Em Caná da Galileia...


Domingo de Pentecostes

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

À ESPERA DO FOGO

Pentecostes. Estamos há cinquenta dias à espera deste Fogo, que desce sobre nós como desceu sobre os Apóstolos e Maria reunidos. Sem Ele, não há Igreja, não há santidade, não há Vida. E porque Maria é a imagem mais perfeita da Igreja que acolhe o Espírito e se deixa encher de graça, amanhã invocá-la-emos como Mãe da Igreja.

“Na tarde daquele dia, o primeiro…” O Evangelho de João transporta-nos, como o Génesis, para o início. Na verdade, os judeus contavam os dias, não da manhã para a tarde, mas da tarde para a manhã, de pôr-do-sol a pôr-do-sol, como nos mostram os primeiros versículos da Bíblia: “Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.” (Gn 1, 5) Agora, na Nova Criação que a Páscoa inaugura, o Espírito de Jesus Ressuscitado vai pairar em forma de fogo, não já sobre as águas (cf Gn 1, 2), mas sobre a Igreja.

João diz-nos que Jesus Se apresentou no meio dos discípulos “estando fechadas as portas da casa” onde eles se encontravam. Costumamos imaginar Jesus, nesta cena, como um espírito que, pela sua imaterialidade, consegue atravessar objetos. Mas não será antes o contrário? E se Jesus atravessar paredes porque a matéria é uma ilusão, e o espírito, esse sim, a realidade? E se as coisas deste mundo forem meras sombras, sem consistência para impedir a passagem dos seres realmente viventes, os ressuscitados?

Jesus está vivo, e o seu Corpo glorioso conserva as cicatrizes das feridas que o amor causou. Jesus está vivo, bem mais vivo do que qualquer um de nós. Para também nós vivermos, já aqui na Terra, mas sobretudo na Eternidade, é preciso que Ele sopre sobre nós como soprou sobre os Apóstolos, renovando o gesto criador dos inícios: “Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo.” (Gn 2, 7) Porque a vida a sério só chega pelo Espírito, e sem o Espírito, não passamos de pó, de sombra, de nada: “Se lhes tirais o alento, morrem e voltam ao pó donde vieram. Se mandais o vosso Espírito, retomam a vida e renovais a face da terra”, canta o salmista. E S. Paulo afirma: “Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» a não ser pela ação do Espírito Santo.”

“Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós”, diz Jesus aos Apóstolos, depois de os saudar. Nos Atos, Lucas refere que, mal receberam o Espírito, os Apóstolos abriram as portas da casa onde estavam e “começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem”, para que todos os que estavam em Jerusalém por esses dias pudessem escutar e acolher a Boa Nova. E a Palavra chegou a “partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia”. A Palavra chegou a mim e a ti, e “cada um de nós os ouve falar na sua própria língua”.

Certamente o milagre aconteceu assim naquele momento – milagres semelhantes aconteceram na vida de santos, capazes de falar línguas estrangeiras de um momento para o outro, ou de escrever grandes cartas sendo analfabetos – para que compreendêssemos a verdadeira maravilha que o Espírito opera: a união de corações para lá das barreiras ilusórias da língua, da nacionalidade, da cultura, da cor. “Na verdade, todos nós, judeus e gregos, escravos e homens livres, fomos batizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo”, diz S. Paulo: a Igreja. E este Corpo, de que Cristo Ressuscitado é a Cabeça, é infinitamente mais real que qualquer “parede” que possamos construir.

“Àqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”. São estas as palavras seguintes do Ressuscitado. E delas nasceu o sacramento da Confissão. Como é belo, este sacramento! A Confissão permite-nos recuperar o fôlego, respirar de novo, atear as brasas que as cinzas do pecado procuram sufocar, para que não permaneçamos na morte, para que retomemos a vida, como canta o salmo, e se renove a face da Terra – e da nossa alma. Sejamos assíduos a este sacramento!

Hora da missa. É aqui que, no primeiro dia de cada semana, se abrem os nossos sepulcros para que vivamos. É aqui que Ele Se coloca, no meio de nós, atravessando sem esforço as ilusões a que tantas vezes nos agarramos, o pecado e a mesquinhez que se amontoam como muralhas à nossa volta. Sabemos que todos os domingos, Ele sopra sobre nós, como sopra sobre o Pão e o Vinho. E o Fogo do seu amor cura as nossas feridas, perdoa os nossos pecados, transforma a nossa oferta no seu Corpo e no seu Sangue. O tempo pascal durou cinquenta dias, mas o dia de Pentecostes é breve: amanhã já é Tempo Comum. Não nos é permitido ficar aqui a aquecer-nos… É urgente partir, enviados a todos os homens de todas as línguas. Maria, a Mãe, parte connosco. E é na rotina dos nossos dias comuns que o Fogo irá, pouco a pouco, queimando todas as ilusões, para que possamos, por fim, ressurgir das cinzas e Viver. Vem, Espírito Santo!

One Comment

  1. “Mas não será antes o contrário? E se Jesus atravessar paredes porque a matéria é uma ilusão, e o espírito, esse sim, a realidade? E se as coisas deste mundo forem meras sombras, sem consistência para impedir a passagem dos seres realmente viventes, os ressuscitados?” – Uau!… Esta mudança de perspectiva dá matéria para refletir durante muito tempo. Mas assim no imediato atrever-me-ia a dizer que, de facto, o Amor uns pelos outros, mesmo por aqueles que já partiram, não pode ser travado por nada material deste mundo…

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