Em Caná da Galileia...


Domingo V da Quaresma, ano B

Reflexão semanal sobre as leituras do próximo domingo, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

QUANDO AMAMOS NÃO PERGUNTAMOS ATÉ ONDE DEVEMOS IR

“O que é preciso para o meu filho fazer a Primeira Comunhão?” Perguntava uma mãe ao catequista, procurando contornar as faltas à catequese, que eram muitas. “Eu posso ensinar-lhe o Pai-Nosso e a Avé-Maria. Mais alguma coisa?” Noutra ocasião, um casal jovem perguntava: “Senhor padre, hoje aqui no retiro fomos à missa. Amanhã é domingo. Precisamos de ir à missa outra vez?” Dois mil anos depois de Jesus, ainda temos a Lei de Deus escrita em tábuas de pedra, como no tempo de Moisés. E como Moisés, às vezes dá vontade de as atirarmos ao chão e as partirmos… Pois sem amor, a Lei não serve para nada.

“Hei de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração.” Assim fala o Senhor através de Jeremias, neste tempo de quaresma. Ah, como será belo o dia em que todos os cristãos tiverem a Lei de Deus tatuada no coração! Poderemos então dizer como Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres”.

Pois quando amamos, não perguntamos até onde devemos ir. Pelo contrário: o amor só começa onde termina a obrigação. O amor está sempre para lá da obrigação, ultrapassa-a, excede-a. Não foi assim que Deus criou o Universo? Milhões e milhões de estrelas, milhões e milhões de anos, apenas para cada um de nós ter um lugar onde crescer? Quanto desperdício de tempo e de estrelas, diríamos nós… E não foi assim que Deus nos salvou? Levando a sua identificação connosco muito para além do razoável, até à morte, e morte de cruz? Quanto Sangue derramado em vão, achamos nós… Porque nós queremos amar apenas até onde for razoável: não deitamos notas no cesto das ofertas na missa, porque umas moedas pretas chegam perfeitamente; não perdoamos se não tivermos garantias de que o culpado não voltará a errar (ai se Deus nos fizesse isso…); não ajudamos se a ajuda interferir com a nossa conta bancária ou com os nossos espaço e tempo pessoais… Queremos amar, mas queremos fazer contas, colocar limites.

Ora o amor verdadeiro, para com Deus e para com o próximo, é como o grão de trigo, que só dá fruto se primeiro morrer na terra. Se queremos dar frutos de amor, precisamos de enterrar o nosso eu, o nosso conforto, a nossa vontade. “Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna.” Esta é a Lei de Deus, e não há outra.

Foi o amor até ao fim de Jesus que nos obteve o perdão totalmente imerecido, abundante e permanente, que nos permite, a cada instante, começar de novo. Faz-nos bem escutar o salmo 50 e nele meditar longamente, sem pressa. Rezemo-lo em voz alta, de joelhos diante da cruz, e fitemos os olhos em Jesus, enquanto deixamos cada uma das palavras descer da boca ao coração. Quando Deus nos fez o dom deste salmo, através do Rei David, já tinha no seu horizonte a cruz de Jesus. Diz-nos S. Paulo que “Cristo dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Áquele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da sua piedade.” Pois os clamores e lágrimas de Jesus não eram por Ele, mas por nós; não eram para que Deus O livrasse a Ele da morte, mas a nós, e por isso Ele morreu em nossa vez.

Quanto mais meditarmos neste amor que brota da cruz; quanto mais imitarmos este amor dando também nós a vida pelos irmãos, mais perto estaremos de Jesus. E quanto mais perto estivermos, melhor O veremos e melhor O conheceremos. Não é isso mesmo que nos diz o Evangelho? “Queremos ver Jesus”, disseram alguns gregos a Filipe. Filipe transmitiu o pedido a André, e os dois foram ter com Jesus. Sim, eles podiam vê-l’O, respondeu Jesus. Mas vê-l’O-iam elevado sobre a cruz, para O poderem conhecer em toda a sua verdade e toda a sua glória.

“Teresa, quem é aquele homem pendurado num pau?” Perguntou-me um dia uma criança do primeiro ano de catequese diante do crucifixo por detrás do altar. Esta criança não vinha da selva, nem do fim do mundo. Era, como as outras, filha de pais cristãos… Mas chegara aos seis anos sem conhecer Jesus. Parece que a profecia de Jeremias ainda não se cumpriu: “Todos eles Me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, diz o Senhor.” Nunca ensinaremos uma criança a amar Jesus enquanto não lhe falarmos da cruz. “Quando Eu for elevado da Terra, atrairei todos a Mim”.

É domingo de manhã, e todo o meu ser anseia pela missa. Não vejo hora de chegar à igreja… Tenho pressa, porque não venho cumprir uma lei escrita na pedra: o que eu quero mesmo é ver Jesus. Talvez tenha de passar primeiro por Filipe, depois por André, e talvez me perca um pouco nestas andanças, mas vou manter firme o coração. Daqui a pouco, o sacerdote elevará o pão e o vinho… Parece-me escutar a voz do Pai: “Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O”. Sim, a morte na cruz não foi a última Palavra de Deus! De novo, a história do grão de trigo que, morrendo, gera a vida…

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