Em Caná da Galileia...


Domingo IV de Páscoa, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

SEREMOS AINDA CAPAZES DE RECONHECER A VOZ DO PASTOR?

Nestes tempos de confinamento, faço frequentemente um curto passeio com os meus filhos mais novos até ao fundo da rua. Há aí uma quinta onde pastam ovelhas com os seus cordeirinhos, e é uma alegria vê-los brincar. De vez em quando, detenho-me a apreciar a relação que estes animais pacíficos têm com o seu pastor. É que não importa o quão entretidos estejam a mordiscar as folhas que os meninos lhes oferecem por entre o gradeamento; quando o pastor os chama, de imediato deixam tudo para responder ao chamamento e seguir a sua voz.

Hoje é Domingo do Bom Pastor. Fará ainda algum sentido esta imagem, tão antiga quanto as próprias Escrituras, que atravessa as suas páginas de gente nómada e pastoril até incarnar em Jesus?

“As ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora”, diz Jesus. Estes humildes animais são, de facto, capazes de distinguir a voz do pastor entre todas as outras vozes, como o meu vizinho me mostra. E ainda que vários pastores recolham as suas ovelhas nos mesmos redis e as levem a pastar aos mesmos pastos – como acontecia no tempo de Jesus – elas não se confundem. A nós, ignorantes em pastorícia, causa alguma surpresa a segurança com que o pastor caminha adiante do rebanho que, pastando embora em liberdade, permanece unido. Quanta confiança mútua!

“As ovelhas conhecem a sua voz.” Conhecemos? No meio do barulho deste mundo, seremos ainda capazes de reconhecer a voz do Pastor? A Bíblia não é apenas um livro religioso, que estudamos para aprender os conteúdos catequéticos que professamos. A Bíblia é a voz do Pastor, que anseia conversar connosco na intimidade do coração. Precisamos de ler muitas e muitas vezes a Palavra, em oração pessoal, e não apenas conhecer genericamente o conteúdo das passagens bíblicas, para aprendermos a identificar a voz do Pastor.

Falta o conhecimento íntimo, orante, desta voz. Enredados nos nossos discursos e nas nossas elaborações, perdidos em labirintos de racionalismo e naturalismo, distanciados do pensamento bíblico, que achamos ultrapassado, mas que, no fundo, desconhecemos, ouvimo-nos a nós próprios como num eco, enquanto insistimos que Deus não tem nada a dizer-nos através da natureza ou da História. Tornámo-nos surdos à voz do Pastor que, no entanto, ressoa pela Terra inteira e grita, desolada, como gritou sobre a Cruz… Ainda não sentimos “o coração trespassado”, como os ouvintes de Pedro.

“Eu vim para que as minhas ovelhas tenham a vida e a tenham em abundância”, continua Jesus. E explica-nos que, para além do Pastor, é também a Porta que precisamos atravessar para alcançarmos os prados verdes da eternidade. Uma porta dourada, ricamente decorada? Não: a Porta-Jesus tem a forma de uma tosca cruz de madeira, sem beleza nem adornos. Assim o explica S. Pedro: “Ele suportou os nossos pecados no Seu Corpo, no madeiro da cruz: pelas Suas chagas fomos curados.”

Gostaríamos de poder passar por uma porta mais mundana, mais elegante, mais atraente. Mas não existe nenhuma outra porta rasgada na parede da Humanidade e aberta para o Céu. Assim, quando o mundo, no meio de vénias e elogios, nos abrir portas muito simpáticas, desconfiemos. Não sigamos os “ladrões e salteadores” que nos querem fazer “entrar por outro lado”! Não fujamos à Cruz, nem nos escandalizemos dela. Proclamemos antes, como Pedro: “Deus fez Senhor e Messias esse Jesus, que vós crucificastes.” E passemos pela porta da Cruz, sabendo que, às ovelhas, cabe seguir o Pastor: “porque Cristo sofreu também por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os Seus passos.”

“Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo”. A ovelha que segue o seu pastor é uma ovelha tranquila. Seremos nós assim também? Lembro-me muitas vezes de uma expressão frequente de Santa Teresa de Calcutá, segundo as lembranças das suas Irmãs. Quando via alguma abatida ou preocupada, costumava perguntar-lhe, num tom brincalhão: “Irmã, o que disse Nosso Senhor: para seguirmos à frente, ou atrás da Sua cruz?” Ao responder “atrás, Madre”, a Irmã já estava a sorrir. É a grande maravilha de sermos “ovelhas”: cabe-nos deixarmo-nos conduzir, com docilidade e confiança, sabendo que o Pastor não nos engana nem permite que nos enganemos. Quem segue atrás, tem o caminho aberto!

Para assegurar à sua Igreja um pastoreio contínuo, o Senhor instituiu o ministério hierárquico, a partir de Pedro e dos Apóstolos, numa sucessão ininterrupta até aos dias de hoje. Escutando o Papa e obedecendo aos bispos a ele unidos, as “ovelhas” têm a certeza de serem conduzidas “a verdes prados”, ainda que o caminho se faça “por vales tenebrosos”. Nestes tempos de noite e abismo, rezemos pelo Papa Francisco e peçamos ao Bom Pastor muitos e santos pastores de almas, dispostos, à Sua imagem de semelhança, a conduzir as ovelhas às pastagens celestiais, a preço da própria vida.

Que o Bom Pastor nos faça chegar depressa “às águas refrescantes” e à mesa que nos tem preparada em cada domingo. Ámen. Aleluia!

 

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