Em Caná da Galileia...


Domingo da Ascensão do Senhor, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

VINDE, SENHOR JESUS!

Domingo da Ascensão. O mistério pascal está quase concluído. A partir deste domingo, uma parte de nós habitará para sempre o Céu. Mais um domingo ainda e, no Pentecostes, uma parte de Deus habitará para sempre a Terra…

O mistério da Ascensão está envolto em liturgia. Ele acontece perante a comunidade reunida dos discípulos, uma comunidade claramente litúrgica, que acabava de comer e beber com Jesus: “Dito isto, elevou-Se à vista deles.” De facto, o salmo fala do Senhor que “subiu entre aclamações, o Senhor subiu ao som da trombeta”, usando termos próprios da oração litúrgica do Templo. E aos Efésios, S. Paulo canta a vitória de Jesus em termos semelhantes, afirmando que Jesus foi colocado “acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há de vir”.

Também as nossas liturgias apontam para o mistério da Ascensão, quando somos convidados a unir as nossas vozes a todo o coro celeste, para louvar o Senhor em uníssono, na Terra e no Céu. No final da Consagração, rezamos com voz forte: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” Porque o mistério da Ascensão não se refere apenas à subida de Jesus, mas aponta também para a Sua “descida”, o Seu regresso na glória: “Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu.”

Nestes tempos de pandemia, curiosamente, tem-se refletido muito pouco sobre o Céu. Falamos do valor da vida, mas, ao contrário do que seria de esperar, não recuperámos nem renovámos a reflexão tradicional dos “novíssimos”: Morte, Juízo, Inferno ou Paraíso. Perdemos uma belíssima oportunidade, como Igreja, de aprofundar a teologia por detrás destes temas – e de falar da nossa Pátria definitiva, o Céu.

Jesus ressuscitado, dizem-nos os Evangelhos e os Atos, comeu e bebeu com os discípulos: “Um dia em que estava com eles à mesa”… Jesus ressuscitado não era um fantasma, um espírito desencarnado, mas um Ser total, Espírito e Corpo glorioso. Nós, cristãos, acreditamos sem compreender – é dogma da nossa fé – que, um dia, também os nossos corpos, à semelhança do Corpo de Jesus, ressuscitarão, pois como diz Paulo, Ele é “a Cabeça de toda a Igreja, que é o Seu Corpo”. E ressuscitarão gloriosos como Ele, ainda que, primeiro, voltem ao pó da terra.

Porque acreditamos na “ressurreição da carne”, como professa o Credo dos Apóstolos, estamos proibidos de mutilar os nossos corpos; chamamos “obra de misericórdia” ao ato de cuidar dos enfermos, sem nunca separar o cuidado do corpo do cuidado do espírito; e “obra de misericórdia” ao ato de sepultar dignamente os mortos, em todas as circunstâncias. Porque acreditamos na ressurreição da carne, veneramos as relíquias dos santos, visitamos os túmulos dos familiares falecidos, rezamos nos cemitérios. Mas também porque acreditamos na ressurreição da carne, não tememos a morte biológica, antes a esperamos com verdadeira e profunda alegria. Ou não?

É ainda a fé na ressurreição da carne que faz com que os sacramentos só sejam válidos na presença do ser humano total, corpo e espírito; e que torna essencial alimentarmo-nos com o Corpo Ressuscitado de Jesus na Hóstia Santa, comendo-O de facto.

A fé cristã, ao contrário de muitas correntes heréticas ou orientais, não separa, pois, o corpo do espírito. Por isso, a famosa “teoria do género” não faz qualquer sentido para nós, pois não existem espíritos aprisionados em corpos errados. Somos uma unidade de corpo e espírito, e nem na eternidade deixaremos de o ser.

“Ide e ensinai todas as nações”, ordena Jesus, antes de subir ao Céu. E acrescenta: “batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei.” Que grande missão! Fomos chamados a ensinar a todos o que também nós aprendemos, evangelizando e deixando-nos evangelizar. Que este despertar para a importância da Igreja Doméstica traga um verdadeiro alento à catequese familiar!

Nos relatos da Ascensão, há referência especial ao sacramento do batismo. O mandato de Jesus é claro: é preciso batizar. O batismo não é opcional nem simbólico. Possamos, em tempos de pandemia, valorizar de tal forma este sacramento, que estejamos dispostos a realizá-lo sem convidados, sem festa pública, e sem o adiarmos para quando tudo isso estiver presente, recusando-nos, assim, a privar os nossos recém-nascidos do essencial: a sua filiação divina.

“Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?” Perguntam os discípulos. É a pergunta que cada geração repete, em momentos de perseguição, apostasia, ou do famoso trio “fome, peste e guerra”. A resposta de Jesus permanece inalterada: “Não vos compete saber”. Mas – acrescenta – “sereis minhas testemunhas”.

Sejamos então! E rezemos com ainda maior convicção: “Vinde, Senhor Jesus!” Sabendo que, em cada Eucaristia, antecipamos todas as maravilhas pressentidas no mistério que, hoje, celebramos. Aleluia!

(E por falar em ascensão, aqui fica o último vídeo 🙂

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