Em Caná da Galileia...


Domingo da Santíssima Trindade, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

COMO SOIS GRANDE EM TODA A TERRA!

O tempo pascal trouxe-nos aqui num crescente de cinquenta dias. A cada passagem dos Atos e do Evangelho de João, adentrámo-nos no mistério da Santíssima Trindade, revelado na vida dos primeiros cristãos e nas palavras de Jesus na sua despedida. É hora de rejubilar. O nosso Deus é Uno e Trino, porque é Amor!

Jesus tem a boca cheia do nome do Pai e do Espírito. Parece não conseguir falar de outra coisa, como o apaixonado que a cada duas palavras menciona o nome da amada. É uma relação de amor tão intensa – a relação original de amor, afinal – que nos transcende por completo. Nunca a entenderemos o suficiente, mesmo por toda a eternidade.

Já no Antigo Testamento havia indícios de que o Deus Uno de Israel não se comportava simplesmente como uma única pessoa. Alguns dos seus atributos eram tão profundos, que surgiam como que personificados. A Sabedoria de Deus é particularmente reveladora do mistério da Trindade: “Desde a eternidade fui formada, desde o princípio, antes das origens da terra”, diz, nesta passagem dos Provérbios. Devagarinho, o Senhor vai levantando a ponta do véu que cobre a sua intimidade divina, permitindo que rejubilemos com a visão que nos oferece. “Quando Ele consolidava os céus, eu estava presente; quando traçava sobre o abismo a linha do horizonte (…) eu estava a seu lado como arquiteto, cheia de júbilo…” A tradição patrística, a partir de S. Justino, vê nesta afirmação a revelação de Jesus, Sabedoria e Verbo de Deus, por quem “tudo foi criado” (Jo 1, 3). É revelador como João, o discípulo que partilhava os segredos mais íntimos de Jesus, nos transmite o mistério da sua divindade com palavras semelhantes às da Sabedoria…

Mas são as palavras finais da Sabedoria, nesta passagem, que nos introduzem no mistério da Encarnação: “Deleitava-me sobre a face da terra e as minhas delícias eram estar com os filhos dos homens.” Talvez não meditemos o suficiente na alegria jubilosa de Jesus ao fazer-Se homem. Jesus não nasceu “apenas” para sofrer por nós, mas também para Se deliciar com a nossa companhia e com toda a Criação. O Filho de Deus fez-Se homem e saboreou cada minuto da sua passagem pela Terra, cada pedaço de peixe assado, cada figo maduro nas figueiras plantadas nas vinhas, cada copo de água fresca à beira de um qualquer poço, cada passeio de barco pelo mar, ou a pé pelo meio das espigas douradas… “Ovelhas e bois, todos os rebanhos, e até os animais selvagens, as aves do céu e os peixes do mar, tudo”, como canta o salmo, foi motivo de júbilo para o Filho, e fonte de sabedoria, nas múltiplas histórias que nos contou. Mas acima de tudo, Jesus saboreou o amor puro de seus pais, a amizade imperfeita dos seus amigos, a companhia dos pobres e excluídos, dos doentes e das crianças. “As minhas delícias eram estar com os filhos dos homens”…

O Pai enviou o Filho ao mundo, o Filho enviou – e continua a enviar – o Espírito. “Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena”, assegura-nos Jesus. Imagino os pobres Apóstolos, de olhos abertos de espanto, procurando memorizar todas as palavras do Mestre. E imagino o sorriso de Jesus, descansando-os: o Espírito completará o ensinamento, não há razão para se preocuparem! E assim foi, como nos mostram os Atos. O mesmo Pedro que, nos Evangelhos, pouco consegue entender, nos Atos faz discursos fervorosos, capazes de converter cinco mil pessoas de uma vez.

“Que é o homem para que Vos lembreis dele? Fizestes dele quase um ser divino”, canta o salmista. S. Paulo é da mesma opinião. Lembra ele aos romanos que, pela fé, “temos acesso a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos”, a graça de experimentarmos a paz de Deus. Paz, no pensamento hebraico, engloba todos os sentimentos positivos, benignos, felizes que o ser humano pode experimentar. Assim, que é a paz senão o dom divino que nos torna, também a nós, quase divinos?

Não significa isto que não tenhamos tribulações. Antes pelo contrário! Mas as próprias tribulações são motivo de alegria para nós, como o foram para Jesus. Pois Jesus continuou a deleitar-Se na companhia dos filhos dos homens, mesmo na Cruz. Numa das belíssimas revelações de Jesus a Juliana de Norwich, lemos: “Eis como, antes de morrer por ti, te amei de tal modo que queria morrer por ti. E agora, todos os meus amargos sofrimentos e todo o meu duro tormento se transformaram em alegria e felicidade eternas, para mim e para ti.” (p.57, Juliana de Norwich, edições Paulinas)

Hora da missa. Já nos demos conta? O Deus Uno e Trino está sobre o altar, onde o Filho Se entrega ao Pai por ação do Espírito Santo; na Palavra, onde o Verbo Se nos entrega a todos como Sabedoria do Pai, e o Espírito nos sussurra ao coração, para que possamos entender; no estranho ao nosso lado, fazendo dele um irmão, “porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” desde o instante do nosso batismo. Que mistério! “Como sois grande em toda a Terra, Senhor, nosso Deus”…

One Comment

  1. Catarina Silva

    Tão lindo! 🙂

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