Em Caná da Galileia...


Cristo Rei do Universo, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

O EVANGELHO COMEÇA EM CASA

Começámos o ano litúrgico preparando o Natal, o mistério sublime em que Deus veio habitar entre nós. E num crescendo de fé, esperança e amor, terminamos agora celebrando Cristo Rei, “o fim, quando Cristo entregar o reino a Deus Seu Pai” e habitarmos “na casa do Senhor para todo o sempre”.

Como celebrar a certeza de que Cristo porá “todos os inimigos debaixo dos seus pés”, nos dias de hoje? E, no entanto, Ele triunfará: “Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários.” Façamos festa! “Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos”, como os abismos de trevas onde os cristãos hoje vivem, “não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo.” Somos, de facto, bem-aventurados!

“Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas e hei de encontrá-las”, diz-nos o Senhor, a nós que vivemos “tresmalhados”, a nós que nos desgarrámos “num dia de nevoeiro e trevas.” Como é carinhoso, este Pastor! À semelhança de qualquer pai de família numerosa, o Pastor sabe que cada ovelha é única, e cuida de cada uma de acordo com as suas necessidades: “tratarei a que estiver ferida, darei vigor à que andar enfraquecida e velarei pela gorda e vigorosa.” Cada ovelha vale todo o sangue de Cristo, pois o Bom Pastor dá a vida por uma única ovelha que se perde.

Paulo recorda-nos que, se Cristo é nosso Rei, nós reinamos desde já com Ele: “primeiro, Cristo, como primícias; a seguir, os que pertencem a Cristo, por ocasião da Sua vinda.” E o Evangelho assegura-nos de que o Reino é nosso, por direito de herança: “Vinde, benditos de Meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo.” Imitemos então o nosso Rei, como herdeiros que somos, tornando-nos, também nós, pastores dos nossos irmãos, servindo cada “ovelha” como se mais nenhuma existisse sobre a Terra.

A boa notícia é que o amor infinito que nos é oferecido para imitação não precisa de gestos grandiosos, mas concretiza-se nos gestos humildes e quotidianos da nossa vida: “tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me.” Penso na refeição diária que preparo para a minha família ao fim do dia de trabalho, na alegria com que meto no forno o bolo de chocolate para os lanches da “tarde livre”… Penso na tarefa, enfadonha para mim, de ver com os meus filhos a roupa que serve e a que deixou de servir, a que posso remendar e a que preciso de comprar… Ou na ternura contemplativa com que envolvia em lãs macias o corpinho quente de um recém-nascido. Penso nas horas que já passei à cabeceira de cada um, acarinhando-o nas suas pequenas ou grandes doenças… Penso na generosidade dos filhos que vestem, alimentam e honram os pais idosos acamados, e na grandeza de alma do esposo que acompanha a esposa até ao fim, numa doença terminal ou crónica, todos os dias da sua vida. Terei sempre a noção de que “quantas vezes o fizestes a um dos Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes”? Preciso urgentemente recuperar esta certeza, para servir o meu cônjuge, os meus filhos, e toda a minha família com a alegria de quem serve o próprio Deus. Pois o Evangelho começa sempre em nossa própria casa.

A brincar…

Mas também não fica encerrado nela. O Papa Francisco ensinou-nos a falar da “Igreja em Saída”, e os santos testemunham-no. Assim fazia a Família Martin, essa família de santos onde nasceu Teresinha do Menino Jesus. Conta Celina: “Uma manhã, o nosso pai encontrou na igreja um velho que lhe parecia desfalecido. Mandou-o ir a nossa casa, forneceu-o o melhor que pôde com víveres e, quando ele se ia embora cheio de gratidão, mandou-nos, a mim e à Teresa, que nos ajoelhássemos para que ele nos abençoasse.” (citado em Um amor escrito no céu) S. Luís Martin sabia que os pobres são Jesus encarnado. Receber a bênção de um pobre é receber a bênção de Jesus.

Celebrámos, por estes dias, S. Martinho, e cá em casa, houve castanhas e muita brincadeira. Sabemos a história: num dia de tempestade, Martinho cruzou-se com um mendigo enregelado. De imediato cortou a sua capa em duas, oferecendo-lhe metade, sem medo da chuva. E logo o sol rompeu as nuvens e secou a roupa de Martinho. Mas poucos conhecem o final da história: nessa noite, Martinho teve um sonho, em que Jesus lhe apareceu vestido com a meia capa oferecida, e lhe disse: “Obrigado, Martinho! Pois estava com frio, e tu vestiste-Me…”

e agora a sério!

Hora da missa. Como é bom deixar-me conduzir até verdes prados, onde correm águas refrescantes! Iniciámos a missa, e logo me perfumaste a cabeça com óleo e me lavaste o coração. Agora assisto, abismado, enquanto me preparas a mesa e o meu cálice transborda… Porque está a Tua casa tão vazia, neste dia de festa? Ah, se todos soubessem como nada nos falta aqui! Ensina-me a imitar-te lá fora, servindo e amando como Tu me serves e amas, trabalhando Contigo para que nenhuma ovelha se perca e possas, então, reinar em nós… Venha a nós o Vosso Reino!

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