Em Caná da Galileia...


Domingo I da Quaresma, ano B

Reflexão semanal sobre as leituras do próximo domingo, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

FOMOS SALVOS PELAS ÁGUAS!

A imundície desta Terra não se lava com uma simples passagem de um pano húmido; precisa de um autêntico dilúvio! Quem assistiu, pela televisão, aos dois terríveis tsunamis que marcaram o início deste milénio, não duvida do poder que as torrentes de água viva têm para derrubar mesmo os mais altos arranha-céus construídos pelos homens. À passagem das águas, tudo tomba como um baralho de cartas. Se não víssemos as imagens e os vídeos amadores partilhados na altura, não acreditaríamos.

Deus serve-se destas imagens poderosas para nos comunicar o poder infinitamente superior da sua graça. Já lá longe, nos inícios da Bíblia e da humanidade, este poder da graça vinha prefigurado em mitos e lendas, palavras de que o Espírito se apropriou para nos ensinar. O poder das águas! O poder imensurável do Batismo, que destrói em nós as mais altas construções do pecado e nos restitui à vida!

Neste início de quaresma, a Palavra de Deus coloca diante de nós o dom do Batismo para que sejamos gratos. Fomos salvos pelas águas! S. Pedro, na sua carta, relembra-nos como foi que Deus operou este tsunami de graça: “Cristo morreu uma só vez pelos pecados – o Justo pelos injustos – para vos conduzir a Deus.” O dilúvio que nos salvou e em que fomos batizados foi um dilúvio de Sangue. Nunca nos esqueçamos! A água que se derrama pela cabeça de um bebé, no dia mais belo da sua vida (assim descreveu S. João Paulo II o dia do seu Batismo) é nem mais nem menos que o Sangue de Cristo. E porque a quaresma nos prepara para a contemplação agradecida deste Sangue, no tríduo pascal, somos desde já convidados a meditar no dom que Deus nos fez.

O Batismo. Estamos conscientes do que significa? Para cada vez mais católicos, o Batismo tornou-se simbólico. Assim, pode ser adiado para quando houver dinheiro para a festa. Mas simbólicas foram as águas do dilúvio! Quando Jesus chegou, o símbolo deu lugar à realidade. Diz S. Pedro: “A água do dilúvio é figura do Batismo que agora nos salva.” Os sacramentos operam em nós a salvação que Cristo já nos ofereceu na Cruz, pelo seu Sangue derramado até ao fim, num tsunami de graça sobre graça. Podemos dispensar os símbolos, não a realidade; podemos adiar os símbolos, mas precisamos de ter pressa, muita pressa para que nós e os nossos filhos nos abeiremos desta torrente de vida. Diz o Catecismo da Igreja Católica: “A Igreja e os pais privariam a criança da graça inestimável de se tornar filho de Deus, se não lhe conferissem o Batismo pouco depois do seu nascimento.” (Nº 1250)

O Batismo, contudo, não é o fim da caminhada, mas o seu início; não nos lança no Céu, mas na Terra. Assim aconteceu com Jesus: logo que foi batizado por João – um Batismo ainda simbólico – foi impelido pelo Espírito para o deserto e por lá habitou com os animais selvagens. Recordamo-nos imediatamente da família de Noé, acabada de sair da Arca, partilhando a vida com todos os animais salvos das águas como eles… O Batismo e o dilúvio, a realidade e a sua sombra, a dizer-nos que, salvos pela água, somos chamados a repovoar a Terra de bondade.

Jesus permaneceu no deserto quarenta dias. No tempo de Jesus, quarenta anos era uma geração… Quantos dias permanecemos nós no deserto? Aqui, no deserto da vida, somos tentados por Satanás e somos servidos pelos Anjos. Quem nunca experimentou uma coisa ou outra? É preciso pedir, suplicar ao Senhor, como o salmista: “Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, ensinai-me as vossas veredas. Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me!” A Páscoa e a eternidade brilham ao longe, e só o Senhor nos pode conduzir, por entre tentações e bênçãos, em segurança até elas.

“Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”, diz-nos Jesus. Esta é, para nós neste domingo, Palavra da salvação. É preciso continuamente regressar à pureza das águas do Batismo, numa atitude de conversão constante, e acreditar na bondade de Deus, que nos quer salvar, que nos quer lavar no seu Sangue derramado, que nos quer perdoar e oferecer a vida em abundância, como à saída da Arca de Noé.

Ainda hesitamos perante este louco amor? Contemplemos o céu num dia de nuvens, onde o sol e a chuva se digladiam (como no “deserto”, Satanás e os Anjos…). Que vemos? Luminoso, belo, misterioso, o “arco do Senhor” brilha sobre nós. Deus depôs o seu arco, pendurando-o na parede do horizonte, e encheu-o de cor: o “arco-de-guerra” tornou-se “arco-íris”. Deus não vem para nos destruir, mas para nos perdoar, as suas águas não trazem a morte, mas a vida, e a vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Vamos! Lancemo-nos, com pressa, neste tsunami de amor sempre pronto a inundar a nossa vida…

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