenas esta simples diferença: numa, o controlo de velocidade está ligado; na outra, desligado.

Não sabemos o dia nem a hora do encontro que o Senhor marcou com cada um de nós. Não conduzamos tão devagar, que corramos o risco – esse sim, sério – de não chegar a tempo. Vamos! Desliguemos agora mesmo o controlo de velocidade! E deslizemos, felizes, pela autoestrada do Amor, com a pressa dos apaixonados, sem abrandar nem parar, até chegarmos ao nosso destino… Destino que será ainda mais bonito do que o nosso no sábado passado:

Ámen!

One Comment

  1. Sónia Alexandrina Santos

    Ora aí está a explicação por que não gosto do Cruise Control ( João Miranda Santos😉)!

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