Em Caná da Galileia...


Domingo V do Tempo Comum, ano B

Reflexão semanal sobre as leituras do próximo domingo, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

PODEMOS IR TER COM JESUS A QUALQUER HORA

“Porquê?” É geralmente assim a primeira reação diante do sofrimento. É a pergunta que os meninos colocam na catequese, a pergunta que os crentes colocam aos sacerdotes, a pergunta que os não-crentes colocam aos crentes, quase como um desafio: se Deus existe, por que razão sofrem os homens, especialmente os inocentes?

Esta pergunta é tão antiga quanto o ser humano e acompanha todas as gerações. Também atravessa a Bíblia, transformando-se em conto no Livro de Job. A este homem justo, permitiu Deus que acontecesse tudo o que podia acontecer de mal. Depois de perder a riqueza, os filhos, a saúde e até o bom nome, nada mais lhe restava senão esperar pela morte. Segundo os nossos esquemas mentais e segundo o credo judaico, exemplificado nas palavras dos “amigos” de Job, o seu sofrimento não faz sentido, pois ele não merecia castigo. De facto, a nós parecer-nos-ia muito bem que os maus sofressem e os bons vivessem sempre contentes, ou não?

Ler o Livro de Job em alturas de sofrimento é um verdadeiro consolo. Sem nunca obtermos resposta – nem nós, nem os “amigos” de Job, nem o próprio Job – para o grito de porquê, encontramos contudo uma profunda paz neste vínculo tão humano que nos liga aos irmãos e que se chama dor. Talvez nos reconheçamos ali mesmo, onde Job está; ou talvez reconheçamos, em Job, o irmão que vive na guerra ou na prisão, que tem fome, que é maltratado ou que está doente. Entremos no texto e percorramos também nós o caminho que vai do “Porquê eu?” ao “Por que não eu?”

Quando o sofrimento nos alcança, podemos gritar e chorar diante do Senhor. Deus não nos leva a mal, como não levou a Job. Jesus virá no Evangelho ensinar-nos, com o seu exemplo, que tudo deve começar e terminar em oração, em algum “sítio ermo” onde nada nos distraia do essencial. Abramo-nos sem receio diante d’Aquele que sara os corações dilacerados e liga as suas feridas, como canta o salmo. Porque muito mais importante que saber o porquê da dor, é saber que Deus é Salvador, que não há abismo que Ele não tenha já visitado, Ele que até as estrelas conhece pelo nome! E ainda que nada mude exteriormente quando assim nos abeiramos do Senhor, por dentro, como Job, ficamos curados.

Não é isso que nos diz o Evangelho? É tão reconfortante saber que podemos ir ter com Jesus a qualquer hora, mesmo depois do sol-posto, e expor-Lhe as nossas feridas e os nossos corações dilacerados! Onde encontrar Jesus? Na casa de Pedro, claro! As multidões aglomeravam-se à porta, e a casa de Pedro ficava transformada num “hospital de campanha”, sem hora de fecho. Onde encontrar Jesus? Hoje, como ontem, Jesus está na “Casa de Pedro”: a Igreja. E hoje, como ontem, a porta está sempre aberta, para que passemos por ela e apresentemos ao Senhor o nosso pecado, a nossa dor, a nossa história. A Igreja, diz-nos o Papa, é um hospital de campanha. E os seus “médicos” leigos, consagrados, ordenados, precisam de estar dispostos a trabalhar “para além do sol-posto”.

Mas Jesus não fica apenas na Casa de Pedro: “Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também…” Porque, diz o salmo, o Senhor congrega os dispersos de Israel. Às vezes, é preciso ir procura-los longe, muito longe…

Se, como a sogra de Pedro, já fomos curados por Jesus; se Ele já nos tomou pela mão e nos levantou, dediquemo-nos a sério a servir os irmãos, como ela fez. Não fazemos mais do que a nossa obrigação, lembra-nos S. Paulo. Foi Deus que nos convocou. Da próxima vez que sentirmos a tentação da vaidade diante do nosso pequeno apostolado, ou a tentação de desistir por não vermos os nossos esforços recompensados, recordemo-nos de que somos chamados a ser – livremente – escravos de todos. Escravos! Como andamos iludidos, procurando que nos agradeçam, nos elogiem, nos ofereçam os primeiros lugares! A melhor recompensa é a de não termos nenhuma nesta vida, porque então o Céu será nosso.

É hora da missa. No altar, Jesus toma sobre Si todas as dores do mundo e transforma-as em dom. “Todos Te procuram”, diziam os discípulos. Sim, Jesus, todos Te procuramos, para que tomes as nossas dores e faças de nós também dom para os outros. Ai de nós se não evangelizarmos, como Tu nos evangelizas; ai de nós se não usarmos de compaixão para com todos, como Tu usas para connosco…

One Comment

  1. Catarina Silva

    Tão lindo…
    Tanto para pensar, para meditar e, sobretudo, para pôr em pratica! Tanto!

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