Em Caná da Galileia...


Domingo II do Advento, ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

CONSOLEMOS E DEIXEMO-NOS CONSOLAR!

“Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém!” Consolemos e deixemo-nos consolar! Falemos ao Coração de Deus e deixemos que Deus nos fale ao coração.

Isaías e João Batista são profetas do Advento. Vieram para preparar a Presença na ausência, o caminho através do deserto, o dia durante a noite. “Preparai!” É o trabalho silencioso da gravidez que avança, o bebé que cresce, escondido, preparando-se para o Natal. Parece que a hora tarda, que nos enganámos nas contas; e de repente, eis que tudo acontece! É o trabalho da mãe que educa o filho na monotonia e solidão dos dias longos, com aquele misto tão típico de alegria e cansaço; e de repente, descobre que a criança cresceu, há mais um adulto em casa. É a paciência dos esposos que ultrapassam juntos o impossível, um dia de cada vez; e de repente, dão-se conta de que “terminaram os seus trabalhos e está perdoada a sua culpa”. Como foi que o milagre aconteceu? “Um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia.” Como Isaías ou João Batista, vivemos na promessa de que a semente germinará, que vale a pena revolver a terra e que é no inverno que se prepara a primavera: “O Senhor não tardará em cumprir a Sua promessa.” Também a Igreja germina, sob a areia do deserto em que este mundo se transformou. “Enquanto esperais tudo isto, empenhai-vos!”

“Preparai no deserto o caminho do Senhor!” O Advento é tempo de renúncia e austeridade. “João vestia-se de pelos de camelo, com um cinto de cabedal em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.” Graças à pandemia, este pode vir a ser o primeiro Advento em que não andamos todos a correr, literalmente como baratas tontas, de loja em loja e de festa em festa.

“Abri na estepe uma estrada para o nosso Deus.” Há tantas estradas para abrir! A mais longa, dizia Thomas Merton, é a que vai da cabeça ao coração. Por isso Isaías nos diz: “Falai ao coração de Jerusalém!” Ponhamos o coração à escuta, cada vez que tomarmos as Escrituras entre as mãos, ou as ouvirmos proclamadas na missa. O Senhor tem uma Palavra para nós hoje, e ela abre estradas. Que estrada vamos abrir este Advento na família, na paróquia, no mundo?

Preparando…

“Sobe ao alto dum monte, arauto de Sião! Grita com voz forte, arauto de Jerusalém!” S. Marcos diz-nos que João Batista foi esta voz a clamar no deserto, anunciando a proximidade de Jesus: “Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu”, repetia. É a missão de todo o evangelizador: conduzir o irmão a Jesus, o único Salvador. É preciso coragem para subir ao alto dum monte e gritar com voz forte, pois o mundo irá apontar-nos o dedo e, mesmo entre os crentes, suscitaremos inveja e murmuração. É muito mais fácil ficar aninhado no nosso canto, cumprindo as nossas obrigações sem “dar nas vistas”. Repete-se por aí que é preciso que as famílias evangelizem as famílias, os leigos evangelizem os leigos – mas ai de quem se atrever a fazê-lo! Advento é tempo de dar a cara e a voz, sem medo, como João, mesmo correndo o risco da excentricidade e da vulnerabilidade. Porque é urgente preparar o caminho do Senhor.

“Acorria a ele toda a gente da região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.” Ainda sabemos o que é pecado e o que não é? Chamar as coisas pelos seus nomes abre o caminho da conversão. Há pouco tempo, um casal de namorados que vivia maritalmente há largos anos fez a sua preparação para o matrimónio. E foi numa das sessões que se deu conta da verdade da sua situação. Surpreendidos, perguntavam: “Como foi possível deixarem-nos viver e comungar em pecado todos estes anos? Porque é que nunca nos disseram nada?”

Mas não basta confessar os pecados. É preciso “altear os vales e abater as colinas”, trabalhando o caráter, praticando as virtudes e combatendo os vícios. A este casal, foi proposta a renúncia à contraceção e um tempo de abstinência sexual antes do matrimónio, para que a virtude da castidade pudesse crescer. Então sim, estariam prontos a acolher Jesus no sacramento.

Que pecados temos nós a confessar, que montes a abater, que vales a preencher? Há quanto tempo não fazemos um exame de consciência esclarecido, a partir da Escritura e da doutrina? “Como deve santa a vossa vida e grande a vossa piedade, esperando e apressando a vinda do dia de Deus!”

“Como um pastor, tomará os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso”. De nada valerão os nossos esforços se, por fim, não nos lançarmos amorosamente nos braços do Pastor. Diz-nos o Bebé do Presépio que não é pelo nosso próprio pé, mas ao colo de Deus, que se entra na Vida.

Hora da missa. A salvação está perto… Sobre este altar, “encontraram-se a misericórdia e a fidelidade, abraçaram-se a paz e a justiça.” Tenho pressa em abrir um caminho para Ti, em cada recanto do meu mundo e do meu coração, pois sei que, dentro de minutos, manifestarás a Tua glória e serei inundado da Tua consolação… Maranatha!

4 Comments

  1. Olá Teresa, que maravilha poder beber destes ensinamentos que nos ajudam a refletir sobre a Palavra, de uma maneira mais profunda. Fiquei a pensar no Exame de Consciência, alguma proposta sobre como o fazer de forma mais profunda, para que possamos estar mais bem preparados para nos abeirararmos do sacramento da reconciliação como deve ser? Obrigado

    • Olá Ricardo! Aqui mesmo no site, em “Da nascente – orações”, está um exame de consciência que eu escrevi, a partir não só dos Dez Mandamentos, mas de várias passagens dos Evangelhos, como por exemplo, as Bem-aventuranças. Está em PDF, para poder ser descarregado. Escrever este exame de consciência foi, em si mesmo, um ótimo exame de consciência para mim 🙂 Feliz Advento!

      • Maria Jose Barros Aguiar

        Me gustaria acceder a ese documento para reflexionar y prepararme. Leo bien en Português

  2. Obrigado!
    Feliz Advento também para todos aí em casa.

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