Em Caná da Galileia...


Domingo IV de Páscoa, Ano B

Reflexão semanal escrita pela Teresa, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga, sobre as leituras do domingo seguinte

TODOS SOMOS CHAMADOS A SER PASTORES DE ALGUM REBANHO

O Domingo IV de Páscoa é o Domingo do Bom Pastor. É também o Domingo das Vocações. O testemunho entusiasmante de Pedro na leitura dos Atos, o espanto amoroso de João na sua Primeira Carta e as Palavras de Jesus no Evangelho apontam na mesma direção: vale a pena seguir o Pastor, respondendo “sim” quando Ele nos chama!

“Eu sou o Bom Pastor”, diz-nos Jesus. Sabemos, pelo relato do seu nascimento em Belém, que os pastores pertenciam às classes mais baixas e viviam fora dos muros da cidade. Os pastores eram gente impura, com cheiro a ovelha. Jesus é o Pastor, Deus ocupando o último lugar, percorrendo as periferias à nossa procura, deixando-Se contaminar pelo nosso pecado até ao ponto de dar a vida por nós. E não só por nós, mas por todos, mesmo pelos que “não são deste redil”, dos que não partilham a nossa fé ou sequer os nossos valores.

Não tenhamos ilusões: ser cristão é seguir o Crucificado. Pedro dirá, citando o salmo que hoje cantamos, que Jesus é a pedra rejeitada pelos construtores. Desengane-se quem pretende utilizar a religião para subir na vida ou na opinião dos outros. Jesus guarda para esses os piores epítetos, e hoje, no Evangelho, chama-lhes “mercenários”, porque a sua preocupação é em torno do seu “eu”. Claro que o mercenário não se preocupa verdadeiramente com os outros. “Logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge.”

Neste dia de oração pelas vocações, pedimos ao Bom Pastor que nos dê pastores à sua imagem e semelhança, “com cheiro a ovelha”, segundo a expressão do Papa Francisco. Todos somos chamados a ser pastores de algum rebanho, por pequenino que seja: os filhos, os colegas de trabalho ou da escola, as crianças da catequese… Seremos nós Bons Pastores? Humildes, simples, pobres? Aceitando alegremente o desprezo e a crítica, porque assim nos assemelhamos ao Bom Pastor? Capazes de dar a vida pelas nossas ovelhas, morrendo para a nossa vontade e o nosso “eu”? Ou seremos mercenários, preocupados com o nosso bom nome e com fazer carreira, servindo apenas quando convém e até onde convém, sem nos deixarmos contaminar pelo “cheiro de ovelha” e sem arriscar o nosso tempo livre, a nossa conta bancária ou o nosso lugar ao sol?

Mas cada um de nós é hoje também chamado a ser ovelha, pronta a seguir este Pastor. Diz Jesus: “Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me.” E depois: “elas ouvirão a minha voz”. Os rebanhos da Galileia habitavam em apriscos comuns, mas quando os pastores chegavam para conduzir as ovelhas aos prados, cada ovelha reconhecia e seguia apenas a voz do seu pastor. Hoje, também nós vivemos em “apriscos” comuns, e são muitos os “pastores” que nos querem abrir as portas com promessas de libertação. Pedro avisa-nos, na sua pregação inaugural: “Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos.”

Quantas vezes nos deixamos iludir pelas vozes que nos chamam! Nos discursos políticos e nos livros de autoajuda, nas ideologias e nas heresias, estas vozes soam muito bem aos nossos ouvidos pouco treinados. E arriscamo-nos a sair do aprisco atrás do pastor errado.

Precisamos de treinar os nossos ouvidos interiores. Ao contrário dos pastores deste mundo, Jesus fala muito baixinho. Para O ouvir, precisamos de silêncio, desligando-nos do mundo muitas vezes por dia, por exemplo cortando no tempo que dedicamos às redes sociais e à televisão.

A voz de Jesus ecoa em cada página da Bíblia. Para conhecer o Pastor, há que conhecer a Bíblia, e não há melhor forma de o fazer que acompanhando as leituras da missa diária, onde a Palavra nos é servida em pequenas doses acompanhadas de explicações simples. À medida que aprendemos a reconhecer a voz de Jesus, vamo-nos deixando seduzir por Ele, ao ponto de exclamar, como João: “Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamarmos filhos de Deus! E somo-lo de facto.”

Porque o Crucificado é também o Ressuscitado; e “a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular.” Sinal disso mesmo é a cura do coxo à porta do templo: “é em nome de Jesus Cristo que este homem se encontra perfeitamente curado na vossa presença”. Se aqui na Terra, o nome de Jesus é suficiente para curar todas as feridas, então o que não fará quando nos introduzir, ressuscitados, nas verdes pastagens do Céu? João não tem dúvidas: nesse dia, seremos divinos, porque “seremos semelhantes a Deus”.

Hora da missa. Vimos porque reconhecemos a voz do Bom Pastor, a chamar-nos para fora dos nossos apriscos. Vimos porque O queremos escutar de novo, de sentidos interiores despertos. Vimos porque queremos invocar o seu Nome e apresentar-Lhe as nossas feridas. Vimos para nos tornarmos presentes no momento eterno em que o Pastor dá a Vida por nós, e nos tornarmos presentes no momento também eterno em que ressuscita e fica connosco para sempre. Vimos para comer do mesmo Pão e, assim, construir comunhão, antecipando o dia feliz em que “haverá um só rebanho e um só Pastor…” Aleluia!

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