Em Caná da Galileia...


Domingo XII do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

NADA TEMOS A TEMER

Este domingo centra-nos num dos mistérios mais incompreendidos do cristianismo: a perseguição do bem e dos bons. Se pertencemos ao grupo dos perseguidos, alegremo-nos! Estamos do lado de Deus.

A verdade não é fácil de ouvir. Incomoda, sacode a vida, faz doer os joelhos dobrados em oração no chão frio, arranca-nos do sofá confortável. Se algum dia, a verdade não me levar à conversão, a um questionamento interior, por pequeno que seja, o mais certo é não se tratar da verdade, mas de uma imitação sem valor. E quantas há por aí, bem mais atraentes!

Não é de agora, claro. Jeremias, o profeta, “ouvia as invetivas da multidão: denunciá-lo! Vamos denunciá-lo!” O seu crime? Ter anunciado a verdade, ter proclamado a Palavra de Deus com fidelidade, incomodando os seus ouvintes.

Também no Evangelho, Jesus adverte para nos mantermos no caminho da verdade, pois “nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se.” Quando, pelo estudo da doutrina e pela oração, encontramos a verdade – que Deus nos comunica às “escuras” dentro da alma, “ao ouvido” do coração -, é preciso que tenhamos também a coragem de a viver e proclamar: “O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados.”

Vivemos tempos de apostasia. A verdade chega-nos misturada com a mentira, uma mistura tão ardilosa, que confunde pastores e ovelhas. Com medo de perder as multidões, muitos preferem sacrificar a verdade, aguar o vinho, dessalinizar o sal. Pensamos atrair cristãos ao falar da misericórdia divina sem falar da miséria humana, ao falar do perdão de Deus sem falar do pecado dos homens, ao falar na liberdade de filhos sem falar no castigo que nos causamos com o nosso pecado, como diz Jeremias: “possa eu ver o castigo que dareis a esta gente…”

Pensamos atrair cristãos facilitando, amenizando, tolerando. Pensamos atrair cristãos por caminhos politicamente corretos, aderindo a agendas mundanas e pecaminosas. Há, por exemplo, escolas católicas no mundo a aderir ao “Mês do Orgulho Gay”, que se celebra em junho; ou a atrair alunos para o próximo ano letivo lisonjeando a vaidade humana, com um “ensino de excelência e distinção académicas”, esquecendo por completo a identidade cristã que, isso sim, as devia distinguir.

Há paróquias a encher páginas de Facebook com instruções sobre segurança sanitária nas igrejas, ou com apelos a que as pessoas venham à missa, porque é seguro. Mas as igrejas não vão encher com garantias de segurança, pois as garantias de segurança não atraem os cristãos. À semelhança de Jeremias e, acima de tudo, à semelhança de Jesus, os cristãos só podem ser atraídos pela perseguição, pelo risco e pela cruz: “Devorou-me o zelo pela vossa casa e recaíram sobre mim os insultos contra Vós”, canta o salmista, rimando fé com perseguição, amor com dor.

Contestando as falsas seguranças que o mundo dá, Jesus lembra-nos: “A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus. Mas àquele que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus.”

“Não tenhais medo dos homens”, diz-nos ainda, no seu estilo carinhoso. “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma”, descansa-nos. Pois se é importante cuidar, e cuidar bem, do mais pequeno passarinho, que se vende por uma moeda; se é importante cuidar, e cuidar bem, da nossa saúde, da saúde dos irmãos, da nossa segurança física, do bem-estar de todos, é infinitamente mais importante cuidar da nossa salvação eterna e da salvação eterna dos nossos irmãos: “Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.”  E por esta salvação, vale a pena correr qualquer risco.

Não temos que temer. Deus, “que sonda o justo e perscruta os rins e o coração”, cuidará de nós: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.” Acaricio a cabecinha loira do meu bebé de ano e meio, e imagino a mão de Deus sobre as nossas cabeças, loiras ou morenas, uma mão bem mais carinhosa… “Ninguém te fará mal, nem que me mate”, murmuro eu ao meu bebé, estreitando-o contra o meu coração; e murmura-nos o Crucificado, Aquele que trocou de lugar connosco, para morrer em nossa vez, estreitando-nos contra o Seu Coração: “Se pelo pecado de um só homem todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens.” Pois foi morrendo que Jesus “salvou a vida do pobre das mãos dos perversos”, oferecendo-lhe a eternidade.

Hora da missa. Não há nada mais arriscado do que vir à missa, nem nenhum lugar mais perigoso do que a tua igreja, Senhor. Pois não é na missa e diante do sacrário que aprendemos a amar como Tu nos amaste? E não é isto verdadeiramente um comportamento de risco, porque nos incita a dar a vida – por Ti e pelos irmãos? Que eu possa sempre proclamar sobre os telhados as maravilhas do Teu amor! Ámen.

“O dia-a-dia” na casa dos Power…

 

 

 

 

 

 

One Comment

  1. Obrigada.

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