Em Caná da Galileia...


Domingo V de Páscoa, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA

O tempo pascal continua. É primavera, a alegria regressou aos campos, o sol brilha no céu, e o mês de Maria chegou. Mas continuamos a viver “no tempo da fome”, como profetiza o salmo…

“Vou preparar-vos um lugar.” O que estará, realmente, a dizer-nos Jesus? Para os seus ouvintes, a sua linguagem era clara. Mas nós estamos muito distantes destes tempos, e por isso, importa perceber exatamente o que Jesus estava a dizer. Jesus falava como o Esposo de Israel. Naquele tempo, o noivado durava pelo menos um ano, durante o qual, o noivo – que a lei já considerava esposo, pois o contrato de casamento estava feito – regressava à casa do seu pai e preparava aí uma morada, um pequeno quarto, para a “lua-de-mel”, onde consumaria o casamento. No dia marcado pelo pai do noivo – e que só o pai do noivo conhecia com toda a certeza -, ao cair da tarde, o noivo partiria ao encontro da noiva. De lâmpadas acesas, as virgens que estivessem preparadas acompanhavam a noiva em cortejo, enquanto os músicos alegravam as ruas e toda a aldeia assomava às portas das casas, exultando. Então o noivo introduzia a noiva na morada que lhe preparara, e consumavam o seu casamento. Só depois começavam os festejos, que podiam durar uma semana inteira.

“Quando Eu for preparar-vos um lugar virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também”, assegura-nos Jesus, o Esposo da Igreja. A Sua aparente ausência é, assim, um tempo de esperança festiva, de alegre antecipação do grande dia, o dia da consumação do matrimónio entre Deus e cada um de nós, esse matrimónio firmado na Cruz. E graças ao mistério pascal, este matrimónio é antecipado, sacramentalmente, cada vez que celebramos a Eucaristia, que é já um banquete nupcial. Como é grande, o dom de Deus!

Se o Esposo nos foi preparar um lugar, nós, a Esposa, precisamos de nos ataviar, de nos vestirmos de festa, de bordar um enxoval. Vamos, assim, entrando “na construção deste templo espiritual” de que nos fala S. Pedro, aprendendo a ser “geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus”, noiva preparada para o mais belo matrimónio do Universo e da História.

“Eu sou o Caminho”, explica ainda Jesus aos seus confusos discípulos. Para nos encontrarmos com o Esposo, teremos de seguir as Suas pegadas ensanguentadas e de esmurrar os joelhos nas mesmas pedras em que Ele caiu, Ele que Se tornou para nós “pedra de tropeço e pedra de escândalo”. Porque nos surpreendemos então quando o mundo nos rejeita, como rejeitou a Ele? Não foi Jesus “a pedra que os construtores rejeitaram”? Porque nos afligimos quando nos sentimos abandonados por quem esperávamos ser apoiados, como Ele foi abandonado pelos seus amigos? Porque nos espanta que a Igreja agonize, como Ele agonizou? E, no entanto, ela é uma “nação santa”! Quantos mistérios divinos, que cada geração precisa de viver até ao fim!

“Eu sou a Verdade”, assegura-nos o Senhor. Mas a verdade, como Jesus, não se impõe. A verdade procura-se, tateando, entre o impulso do Espírito Santo e a escuta da Palavra, e descobre-se em assembleia de fiéis – “a proposta agradou a toda a assembleia” – numa obediência dialogada. Assim nos demonstram os primeiros cristãos, que desde o início se viram confrontados com a urgência de tomar grandes decisões. Porque será que ficamos com a estranha sensação de que o próprio Deus lançava uma alegre confusão na Igreja, soprando um vento atrevido e colocando questões inesperadas, para provocar respostas ousadas? Deus gosta que O procuremos em oração, mas também junto dos irmãos, e revela-Se aos que n’Ele esperam, canta o salmo.

“Eu sou a Vida”, continua Jesus. Mas nós temos um medo terrível da morte física, como a pandemia veio revelar. Inesperadamente, a nossa “geração eleita” decidiu contrapor a vida física à vida espiritual, o cuidado com o corpo ao cuidado com a alma, como se houvesse entre ambos alguma espécie de contradição, ou como se fossem independentes um do outro. Os heróis atuais, exaltados tanto no mundo como na Igreja, são os funcionários dos sistemas de saúde. Obedecemos cegamente à OMS, a mesma que nos assegura que o aborto e a contraceção são direitos inalienáveis. Aplaudimos os médicos que se aventuram no cuidado aos irmãos, porque o corpo se salva sem alma, mas afastamos os sacerdotes para detrás dos ecrãs dos computadores, porque o espírito se alimenta sem corpo. Estranha geração a nossa, que perdeu o sentido da unidade entre corpo e espírito!

E, contudo, o Esposo pede, “não se perturbe o vosso coração”. O Espírito que sacudiu os primeiros cristãos continuará a sacudir-nos hoje. Deixemo-nos encher “de fé e do Espírito Santo”, para encontrarmos a Verdade. Anunciemos a Palavra e sirvamos às mesas dos pobres. Ponhamos, sem receio, os pés nas pegadas d’Aquele que nos diz ser o Caminho, rumo à morada que nos preparou, a Vida eterna, esta Vida que começa aqui, cada vez que comungamos o seu Corpo no banquete da Eucaristia. Ámen! Aleluia!

 

2 Comments

  1. Ana Maria Interlandi

    Estou a acompanhar- faz pouco tempo e estou a gostar. Obrigados, pela ajuda na compreensão da Palavra de Deus.
    Bênçãos de Deus

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