Em Caná da Galileia...


Domingo XIV do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

ALEGRIA E ALÍVIO

É um Deus alegre e bem-humorado, contente com o seu povo humilde, o que hoje nos chama aqui.

“Exulta de alegria!” Diz-nos, através do profeta Zacarias. “Solta brados de júbilo!” Saberemos nós o que é exultar, rir à gargalhada, a cabeça para trás, os olhos cerrados por pura felicidade? Não sei se, alguma vez, experimentámos algo semelhante na nossa relação com Deus. Penso na Santa Missa, o dom mais precioso que Deus nos oferece sobre a Terra. Estaremos a viver tempos de exultação e a soltar brados de alegria, agora que recuperámos o dom, de que estivemos tanto tempo privados? Dar-nos-emos conta do milagre?

“Eis o teu Deus, o salvador, que vem ao teu encontro”, diz o Senhor ao seu povo, e diz-nos a nós em cada Eucaristia, Ele que não hesita em todo Se nos entregar, “humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta”. Não há maior humildade que a de Jesus Hóstia, Jesus feito Pão, humildade ainda maior que a improvável imagem de um rei chefiando um exército montado num jumento.

Como é infinitamente pequeno, Jesus Hóstia, Deus escondido numa migalhinha de Pão sagrado! Que pode esta vulnerabilidade diante dos “carros de combate de Efraim” e dos “cavalos de guerra de Jerusalém”? E, no entanto, é na vulnerabilidade e na humildade que “será quebrado o arco de guerra.” Pois o nosso Deus é “manso e humilde de coração”, como diz o Evangelho.

É este Coração que pulsa na Hóstia Santa. Assim nos revelou o Senhor nos nossos dias, no milagre eucarístico de Sokólka, Polónia, a 12 de outubro de 2008: sofisticadas análises científicas concluíram que o fragmento de Hóstia analisado e milagrosamente a sangrar corresponde ao tecido do músculo do coração de uma pessoa viva, mas em estado de agonia. E este tecido está milagrosamente entrelaçado com moléculas de pão.

A nossa grandeza, como a de Jesus, está na nossa pequenez. É a sensação de impotência face aos desafios do mundo e a consciência de que não passamos de “pequeninos”, que irá obter junto de Deus o milagre do Seu triunfo. Porquê, esta forma de agir divina? “Porque assim foi do Teu agrado”, diz Jesus. Porque sim, diríamos nós.

Precisamos então de nos alegrarmos na nossa pequenez, em vez de procurarmos formas grandiosas de agir. A santidade – única força realmente transformadora da História – esconde-se na vida simples de cada um, vivida eucaristicamente, como Jesus viveu a Sua: abençoada, partida, entregue, ainda que em “estado de agonia”, ou como diz o Evangelho, ainda que nos sintamos “cansados e oprimidos”. O Papa Francisco escreveu-o: “Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra.” (GE, nº 14) E a Madre Teresa dizia muitas vezes às suas Irmãs: “Não somos chamadas a fazer grandes coisas, mas a fazer pequenas coisas com um grande amor.”

Estejamos, pois, atentos aos pormenores. “Apanhar uma agulha do chão, por amor, pode salvar uma alma. Que mistério!” Escrevia Santa Teresinha, a mestra da Infância Espiritual. Não deixemos escapar nenhuma oportunidade de santificação, ainda que pareça irrelevante: uma palavra delicada, lavar a louça quando já passou a nossa vez, calar uma murmuração, deixar o outro ter razão.

Estejamos também atentos à nossa impotência face ao inevitável, sejam doenças e crises que nos surpreendem, sejam decisões que a nossa fé torna obrigatórias, na moral, na justiça, no dever. É de facto nos detalhes da vida e na fidelidade das decisões que tomamos, que se trava a luta entre a “carne” e o “espírito”, em linguagem paulina. É preciso, como Jesus, morrer para ressuscitar, renunciar aos apelos do mundo, às carícias da vaidade humana e dos elogios fáceis, para que possam florescer as sementes das virtudes cristãs, recebidas no Batismo.

Parece difícil, esta recusa do que é sensato aos olhos dos homens, para cumprir heroicamente o próprio dever? “O meu jugo é suave e a minha carga é leve,” assegura Jesus. A poucos dias da sua morte, a 13 de junho de 2012, Chiara Petrillo contemplava, embevecida, o sacrário. Tinha visto morrer dois filhos recém-nascidos, com graves deficiências; durante a gravidez do terceiro, ao descobrir-se cancerosa, tinha recusado a quimioterapia que a podia ter salvo, preferindo salvar o filho. Nada mais restava para dar. Sabendo o que o mundo pensava das decisões insensatas da sua mulher, o marido interrompeu a oração de Chiara para lhe fazer a pergunta: “Chiara, é mesmo verdade que a Sua carga é leve?” Chiara sorriu e confirmou: “Sim, Enrico, é mesmo verdade…” Só o sabe quem o experimenta. A alegria esfuziante do Deus bíblico transborda nos corações pequeninos.

Hora da missa. “Vinde a Mim”, dizes com alegria, e eu venho, pois não sei viver sem Ti. Contemplo-Te na Cruz transformada em altar…. Humildemente, como um Rei montado num jumentinho, deixas que eu Te parta o Coração, e logo derramas sobre mim todo o Teu amor. Os “sábios e entendidos” nunca conseguirão alcançar o milagre que aqui acontece… “Eu Te bendigo!”

 

 

 

 

3 Comments

  1. Pilar Pereira

    Li e refleti, mas garantidamente vou reler e dar a ler. Obrigada! Bjs

  2. ANA MARIA JORGE RIBEIRO ALVES

    li com interesse.

  3. Não é fácil, não… Mas há um caminho, um propósito… Tanta coisa para refletir e meditar… Muito obrigada Teresa por este texto! Beijinhos!

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