Em Caná da Galileia...


Domingo de Pentecostes 2020

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

TEMPO DE SAIR AO ENCONTRO

Domingo de Pentecostes. Completa-se agora a promessa pascal: Jesus morreu, ressuscitou, subiu ao Céu e, da Casa do Pai, enviou o Seu Espírito, para que, onde Ele está, nós estejamos também.

“Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar.” A morte de Jesus dispersara os discípulos, mas a sua ressurreição congregara-os novamente. A Igreja, relembra o Papa Francisco, reúne-se num mesmo lugar. Na homilia de 19 de abril, o Papa disse aos poucos que se reuniam com ele na capela, falando das restrições do confinamento por causa da pandemia: “uma familiaridade com o Senhor sem comunidade, sem pão, sem a Igreja, sem o povo, sem os sacramentos, é perigosa.”

Por isso, também nós hoje rejubilamos. Temos finalmente autorização para nos reunirmos no mesmo lugar e celebrarmos o aniversário da Santa Igreja, a grande solenidade do Pentecostes. Que alegria!

Estaremos, contudo, congregados na unidade? Abriram-se tantas feridas, fecharam-se tantas portas, que talvez leve ainda tempo para nos reunirmos, de facto, num mesmo lugar…

Terá este tempo pascal diferente congregado na unidade ao menos os que vivem na mesma casa, abrindo pequenas Igrejas Domésticas aqui e ali? Certamente que sim, “dois ou três” de cada vez, em nome de Jesus. Mas também as famílias regressam feridas ao convívio na sociedade, depois de muitos idosos terem ficado isolados, longe dos filhos e dos netos, nas suas casas ou em lares intransponíveis como muralhas, e muitos adolescentes ficarem sozinhos em casa o dia inteiro, confiados à telescola enquanto os pais saem para trabalhar. Ao contrário do que se foi dizendo, o confinamento nem sempre significa mais tempo para o encontro familiar…

A boa notícia é que, em casa ou na igreja, Ele virá, também para nós, ainda que estejamos “com medo”, como os Onze, e atravessará as portas que Lhe fechámos, como atravessou as da casa dos discípulos. E se hesitávamos em Lhe mostrar as nossas feridas, não hesitemos mais: Ele próprio nos mostrará, gloriosas, as feridas que Lhe causámos com a nossa falta de fé na Eucaristia, a nossa falta de amor fraterno, o nosso medo: “Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.” Do Corpo ferido de Jesus jorram agora torrentes de graça sobre nós.

É sobre este mesmo Corpo que S. Paulo escreve aos Coríntios: “Na verdade, todos nós – judeus, gregos, escravos e homens livres – fomos batizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.” Trabalhemos pela unidade! Não permitamos que o Corpo místico de Jesus, ferido, mutilado, verdadeiramente estilhaçado em milhões de fragmentos, se divida ainda mais, como parecem querer as contínuas ameaças de cismas dentro da própria Igreja Católica e os insultos constantes entre cristãos com ideias diferentes! Nem permitamos que as nossas pequeninas Igrejas Domésticas, também elas Corpo místico de Jesus, se percam na confusão doutrinal e pastoral em que muitas foram apanhadas, como num furacão.

O Evangelho fala-nos do vento, e os Atos, do fogo. O Espírito não vem de mansinho, antes Se apodera com ímpeto daqueles que se dispõem a acolher o Seu dom. Será que já nos abrimos de verdade ao Espírito que recebemos em semente no Batismo, plenamente no Crisma, e de cada vez que nos confessamos ou comungamos? Talvez precisemos de soprar sobre as brasas da nossa pobre fogueira. Porque quem está cheio do Espírito não se deixa dominar, nem aprisionar, antes sai a “proclamar as maravilhas de Deus” em todas as línguas que o mundo fala, da arte à ciência, da literatura à medicina, do voluntariado ao desporto, e tantas outras.

Este esforço para falar todas as línguas tornou-se particularmente forte nestes tempos de pandemia, em que os meios de comunicação social transbordaram de criatividade, traduzindo a Doutrina em vídeos, podcasts, vídeo conferências e páginas de Facebook. Mas mais importante ainda, e porventura mais comovedor, foi a atenção que o Santo Padre dedicou aos povos esquecidos, sofridos, da Amazónia. Nem o mais insignificante índio deve ficar privado da Palavra de Deus! Todos a merecem ouvir “na sua própria língua”. Todos merecem uma Exortação Apostólica inteira a eles dedicada. A pandemia relegou para segundo plano este belíssimo gesto do Papa, mas também isto é ser Igreja de Pentecostes.

pequenos índios… na nossa aldeia 🙂

Hora da missa. Que alegria, poder dizê-lo de novo! “Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra!” Sim, Senhor, a Terra está a precisar de uma renovação urgente. A apostasia cobre já porções consideráveis da Tua Igreja, e vivemos num verdadeiro estado de calamidade, não tanto sanitário, mas espiritual. Temos fome e temos sede, estamos cansados e, sobretudo, estamos confusos. Sacia-nos! Sopra sobre nós! Vem, e causa verdadeiras correntes de ar nas casas onde nos fechámos! Que o Teu fogo se propague como um vírus, alastrando por toda a Terra, família a família, paróquia a paróquia, até causar um incêndio incontrolável! Vem, Espírito Santo!

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