Em Caná da Galileia...


Domingo III de Páscoa, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

DEUS NÃO SE IMPÕE

O caminho da Páscoa ainda não vai a meio. Sabemos que Jesus ressuscitou, porque no-lo disseram. Acreditamos, para lá de todas as evidências, que está vivo. Mas é difícil cantar aleluias… Onde estás, Senhor? Façamos, nós também, a caminhada até Emaús!

Os discípulos “conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.” Um chamava-se Cléofas. E o outro? Serei eu? Conversamos sobre tudo o que vai sucedendo nestes últimos tempos e, como os discípulos, ficamos confusos e “entristecidos.” As verdades mais profundas da nossa vida são agora relativas. Teremos errado, ao colocar a nossa esperança no Senhor?

Entretanto, “Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.” Não estará Jesus connosco, aqui e agora? Não estará Ele bem vivo no sacramento do irmão? Não Se deixará Ele encontrar facilmente na oração sossegada, ou na oração barulhenta de uma família reunida? Estarei tão obcecado comigo mesmo ou com tanto medo de morrer, que fico impedido de O reconhecer?

Mas Ele não desiste de mim, e vai fazer tudo o que eu Lhe permitir, para me ajudar a fazer espaço para Ele. “Que palavras são essas que trocais pelo caminho?” Pergunta-nos. E depois, é “todo ouvidos”. Deus tem os Seus ouvidos colados aos nossos lábios, à espera da nossa confidência, da nossa súplica, do nosso agradecimento. Ainda que conheça tudo o que Lhe vamos contar… A Sua alegria é caminhar connosco e fazer parte das nossas conversas. Fará? Durante o dia, quando nos levantamos ou quando nos deitamos, quando cozinhamos ou quando estendemos roupa, quando trabalhamos ao computador ou quando brincamos com os filhos – falamos com Ele?

“Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel”, dizem os discípulos. Ei-los chegados à razão principal do seu desapontamento: a sua esperança era como uma flecha lançada para um alvo errado. Eles queriam um Messias político e histórico, e esse Messias estava morto e sepultado. Nada mais havia a esperar.

Tenho-me perguntado muito sobre as razões da nossa esperança hoje. O que esperamos nós de Deus? Queremos a todo o custo “a libertação de Israel”, o regresso à “normalidade”? Ou queremos a libertação da nossa “vã maneira de viver”, como sugere Pedro na sua Carta? De que fomos nós realmente resgatados, “pelo sangue precioso de Cristo?” Saberemos nós que, aqui na Terra, vivemos “no exílio”?

Que bom que o Ressuscitado Se põe a caminho connosco e, pouco a pouco, nos abre o entendimento, para compreendermos as Escrituras e acertarmos de novo a rota, rumo à Pátria! Abramos, hoje mesmo, as Escrituras. Deixemo-l’O contar-nos a Sua versão dos factos. É tão diferente, a forma de olhar de Deus! Ah, se pudéssemos ler a História através dos Seus olhos!

A Palavra de Deus cumpre-se em cada geração. Mas no nosso tempo histórico, ela cumpre-se com uma originalidade que não imagináramos…

“Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante.” Emociono-me sempre diante da humildade de Deus, que nunca Se impõe. Não é porque as igrejas de pedra fecharam que todas as casas se abriram em Igrejas Domésticas, como se ouve por aí. Deus não Se impõe. Ele faz menção de seguir para diante e, se não cuidarmos, é isso mesmo que fará. Quando tornará a passar por aqui? “Mas eles convenceram-n’O a ficar.” E nós? Já convencemos Jesus a ficar connosco, “porque o dia está a terminar e vem caindo a noite?”

Mas para quem cai a noite? Para nós, que temos medo e não queremos ficar sem o consolo que Ele nos traz? Ou para Jesus? Teremos nós aqui em casa um abrigo para Ele, que caminha sem ter “onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20)? Preocupar-nos-á minimamente a solidão do sacrário, a tristeza do Seu coração diante da igreja esvaziada – e não só a de pedra? Pensamos em confortar o Seu Coração? Ou temos apenas pena de nós próprios, do frio que sentimos sem o braseiro que Ele acende quando entra?

Jesus enche-Se de alegria e aceita o nosso convite, ainda que o façamos sem a perfeição do amor. E basta-Lhe um pequeno esforço da nossa parte, para que Ele transforme a nossa família numa Igreja Doméstica, onde se reza presencialmente, o terço numa mão, a Bíblia na outra, as palavras simples desembrulhadas à volta da mesa.

“Quando Se pôs à mesa, tomou o pão e recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho.” Se a Última Ceia anunciara a morte de Jesus, a Primeira Ceia dominical proclama a Sua Ressurreição. O gesto de Jesus despertou a memória enfraquecida dos seus amigos. “Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O”. E precisamente nesse momento também, “Ele desapareceu da sua presença” sem, contudo, Se ausentar: no sacramento do Pão consagrado, estava o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus. Acreditamos?

Enquanto não chega para nós a “hora da missa”, o Pão partido na “Emaús” da paróquia, façamos muitos atos de fé na Eucaristia, na “Emaús” da nossa casa. Não enganemos a fome com o que não pode saciar, nem matemos a sede em fontes que só existem em miragens…

(Já sabem cantar Emaús connosco? O novo cântico desta Páscoa está disponível aqui na barra lateral direita!)

 

 

 

One Comment

  1. Catarina Silva

    Profunda reflexão! Tanto para pensar!

    “…Tenho-me perguntado muito sobre as razões da nossa esperança hoje. O que esperamos nós de Deus? Queremos a todo o custo “a libertação de Israel”, o regresso à “normalidade”? Ou queremos a libertação da nossa “vã maneira de viver”, como sugere Pedro na sua Carta? De que fomos nós realmente resgatados, “pelo sangue precioso de Cristo?” Saberemos nós que, aqui na Terra, vivemos “no exílio”?”

    “…Preocupar-nos-á minimamente a solidão do sacrário, a tristeza do Seu coração diante da igreja esvaziada – e não só a de pedra? Pensamos em confortar o Seu Coração? Ou temos apenas pena de nós próprios, do frio que sentimos sem o braseiro que Ele acende quando entra?…”

    Que grandes perguntas! Vale muito a pena pensar nelas e na nossa forma tantas vezes egoísta de sermos cristãos…

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