Em Caná da Galileia...


Domingo V do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

APRENDER COM O SAL

Hoje, o Senhor envia-nos como sal da terra e luz do mundo, para praticarmos as obras de misericórdia. Estaremos a cumprir o seu mandamento?

“Vós sois o sal da terra”, diz-nos Jesus. A imagem do sal é talvez a imagem mais perfeita da nossa vocação de batizados, e podemos deter-nos nela muito tempo. De facto, o sal “é salvo” do mar, extraído do “abismo da morte”, como na altura se chamava aos oceanos. Não foi assim que também nós fomos resgatados, no momento solene do nosso Batismo?

Ao longo da vida, é preciso cuidado para o sal “não perder a força”, para que se mantenha puro e conserve os seus nutrientes. Porque de outra forma, “com que há de salgar-se? Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens”. Assim acontecia com o sal que, no tempo de Jesus, se usava na Palestina. Quando era menos puro, vinha misturado com argila, e a humidade acabava por o destruir. Num mundo tão impuro como o nosso, manter a pureza do “sal”, em nós próprios e na nossa família, não é tarefa simples. Sem a ajuda dos sacramentos, de muita oração, de muita catequese, não o conseguiremos!

Mas a procura desta pureza não significa deixar o sal sossegado num recipiente. De facto, enquanto assim estiver, o sal “não serve para nada”. Tudo o que sou, os meus talentos e dons, os meus estudos e os meus sucessos, as minhas práticas individuais de piedade, a pureza do meu pensamento, nada disso tem valor se ficar guardado no “recipiente” da minha solidão… Pelo contrário, logo que este “sal” toca o irmão, na mais breve obra de misericórdia, tudo ganha sentido. Por isso, Isaías proclama: “Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva roupa ao que não tem que vestir e não voltes as costas ao teu semelhante.”

No tempo de Jesus, o sal era essencial para a preservação dos alimentos, não permitindo que apodrecessem e, assim, que se perdesse o que é bom. Uma das mais importantes missões do cristão é mesmo esta: preservar o que é bom no nosso mundo, guardar os valores cristãos, defender a família, a vida, e toda a Criação. O mundo precisa deste “sal”, para não cair no relativismo e no laxismo que ameaçam destruir a humanidade. Os nossos filhos precisam deste “sal”, para crescerem sabendo que há bem e mal, que há valores a preservar, custe o que custar.

Mas o sal tem outra função muito importante: dar sabor. E fá-lo sem chamar a atenção sobre si próprio, pois quando isso acontece – “Tem muito sal!” “Está salgado!” – já estragou o bem que poderia ter feito. Não há verdadeiro cristianismo sem humildade, sem esquecimento de si. Que Deus nos livre de sermos cristãos maçadores e vaidosos, usando a religião para subir na vida e na opinião dos outros, ou pior ainda, para os desprezar e julgar! O Papa Francisco chama a esses cristãos, “cristãos mundanos”. Cá em casa, e porque gostamos muito de música, chamamos a esse estilo de vida, uma vida “cantada em Mim maior”…

Com um pouco de sal, os alimentos tornam-se saborosos. Com um pouco de fé, de esperança e de amor, as nossas rotinas tornam-se sagradas. Quando olhamos para o nosso quotidiano a partir do ponto de vista da eternidade, tudo ganha sentido, e o mais pequeno detalhe torna-se lugar de encontro com o Senhor.

Seremos nós também capazes de assim dar sabor à vida dos outros? Um sorriso, uma palavra amável, um pequeno serviço, podem fazer a diferença na vida do nosso irmão – como um pouco de sal faz a diferença ao jantar…

“Vós sois a luz do mundo”, continua Jesus, deixando a imagem do sal para nos oferecer uma outra, luminosa e bela. Não somos, naturalmente, a luz, porque a luz é Ele mesmo e, sem Ele, somos só escuridão. Quando nos convencemos de que temos luz própria, como as estrelas, convencemo-nos também de que tudo gira à nossa volta, como planetas. Colocando-nos no centro, acreditamos que tudo depende dos nossos esforços, da nossa eloquência, da “sublimidade de linguagem ou de sabedoria”. Cheios de vaidade, julgamos igualmente os outros a partir destes mesmos critérios. Quantos encontros de evangelização perdem a força por se assemelharem a conferências universitárias, salas cheias de gente sábia aos olhos do mundo, com muitos títulos que gostamos de desfilar em longas linhas!

Mas os cristãos não têm luz própria. A nossa vocação é bem mais humilde: cabe-nos refletir a Luz de Cristo – “e Cristo crucificado” -, que recebemos pelo Batismo, como a Lua na noite, iluminando mansamente “todos os que estão em casa” pela prática das “boas obras”. Para assim fazermos, é preciso que apaguemos qualquer luminosidade pessoal, que nos tornemos, nas palavras de S. Paulo, “nada”, “fraqueza”. Então sim, seremos testemunhas da “poderosa manifestação do Espírito Santo”.

Hora da missa. É aqui que o sal que sou ganha nova força, a fim de temperar a terra à minha volta. É aqui que a vela que sou se reacende no círio do teu amor, a fim de iluminar todos os que estão em casa. Que eu aprenda, aos pés da tua cruz, a ser “misericordioso, compassivo e justo”…

 

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