Em Caná da Galileia...


Domingo da Misericórdia, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

PRESENÇA E DISTÂNCIA

Aleluia! “Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom! Porque é eterna a sua misericórdia!”

“Na tarde daquele dia, o primeiro da semana”… É Domingo, e desde aquela madrugada surpreendente em que Madalena descobriu o túmulo vazio, hoje é o Dia do Senhor. Os discípulos estão reunidos numa casa, de portas fechadas. Dois milénios depois, as Escrituras cumprem-se de novo. Aqui estamos também, celebrando o Domingo de portas fechadas, “com medo”.

E é aqui mesmo, na nossa casa, no nosso medo, que “veio Jesus, estando as portas fechadas.” Durante anos, pensei que esta capacidade de Jesus atravessar paredes acontecia por Ele ser espírito, um pouco como um fantasma ou uma sombra. Mas é precisamente o contrário: Jesus atravessa paredes, não porque seja um espírito sem corpo, mas porque Ele é verdadeiramente Vivente, Espírito e Corpo Ressuscitado. As paredes, essas sim, são mera sombra para Ele, nevoeiro que um só gesto da Sua mão dissipa e apaga. Também as paredes do nosso coração, das nossas separações, dos nossos pecados, tudo o Ressuscitado pode atravessar e dissipar. Acreditamos nisto?

Porque Jesus é Espírito e Corpo Ressuscitado, as feridas da sua crucifixão nunca cicatrizaram: “Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.” Jesus Ressuscitado deixa-Se reconhecer pelas Suas feridas, essas feridas que nós Lhe causámos com o nosso pecado! Mas porque Jesus só sabe pagar o mal com o infinito Bem, essas mesmas feridas tornaram-se, pelo amor vitorioso, em “fonte de misericórdia para nós” (Diário de Santa Faustina, nº 84).

E hoje, neste Domingo de Páscoa, a misericórdia torna-se sacramento do Perdão: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos”. Hoje é o dia da Festa da Divina Misericórdia, que S. João Paulo II instituiu, honrando o pedido expresso de Jesus a Santa Faustina: “Desejo que a Festa da Misericórdia seja refúgio e abrigo para todas as almas, especialmente para os pobres pecadores. Neste dia estão abertas as entranhas da Minha Misericórdia. A alma que for à confissão e receber a Sagrada Comunhão obterá remissão total das culpas e das penas. Que nenhuma alma receie vir a Mim, ainda que os seus pecados sejam tão vivos como escarlate… A Festa da Misericórdia brotou das Minhas entranhas. Desejo que seja solenemente celebrada no primeiro Domingo depois da Páscoa.” (Diário, nº 699).

Não basta contemplar as feridas do amor. Precisamos de nos adentrar nelas, como Jesus disse, oito dias depois, a Tomé: “Põe aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no Meu lado.” Jesus quer de nós aquela proximidade física que todo o amor exige – pois Jesus continua a ter um Corpo. O Papa Francisco não se cansa de nos repetir que é preciso tocar as feridas do irmão, servir Jesus no pobre, no doente, no que vive em nossa casa e no que está longe.

É esta proximidade, esta presença de corpo e de espírito, que celebramos em todos os sacramentos da Igreja. Por isso, sofremos hoje com a distância física, real, da Eucaristia, Coração aberto e trespassado de Jesus, que não podemos contemplar, tocar, comer. Quantos cristãos, para visitar “Jesus Escondido” (como dizia S. Francisco Marto) têm hoje de ajoelhar diante da porta trancada da sua igreja paroquial – porque são muitas, as igrejas que trancaram as suas portas, apesar do conselho expressos dos nossos bispos para que ficassem abertas!

“Tomé, um dos Doze, não estava com eles quando veio Jesus.” Que desapontamento! Incrédulo – como o podemos censurar? -, desejou ardentemente uma aparição privada do Ressuscitado, mas teve de esperar pelo Domingo seguinte e pela reunião da comunidade. Palavra tão importante! Foi Jesus, não nós, que desde o início marcou o Domingo com o sinal da sua Presença sacramental na comunidade corporalmente reunida.

A nossa oração familiar, privada, ou online, é muito agradável ao Senhor; mas só no Domingo vivido em comunidade O podemos ver, tocar, receber no seu Corpo Ressuscitado, e nenhum de nós tem poder para alterar esta realidade. Aguardamos em jubilosa expetativa o dia em que de novo celebraremos juntos a Eucaristia, para afirmarmos como os discípulos: “Vimos o Senhor!” Por ora, consolam-nos as palavras de Jesus a Tomé: “Felizes os que acreditam sem terem visto.” E as de Pedro: “Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, acreditais n’Ele.”

Entretanto, vamos construindo comunidade, aprendendo, finalmente – foi preciso uma pandemia – que o individualismo é uma ilusão, pois ninguém se salva sozinho. Chegaremos, algum dia, ao modelo dos primeiros cristãos? Tenhamos fé, esta fé que, nesta Páscoa, é provada pelo fogo por ser “muito mais valiosa que o ouro perecível.”

“Muitos outros milagres fez Jesus, que não estão escritos neste livro.” Pois não. Estes outros milagres são os que acontecem na minha casa e na tua, cada vez que nos abrimos à Sua misericórdia. É a nós que cabe, hoje, viver e completar “este livro”… Aleluia!

One Comment

  1. Hoje é o Domingo da Misericórdia, e só agora descobri a importância deste dia e o seu significado. Será uma boa oportunidade para eu ler mais e aprender sobre este dia. Como são belas as surpresas do Senhor. Um bom domingo a todos…

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