Em Caná da Galileia...


Domingo IV do Advento, ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

TOMA O MEU NADA, DÁ-ME O TEU TUDO!

O Natal está aí. Não desperdicemos o tempo em corridas aos centros comerciais, ou em horas esquecidas diante do computador, da televisão ou ao telemóvel; mas aproveitando a deixa da pandemia, permaneçamos em casa, em serena expetativa.

Porque é essa também a deixa do Evangelho, e é dentro de casa que o Senhor nos quer hoje encontrar: “Quando David já morava em sua casa…” “Tendo entrado onde ela estava…” O Natal apela à intimidade, à oração silenciosa, à atenção carinhosa à família mais próxima. Pensamos erradamente que, para que Deus Se nos revele, precisamos de sair da rotina, de fazer um retiro ou uma peregrinação; mas ao longo da história bíblica, constatamos que Deus escolhe os momentos mais banais da vida dos homens para Se lhes revelar, apanhando-os de surpresa nas tarefas rotineiras familiares: a pastorear o rebanho, como Moisés e David, a procurar as jumentas fugidas, como Saul, a malhar o trigo, como Gedeão. Deixemos que o Senhor nos surpreenda também nas nossas rotinas e nas nossas casas!

O Espírito manifestou-Se a David numa moção interior que o levou a questionar-se: não seria hora de edificar uma casa para Deus, simbolicamente presente na Arca da Aliança, guardada há gerações numa pobre tenda de lona? “Faz o que te pede o teu coração, porque o Senhor está contigo”, diz-lhe o profeta Natã. Seguir os impulsos do coração não é seguir os apetites da carne, mas pôr-se à escuta dos desejos profundos que o Senhor inscreve no mais íntimo do nosso ser. Dizia Santa Teresinha: “Deus nunca me fez desejar algo que não me quisesse dar.” Serão os nossos desejos tão santos como os de David e Teresa?

David pensava que a Palavra que Deus assim plantara no seu íntimo se devia concretizar na construção de um templo. Mas Natã, o mensageiro de Deus, vai corrigir a sua interpretação: “Pensas edificar um palácio para Eu habitar? (…) O Senhor anuncia que te vai fazer uma casa.” Deus nunca Se deixa vencer em generosidade. Tudo o que Lhe oferecemos, Ele restitui-nos multiplicado. O desejo sincero de David de Lhe edificar uma casa, foi-lhe restituído com a promessa de que o próprio Deus edificaria eternamente a dinastia do grande rei.

“Estabelecerei em teu lugar um descendente que há de nascer de ti e consolidarei a tua realeza”, continua Deus a dizer a David. A Palavra ganhou carne em Salomão, o filho herdeiro, que finalmente construirá o templo sonhado. Mas como toda a Palavra bíblica, “ao chegar a plenitude dos tempos” (Gl 4, 4), ela realizou-se plenamente em Jesus, o herdeiro de todas as promessas, o único sobre Quem Deus pode realmente afirmar: “Serei para ele um pai e ele será para Mim um filho.” É o que diz o Anjo a Maria de Nazaré: “Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de Seu pai David.”

“Avé, cheia de graça, o Senhor está contigo!” Diz o Anjo a Maria. Nunca esquecerei a primeira vez que, na nossa oração familiar, um dos meus filhos, na altura com sete anos, leu em voz alta esta passagem. Surpreendido, perguntou: “Mãe, como é que o Anjo sabia rezar a Ave-maria?” Desde então, tenho meditado no mistério escondido nesta curta oração que, aqui em casa, se reza cinquenta vezes por dia: a Ave-maria é a oração que o próprio Deus reza, e que ensina os seus anjos a rezar! Nenhuma criatura – nem mesmo Maria – consegue vencer Deus em humildade. Pois só Deus tem este dom de olhar para nós, não de cima para baixo, mas de joelhos, contemplando em perfeito êxtase a beleza da alma que Ele próprio criou.

O Senhor está contigo, está comigo, está connosco. A primeira grande mensagem do Anjo é aquele pequeno refrão que a Bíblia não se cansa de repetir: “Não temas!” Se não temos a coragem de sonhar alto como David, ou de entregar tudo como Maria, é porque ainda não descobrimos que o Senhor está connosco e, por isso, vivemos cheios de medo, prisioneiros das nossas seguranças e incapazes de correr o risco do Evangelho. Conseguiremos nomear os nossos medos?

“Eis a escrava do Senhor, faça-se!” Com o seu “sim”, Maria entrou definitivamente na história da salvação, repetindo a “fórmula oficial” dos que aceitaram os desafios divinos: “Eis-me, envia-me!” (Is 6, 8) Uma entrega tão absoluta só podia ter por resposta o absoluto de Deus: “E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.” (Jo 1, 14) Não foi o grande rei David a construir um templo para Deus, mas Deus a preparar e eleger um templo para Si mesmo, no corpo, no coração, na vida e na casa da Sua mais humilde criatura, a Virgem Maria.

Digamos “sim” a Deus, e veremos as maravilhas que Ele faz através de nós e nas nossas casas, tão insignificantes como Nazaré, pequena aldeia que não é sequer mencionada no Antigo Testamento! “Porque a Deus, nada é impossível.”

Hora da missa. Hoje quero, como David, deixar falar o meu coração e, como Maria, entregar-me sem medo à Tua vontade. Faça-se! Venho a Tua casa para Te pedir que venhas comigo para a minha… Eis, Jesus, o meu maior desejo: toma o meu nada, e dá-me o Teu Tudo. Maranatha!

Lindo presépio na creche Maria Auxiliadora

One Comment

  1. Estela Fonseca

    Mais uma reflexão cheia de amor! Obrigada Teresa!

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