Em Caná da Galileia...


Domingo VI de Páscoa, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

SEMPRE PRONTOS A RESPONDER

Já estamos no Domingo VI de Páscoa! Nestes tempos difíceis de pandemia e confinamento, custa seguir o calendário litúrgico. Em vez de Domingo VI de Páscoa, parece-nos viver o Domingo X de privação eucarística. Não caiamos na tentação! É preciso adentrarmo-nos no mistério do ano litúrgico com ainda maior intencionalidade nestes tempos. O Senhor ressuscitou! Sejamos suas testemunhas, em alegria e boas obras.

No Evangelho, Jesus assegura-nos que nos enviará o seu Espírito, para estar sempre connosco. “Sempre” é, aqui, a palavra-chave. Jesus nunca abandona a Sua Igreja! Ele está para sempre connosco, no seu Espírito Santo. E esta Presença é paternal e maternal: “Não vos deixarei órfãos”. A presença dos amigos é boa, a de um esposo fiel é fantástica, a dos filhos é reconfortante. Mas quando nos sentimos assustados, o primeiro pensamento vai imediatamente para a mãe ou o pai. E chamamos por eles, mesmo quando eles já partiram há muito tempo… É visceral. Está inscrito na nossa memória emocional.

“Não vos deixarei órfãos”, diz-nos o Senhor. E não só nos oferece, pelo Espírito, o seu Pai por nosso Pai – “Quem Me ama será amado pelo Meu Pai” – mas ainda, pelo mesmo Espírito, a Sua Mãe por nossa Mãe, Ela que acolheu o Espírito como ninguém. “Não somos órfãos. Temos Mãe!” Repete-nos o Papa Francisco. Que felicidade a nossa!

Esta promessa do Espírito cumpre-se através da Igreja, na sucessão apostólica que professamos no Credo. Não é certamente por acaso que, no tempo pascal, lemos as Cartas de S. Pedro, o primeiro papa. Então como agora, o papa é o garante da unidade e da fidelidade da Igreja, que permite ao Espírito ser derramado em cada geração. Estejamos muito atentos ao que Pedro nos diz, por palavras e por gestos, especialmente nestes tempos difíceis de agonia para a Igreja!

Garantindo esta fidelidade a Pedro, os primeiros discípulos anunciavam o Evangelho, lançando a semente da Palavra, mas não consideravam o seu trabalho terminado enquanto os Apóstolos não o confirmavam. Os Atos deixam-nos hoje um trecho muito elucidativo da ação do diácono Filipe, que “desceu a uma cidade da Samaria e começou a pregar o Messias àquela gente.” Quando os Apóstolos “ouviram dizer que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João”. E é pela imposição das mãos de Pedro e João que os novos cristãos são crismados, recebendo a abundância do Espírito Santo prometido por Jesus.

Assim acontece também, até aos dias de hoje. Pela imposição das mãos dos nossos bispos ou dos seus delegados, os jovens cristãos de hoje são confirmados na fé. Terão, no entanto, recebido a Palavra com o entusiasmo dos samaritanos a quem Filipe pregou? Todos sabemos que a resposta é negativa para a grande maioria dos jovens crismandos das nossas paróquias. Estes tempos estranhos que a pandemia nos permite viver podem, contudo, tornar-se fecundos em boas práticas, se os decidirmos aproveitar para converter verdadeiramente a catequese, e para acordar, educar e fortalecer a Igreja Doméstica, a primeira a quem cabe oferecer a Palavra, por promessa feita no dia do matrimónio e repetida no dia do batismo de cada filho.

“Se Me amardes, guardareis os Meus mandamentos”, diz o Senhor. E repete: “Se alguém aceita os Meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama.” Esta aceitação, este guardar, traduz-se naquele conselho evangélico tão mal-amado e mal-entendido: obediência. Uma obediência que passa pela inteligência e pelo coração, pelo estudo da Doutrina e pela atenção a Pedro. A pandemia trouxe-nos, como belo fruto espiritual, uma exaltação do valor da obediência. Possamos então, em nome da obediência, descobrir o tesouro da doutrina católica, compilado no Catecismo e em documentos tão esquecidos e, até, rejeitados, como por exemplo a Humanae Vitae, de S. Paulo VI. Quando o povo católico for verdadeiramente obediente ao Senhor, a Igreja experimentará uma conversão profunda.

Estai, diz-nos Pedro, “sempre prontos a responder sobre as razões da vossa esperança. Mas seja com brandura e respeito”. Que Palavra oportuna! A decisão de manter a suspensão das missas comunitárias no país durante mais algum tempo tem causado discussões acesas entre católicos, partilhadas nos meios de comunicação social. Nada mais natural. Os Atos estão recheados de discussões entre os cristãos, pois o Espírito costuma gostar de alguma irreverência para atuar. O que está, contudo, a faltar hoje são estas “brandura e respeito” que Pedro pede. Leio com tristeza acusações absurdas, juízos de valor e maledicência sobre a vida pessoal dos cristãos, baseados apenas na sua tomada de posição sobre o tema. Obedecer não significa concordar, e a Igreja deve manter a mesma liberdade de expressão hoje que tinha nos tempos bíblicos e que herdou do Judaísmo. Jesus era o primeiro a gostar de uma boa discussão e a provocá-la!

Que o Espírito e a Mãe nos guiem num louvor eterno, e nos ajudem a testemunhar, como o salmista: “Vou narrar-vos tudo quanto Ele fez por mim.” Ámen. Aleluia!

One Comment

  1. Obrigado Teresa pela reflexão tão atual! Mais do que a obediência doutrinal, importa perguntar se sabemos realmente cada um responder sobre as razões da nossa esperança… é a chave para aceitar pacientemente e com confiança os desígnios destes tempos. Não vos deixarei órfãos promete o Senhor….e nos deixa um defensor que vive sempre connosco! E a morada que temos para Ele? Cuidamos dela? Onde queremos que Ele habite? Estes tempos de confinamento ajudam-nos a tomar mas consciência da necessidade de limpar a nossa casa, precisamos de o fazer mais vezes, a casa exterior e também a interior, a casa que queremos abrir à presença do Senhor! Que sejam tempos de verdadeira conversão e intimidade com o Senhor. Aprender a comungar espiritualmente é fundamental, saber colocarmo-nos em intimidade interior com Jesus Cristo ressuscitado! Deixar que o seu Santo Espírito derrame as suas graças sobre as nossas vidas e nossas famílias.

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