Em Caná da Galileia...


Domingo IX do Tempo Comum ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

DOMINGO DA LIBERDADE CONTRA A ESCRAVIDÃO DO EGITO

“Guarda o dia de sábado, para o santificares”, diz o Senhor no Livro do Deuteronómio, este domingo. Que grande privilégio foi concedido ao povo hebreu desde o início! No mundo Antigo, onde descansar era considerado privilégio dos deuses e dos que, na Terra, mais a eles se assemelhavam por riqueza ou poder, o povo hebreu experimentou sempre com total certeza o direito inalienável de cada um, inclusive dos escravos, a repousar no sábado.

“Recorda-te que foste escravo na terra do Egito e que o Senhor, teu Deus, te fez sair de lá com mão forte e braço estendido”, continua a leitura. Isto não é para nós, pensamos. Vivemos tão longe do Egito, no espaço e no tempo! Mas o Senhor não diz: “Recorda-te que os teus antepassados foram escravos no Egito”. O Senhor fala no singular: “Recorda-te que foste escravo.” Não se trata tão só de recordar os prodígios que o Senhor realizou no seu povo, mas também e sobretudo, os prodígios que realizou e realiza na vida de cada um de nós, hoje como ontem. Pois não é o Egito símbolo do mundo materialista e escravizante onde todos vivemos? Não é o Egito símbolo do mal, do qual fomos libertados no dia do nosso batismo, pelo poder da água e do Espírito? O mandamento de guardar o sábado é o mandamento de celebrar a libertação que o Senhor opera na vida de cada um de nós.

Mas será que vivemos realmente o domingo – o sábado dos cristãos – como filhos que o Senhor libertou? Os nossos tempos têm assistido a verdadeiros retrocessos civilizacionais, como o demonstram as recentes discussões sobre a vida e a morte nos países ocidentais. Também a falta de respeito pelo Dia do Senhor reflete o regresso generalizado dos povos ocidentais a uma situação de escravatura do mundo, esse mundo que, pelo batismo, devíamos ter abandonado. Quantos cristãos passam o domingo fechados nos centros comerciais, adorando bezerros de ouro, ou fechados nos seus mundos virtuais, cada um longe de todos, mesmo que fisicamente perto! Quantos cristãos se esquecem, em vez de se recordarem, de celebrar o batismo! Quantos cristãos trocam a alegria da celebração comunitária da fé por aquilo a que o Papa Francisco tem vindo a chamar de idolatrização dos tempos livres e do lazer!

Quando nos esquecemos das razões que nos levam a agir de determinada forma, em pouco tempo esvaziamos os gestos do seu sentido profundo, transformando-os em rotinas que aprisionam, em vez de libertar. Foi o que aconteceu com o sábado judaico. Esquecidos de que o sábado era o dia da libertação, o povo de Deus, no tempo de Jesus, tinha-o transformado num dia de opressão, tal o número de normas impostas. Jesus veio restituir ao sábado o seu significado original: celebrar o sábado é viver em ação de graças pela libertação que Deus operou. E não há melhor forma de agradecer os dons de Deus do que sermos, nós mesmos, instrumentos de libertação para os irmãos. Fazendo milagres de cura e libertação ao sábado, Jesus quis ensinar o seu povo que o sábado é o dia ideal para servir o próximo e lhe devolver a alegria de filhos de Deus.

Nós, cristãos, somos chamados a viver o Dia do Senhor da mesma forma que Jesus vivia: servindo, amando, dando, libertando. O domingo é o dia ideal para visitar os pobres, os doentes e os presos, para dar catequese, dando testemunho de fé, para celebrar o dom da vida com a família. Não nos fechemos nos nossos pequenos mundos nem nos instalemos no nosso conforto pessoal, para não ser dirigida a nós a frase de Marcos sobre Jesus: “Então, olhando-os com indignação e entristecido com a dureza dos seus corações…”

Celebrar o domingo é, portanto, deixar que a luz do Ressuscitado ilumine por dentro a nossa vida e a nossa alma e, a partir de nós, o mundo inteiro. Assim explica S. Paulo: “Deus (…) fez brilhar a luz em nossos corações, para que se conheça em todo o seu esplendor a glória de Deus.” Que grande responsabilidade a nossa! Seremos nós, frágeis e pecadores, capazes de tanto?

Como resposta, o Apóstolo deixa-nos com um dos seus mais belos pensamentos. Somos, de facto, vasos de barro, frágeis e sem valor, que a todo o momento podem quebrar. E quantas vezes quebram! Mas é no interior de vasos assim que o Senhor Se compraz em depositar o tesouro da sua Luz.

Sofrer humaniza-nos, sabemo-lo por experiência. A grande novidade da cruz de Jesus é que sofrer também nos diviniza! A lógica divina, como sempre inversa à lógica humana, diz-nos que quanto mais nos assemelharmos a Jesus na dor, mais nos assemelharemos também na glória. Vivamos seguros desta promessa: enquanto a Luz brilhar cá dentro, nada, absolutamente nada nos poderá aniquilar.

Domingo. Acordamos com a sensação de liberdade que só os filhos de Deus experimentam. Temos direito a participar no repouso de Deus! “Aliviei os teus ombros do fardo e soltei as tuas mãos dos cestos”, diz-nos o Senhor no salmo de hoje. Já não somos escravos, mas filhos. Por isso, corremos para a missa. Queremos encher de luz os nossos vasos…

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