Em Caná da Galileia...


Domingo II da Quaresma, ano B

Reflexão semanal sobre as leituras do próximo domingo, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

O NOSSO DEUS GOSTA DE MONTANHAS (e eu também, mas isto já não vem no título do artigo no Correio do Vouga…)

Não há dúvidas de que o nosso Deus gosta de montanhas. A Bíblia está recheada de aventuras divinas em montes e outeiros. Quantos segredos elas encerram!

Nos primórdios da História, um homem parte a caminho da montanha. Não vai só: a seu lado, o filho único carrega às costas a lenha para o sacrifício. Mas o seu coração está numa solidão tremenda. A voz em que sempre confiara, que o conduzira até Canaã, que lhe prometera um filho e cumprira, essa mesma voz pede-lhe agora o seu sacrifício. Poderá Deus contradizer-Se? Abraão está confuso. O Deus em quem pusera a sua confiança era um Deus de amor, nunca lhe faria mal. Abraão sofre, mas continua a caminhar. E sobe a montanha como tantos de nós a subimos: chorando por dentro. Algum dia na vida, todos acabamos por subir a montanha da dor, que se ergue diante de nós sem túneis para passar por baixo, nem desvios para passar ao lado. Algum dia na vida, o caminho é mesmo a subir, íngreme e árido.

A nossa sensibilidade moderna acha insuportável a leitura deste texto. Alguns cristãos são até tentados a rasgar esta página da sua Bíblia. A verdade é que os sacrifícios humanos são parte natural das religiões pagãs, onde os filhos primogénitos são oferecidos aos deuses para apaziguar as suas birras. E a verdade – para todos os que se escandalizam com esta leitura – é que hoje, como então, milhões e milhões de filhos são diariamente sacrificados no crime hediondo do aborto, da eutanásia, da guerra e de toda a violência. De vez em quando, precisamos de olhar de frente para estes pecados “que bradam aos céus”.

Como bradou o pecado que Abraão estava prestes a cometer. “Não levantes a mão contra o menino”, diz o Senhor, no exato momento em que Abraão se prepara para degolar o filho. Com aquela ordem gritada, que segura o cutelo em movimento no ar, o Senhor recusa e denuncia, então como hoje, todo e qualquer sacrifício humano. O grito de Deus, ecoando desde as primeiras páginas da Bíblia até aos nossos dias, não podia ser mais eloquente. “Não matarás!” Gritará séculos mais tarde, com Moisés. A violência da cena de Abraão e Isaac sobre a montanha ainda não penetrou suficientemente os nossos corações de pedra. Quantos milénios mais serão precisos?

Preso num silvado, está um carneiro. Abraão sacrifica-o ao Senhor em vez do filho. Dois mil anos mais tarde, no Evangelho, Jesus dirá misteriosamente: “Abraão viu o meu dia e exultou.” (Jo 8, 56) Terá Deus permitido a Abraão, naquele silvado, ver não apenas um carneiro, mas o Cordeiro Imolado? Pois o sacrifício que Deus poupou a Abraão, fê-lo Ele mesmo por nós: como Isaac, também Jesus subirá uma montanha, a do Calvário, levando às costas a lenha do sacrifício… Em Jesus, já não são os homens que apaziguam os deuses com sacrifícios humanos, mas é Deus que apazigua os homens com o Sacrifício divino.

Diante de tamanho dom de amor, S. Paulo exclama eufórico: “Se Deus está por nós, quem estará contra nós? Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas O entregou à morte por todos nós, como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas?” Somos verdadeiramente felizes, nós que conhecemos o amor! Que mistério insondável!

Antes do monte Calvário, Jesus subiu outro monte. Jesus gostava de rezar no cimo dos montes. Desta vez, porém, Pedro, Tiago e João, seus amigos mais próximos, subiram com Ele. E foi então que, por instantes, Jesus levantou a ponta do véu que cobria a sua intimidade com Deus. Marcos diz-nos que “as suas vestes se tornaram resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear.” Olhando para os cumes nevados das nossas montanhas, quando resplandecem à luz do entardecer, somos levados a suspeitar que Jesus também caminha por ali…

“Como é bom estarmos aqui!” Disseram os discípulos. Que bom, quando também nós subimos ao monte com Jesus, num tempo de oração, ou até – por que não? – numa tarde de encontro de amigos, de pais com seus filhos, de família alargada, de paróquia, um pouco ao jeito de Jesus com Pedro, Tiago e João! Porque quando a vida de oração se prolonga em vida de fraternidade, a montanha cobre-se de luz.

“Toma o teu filho, o teu único filho, a quem tanto amas”, disse Deus outrora a este gigante de fé, o pai Abraão. Este carinho de pai para filho, e para único filho, atravessa a Bíblia como uma seta, até repousar em Jesus. Pois o maior título de glória de Jesus, que evocamos cada vez que fazemos o sinal da cruz, não é o de Rei ou Senhor, mas o de Filho.

A missa é o monte que, a cada domingo, o Senhor nos pede para subir. Subimos, levando às costas a lenha, ora da nossa dor, ora da nossa alegria. Sabemos que, lá no cimo, Ele entregará o Cordeiro na nossa vez. E se mantivermos abertos os olhos da fé, veremos a sua glória, resplandecente, na Hóstia Branca, de uma alvura que não é desta terra… “Este é o meu Filho muito amado: escutai-O”. Assim seja!

2 Comments

  1. Ana Timóteo Ramos

    Muito obrigada Teresa. Por tudo.
    Bem haja.

  2. Catarina Silva

    Que bonito Teresa,
    Quanta sabedoria nestas palavras…
    Agradeço-lhe o tempo e a energia que despendeu para o escrever!

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