Em Caná da Galileia...


Convocados

Uma taça, uma vitória, uma equipa, um capitão, um treinador, uma nação – e todos gritamos vitória, com um entusiasmo que há muito não conhecíamos. A festa foi e continua a ser bela, e as emoções estão todas à flor da pele, enquanto descobrimos até onde somos capazes de chegar. Viva Portugal!

São muitas, as lições que os dias de ontem e hoje nos trazem; e muitas as mensagens para nós, cristãos. Aqui ficam apenas algumas leves pinceladas:

Cristãos que não têm tempo para ir à missa? Cristãos que, durante as férias, deixam de ir à missa porque não acharam prioritário saber onde fica a igreja da praia onde se encontram? Fernando Santos vai não apenas ao domingo, mas também durante a semana; e a primeira coisa que faz, ao chegar a uma terra nova, é procurar a igreja mais próxima, para que não falte nunca à Eucaristia… Vejam este vídeo no Youtube, onde o selecionador fala da sua fé!

Os embates da vida, os problemas no trabalho, as críticas dos outros, tudo nos faz esmorecer a fé e baixar os braços? Olhemos para Ronaldo, lesionado, atacado, criticado, que se não pode jogar em campo, joga fora de campo, mas por nada deste mundo desiste de conquistar o sonho que comanda a sua vida.

Ninguém nos dá uma oportunidade? Ninguém parece reparar em nós? Somos os menores e os mais esquecidos nos meios onde nos movimentamos? Talvez o golo da vitória esteja à nossa espera, e a oportunidade nos apanhe de surpresa – se, como Éder, estivermos preparados, atentos e com concentração máxima, claro!

Todos fomos convocados para este campeonato europeu – uns para jogar, outros para treinar, outros para curar, outros ainda para assistir e encorajar, gritando vitória e cantando vivas. A vitória foi de todos os portugueses espalhados pelo mundo, ricos e pobres, pretos e brancos, desportistas e não desportistas, de direita e de esquerda. A vitória foi ainda dos povos amigos de Portugal, que não gritam “ganharam!” mas “ganhámos!”

Ah, tantas lições a aprender! Quantas e quantas vezes, em Igreja, não nos opomos apenas às outras “equipas”, mas também dentro da nossa própria? Quantas vezes as vitórias de uns soam a derrotas de outros, e os crentes se dividem em fações, gladiando-se conservadores e progressistas, deste ou daquele movimento, desta ou daquela paróquia, deste ou daquele grupinho! Quantas e quantas vezes, como nas parábolas de Jesus, opomos o irmão mais novo ao irmão mais velho, a ovelha perdida às ovelhas certinhas, o publicano ao fariseu, os trabalhadores da vinha que madrugaram aos trabalhadores de última hora… Será o mundo mais capaz de unidade do que a Igreja de Cristo? Para quando o “Nós, Jesus”, em vez do “eu contra ti e tu contra mim”?

Nos retiros Famílias de Caná, já vi várias pessoas comentarem: “Pensei que para chegar ao céu bastava ser boa pessoa, e agora a Teresa vem e diz que é preciso ser santo…” Muitas histórias têm vindo a lume sobre Cristiano Ronaldo. Contava há tempos, numa entrevista, um seu companheiro do Real Madrid, que nunca conseguira chegar ao treino antes de Ronaldo. Por muito que tentasse, Ronaldo estava sempre lá primeiro. A resposta, quando lhe perguntaram porquê? “Se quero ser o melhor do mundo, tenho de trabalhar para isso.” Nós não queremos ser os melhores do mundo, porque isso é muito, muito pouco: nós queremos chegar ao céu, esse lugar que S. Paulo descreve como “nem olho viu, nem ouvido ouviu, as maravilhas que Deus tem preparadas para os que O amam” (1Cor 2, 9). A sério que achamos que nos basta a mediania?

Todos fomos convocados, desde o dia do nosso batismo. Diz S. Paulo, esse grande Cristiano Ronaldo do cristianismo:

Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. A partir de agora, já me aguarda a merecida coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor, justo juiz, e não somente a mim, mas a todos os que anseiam pela sua vinda. (2 Tm 4, 7-8)

Fecho os olhos e, pela minha mente, passam as belíssimas imagens da Final do Campeonato Europeu de ontem, as emoções, a fé, a luta, a determinação, a coragem, a decisão, enquanto as Palavras do Atleta de Cristo me desafiam a serntir-me convocada em cada dia:

Esquecendo-me do que está para trás e lançando-me para o que vem à frente, corro em direção à meta, para o prémio a que Deus, lá do alto, nos chama em Cristo Jesus. (Fl 3, 13-14)

Não merecerá o céu um esforço infinitamente maior de cada um de nós, cristãos convocados, Famílias de Caná? Não será o prémio que nos está reservado mil vezes mais belo que a Taça da Europa? Não será hoje, no jogo da nossa vida, a hora de dar o tudo por tudo?…

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(fotografia do DN)

 

4 Comments

  1. Cristóvão Duarte Sousa

    Permitam-me acrescentar estas palavras, também de Paulo: «Não sabeis que os que correm no estádio correm todos, mas só um ganha o prémio? Correi, pois, assim, para o alcançardes. Os atletas impõem a si mesmos toda a espécie de privações: eles, para ganhar uma coroa corruptível; nós, porém, para ganhar uma coroa incorruptível.» 1Cor 9, 24-25

  2. Sim!!!!!!

    Eu que nem sou grande adepto de futebol tambem consegui tirar grandes mensagens deste campeonato e dos seus protagonistas.

  3. Que bonitas lições, difíceis de entrar nos nossos corações duros, mas muito belas! Cada vez que tiver vontade de baixar os braços hei de lembrar-me deste texto!
    🙂 A começar hoje!

  4. Podemos dizer que, neste campeonato europeu, se aprofundou a parábola dos talentos: colocar os nossos talentos a render… Cada jogador, à sua maneira, lutou, suou e colocou o seu talento a render… e o mister, o líder, o “convocado” usou o seu talento de colocar os talentos dos que lhe foram confiados a render. Uma grande lição para todos nós. Também procuramos colocar a render os talentos dos que nos foram confiados, tal como Jesus procura colocar os nossos?

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