Em Caná da Galileia...


Domingo de Ramos, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

A TRAIÇÃO VEM DE DENTRO

Domingo de Ramos. Estaríamos agora a preparar-nos para a aclamação triunfante de Jesus em Jerusalém, ramos no ar, gritos de Hossanas, uma procissão de entrada solene nas nossas igrejas. “Bendito o que vem em nome do Senhor!”

Ou talvez não… Talvez não fôssemos hoje à missa porque quando já não há catequese, não vamos; porque iria haver treino de basquetebol ou ensaio de ballet; porque o sol brilha e a praia chama. Porque…

Domingo de Ramos, e hoje não podemos ir à missa. Um vírus microscópico trouxe-nos o que a nossa letargia e a nossa apostasia há muito mereciam. Estejamos atentos aos sinais dos tempos!

Domingo de Ramos. “Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos”. Escuto estas Palavras com a novidade que contêm. É em minha casa que Jesus quer celebrar a Páscoa! Cumpriram-se hoje as Escrituras. Chegou o tempo favorável das Igrejas Domésticas, reunidas uma em cada casa, mesa posta, velas acesas.

Via Sacra em Igreja Doméstica…

À mesa com os Doze, Jesus entristece-Se profundamente. Não porque o mundo O rejeita, mas porque a traição vem de dentro. “Um de vós irá entregar-Me”, diz. “Serei eu, mestre?” Perguntam todos e pergunta Judas. Perguntemos nós também, coração sobre o Coração, em oração humilde: “Serei eu, mestre?”

A Igreja, através dos seus membros, tem traído Jesus em todas as Eras. No pontificado dos papas Bento XVI e Francisco, a luz de Deus pôs a descoberto crimes gravíssimos contra a inocência dos pequeninos, que abriram feridas mortais nos fiéis. Mas há um outro pecado que, muitíssimo mais frequente, parece já não nos incomodar: a apostasia.  Trata-se de renegar a fé todos os dias, desafiando os mandamentos, desleixando os sacramentos, comungando em estado de pecado grave. Não foi o coronavírus que esvaziou as igrejas, porque há muito que elas se tinham esvaziado. E é preciso que a fome da Eucaristia nos relembre a quantidade de vezes em que dela abusámos. Não nos iludamos! Vem sempre de dentro, a traição. As Escrituras cumprem-se aqui e agora. “Serei eu, mestre?”

“A minha alma está numa tristeza de morte”, diz Jesus a Pedro, Tiago e João, a cada um de nós. Rezando pela noite dentro, de rosto por terra, Jesus pronunciava as palavras que dão sentido a tudo, às nossas dúvidas e à nossa fé: “Não se faça como Eu quero, mas como Tu queres.” Porque a nossa vida ganha sentido quando queremos o que Deus quer. E o que Deus quer está escondido naquilo que Ele permite. Até Satanás é um instrumento nas Suas mãos, como o prova a morte do Crucificado.

“Ficai aqui e vigiai comigo”, pede aos seus amigos. Mas eles não conseguem vigiar nem uma hora… Por fim, “todos os discípulos O abandonaram e fugiram.” Jesus fica só e é preso. Penso em Alexandrina de Balasar, chamada a fazer companhia ao “Divino Prisioneiro do Sacrário”, que lhe dizia: “Anda, Minha filha, entristecer-te Comigo, participar da Minha Prisão de Amor e reparar tanto abandono e esquecimento!” (27-9-34) E penso no sono letárgico em que temos vindo a cair, deixando o Senhor só, nas igrejas que fomos esvaziando… Unamo-nos interiormente a todos os sacrários do mundo e vigiemos, para não cairmos em tentação.

A noite vai adiantada. Quando cantará o galo, para nos abrir os olhos e nos fazer examinar a nossa consciência? Choremos, como Pedro, o nosso grave pecado, e confiemos na misericórdia d’Aquele que já sabia de tudo, porque é preciso que se cumpram as Escrituras em cada geração!

Por uma vez, estão todos do mesmo lado – chefes religiosos, chefes civis e povo. “Quem quereis que vos solte?” É preciso acabar com Jesus, custe o que custar! S. Mateus conduz-nos pela Paixão de Cristo numa vertigem crescente de solidão e abandono. “Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?” É a hora das Trevas: “Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra”. Mas misteriosamente, nessa mesma hora, acontecia a nossa redenção. Porque a hora das Trevas é sempre também a hora favorável à conversão, ontem como hoje. Ajoelhemo-nos. Peçamos perdão. Não desviemos o olhar. Ele foi crucificado por nós.

“E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.” O grito de Jesus ecoa através da História, rasgando em cada Era o véu do Templo, para que nada nos possa mais separar do amor de Deus, e abrindo os nossos túmulos, para que nos comportemos como discípulos do Ressuscitado.

“Este era verdadeiramente Filho de Deus”, conclui o centurião, que não era judeu nem conhecia as Escrituras. A ele, bastou-lhe contemplar o Amor Crucificado para se converter. E a nós? Que mais precisa o Senhor fazer?

A Semana Maior está aqui. O véu do templo vai rasgar-se, a terra vai tremer, as rochas vão fender. Como as mulheres, “que tinham seguido Jesus desde a Galileia”, também nós iremos observar de longe. Sentar-nos-emos em frente do sepulcro, onde uma grande pedra nos ocultará o Salvador. E pressentiremos, no silêncio da noite, os primeiros movimentos do Ressuscitado.

 

 

 

One Comment

  1. Rogério Tavares Ribeiro

    《Ficai aqui e vigiai comigo》[…] Depois foi ter com os discípulos e encontrou-os a dormir. […] Voltou e encontrou-os novamente a dormir, pois tinham os olhos pesados com sono.
    Nós somos assim sempre despertos para as coisas do mundo, mas sempre a bocejar quando se trata de rezar!
    E assim vamos deixando Jesus só na sua agonia no getsemani!

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