Em Caná da Galileia...


Domingo III do Advento, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

 

“Clama jubilosamente; solta brados de alegria, Israel. Exulta, rejubila de todo o coração.” Assim fala Sofonias este domingo. E aos Filipenses, S. Paulo ordena: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos.”

Que Palavra exigente! No meio da agitação diária, dos nossos problemas familiares, escolares, de trabalho, de relações sociais; no turbilhão das más notícias que nos chegam de todas as partes do mundo, com que direito vamos nós alegrarmo-nos? E não só alegrarmo-nos, mas clamar jubilosamente, soltar brados de alegria, exultar, rejubilar de todo o coração? Dizia Dorothy Day, profundamente experimentada no sofrimento pessoal e do mundo: “Não é fácil estarmos sempre alegres, manter em mente o dever de rejubilar”!

Quando Sofonias convida o povo à alegria, não o faz porque a vida de Israel se tenha tornado repentinamente feliz. Pelo contrário! Viviam-se então tempos de idolatria, que o profeta denuncia na primeira parte do seu livro. Paulo também não vive propriamente tempos de facilidade: quando escreve aos Filipenses, fá-lo da prisão. A alegria que ambos propõem não resulta das condições de vida nem é da ordem das emoções, sendo antes e muitas vezes, nas palavras de Santa Teresinha, uma “alegria não sentida.”

De onde brota ela então? “O Senhor revogou a sentença que te condenava.” “O Senhor, Rei de Israel, está no meio de ti e já não temerás nenhum mal.” “Por causa de ti, Ele enche-Se de júbilo, renova-te com o seu amor, exulta de alegria por tua causa!” Será possível? Deus exulta – exulta! – de alegria por minha causa? Mais: será possível que o Senhor nos ame, ao ponto de encarnar, habitar connosco, partilhar as nossas dores, e finalmente, morrer por nós, revogando a lei da morte e do pecado, que nos mantinha prisioneiros? Não nos alegremos porque a vida corre bem, nem deixemos de nos alegrarmos porque corre mal. Alegremo-nos sim, porque os nossos nomes estão escritos no próprio coração de Deus (cf. Lc 10, 20). Esta é a verdadeira alegria da nossa vida. Só esta alegria permite a S. Paulo exultar na prisão, aos mártires verter o seu sangue, aos santos caminhar no meio das maiores tribulações sem desanimar. “Não vos inquieteis com coisa alguma”, conclui o Apóstolo.

E continua: “O Senhor está próximo”. Já passaram dois mil anos desde esta afirmação… Não, esta proximidade não é temporal nem futura: o Senhor está próximo, porque está no meio de nós, como afirma Sofonias. Está tão próximo quanto a nossa igreja paroquial, tão próximo quanto o nosso sofrimento, tão próximo quanto o irmão a nosso lado. O Senhor está aqui e agora, na realidade concreta da nossa vida. No meio dos escombros deste mundo, quais pobres grutas de Belém, habita, escondido, o nosso poderoso Salvador.

Que devemos então fazer para realmente experimentarmos esta alegria a que temos direito, mas que não se impõe, antes se oferece? João Batista responde individualmente a cada pessoa ou grupo que o aborda com a mesma pergunta. Precisamos de nos esvaziarmos de todo o egoísmo e de toda a autorreferencialidade, desviar o olhar de nós mesmos, dos nossos projetos e dos nossos sofrimentos, para contemplar o amor do Senhor. Depois, voltando-nos para o irmão a nosso lado, servindo, dando, partilhando, sendo honesto e hospitaleiro, aprendemos a amar como somos amados, e então sim, ficamos aptos para a verdadeira alegria. Um tanque só pode receber água limpa da fonte se for transbordando a que possui, e por isso o salmo canta: “Tirareis água com alegria das fontes da salvação.”

Alegrarmo-nos estando na prisão, cantar jubilosamente passando fome, exultar quando tudo corre mal, não é obra da natureza humana, mas da graça de Deus. Por isso, S. João Batista acrescenta à sua resposta: “Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo.” Não subestimemos a graça que recebemos no batismo, e por nada deste mundo atrasemos o batismo dos nossos filhos! Sem a graça, não somos capazes da verdadeira alegria, que produz frutos de santidade. Apressemo-nos a atear em nós o fogo que recebemos no batismo, através da confissão frequente, da oração e da meditação, “com orações, súplicas e ações de graças”, como sugere S. Paulo. Poderemos, por fim, dizer como o jovem Domingos Sávio: “Aqui fazemos consistir a santidade em estarmos sempre alegres.”

Hora da missa. O Senhor está próximo, tão próximo, que O poderemos receber no nosso coração. Que importa se este coração sofre e não tem razões humanas para se alegrar? Ele virá sem barulho, e habitará realmente no meio de nós. Com a sua graça, soprará as cinzas e ateará novamente o fogo do Amor. Transbordando gratidão, seremos impelidos a perguntar: “Que devemos fazer?” Ele responder-nos-á, com pedidos bem concretos. Pondo em prática a sua resposta, como fonte a jorrar, a nossa alegria será completa… Vem, Senhor Jesus!

 

 

 

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