Em Caná da Galileia...


Domingo XIV do Tempo Comum, ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

ACOMODADOS OU LEVANTADOS?

Só a Palavra de Deus consegue, de uma vez, incomodar profundamente, remexendo nos nossos preconceitos, e confortar-nos também profundamente, provando-nos que não há nenhuma limitação humana que impeça a graça de Deus de atuar em e através de nós.

“Naqueles dias, o Espírito entrou em mim e fez-me levantar”, conta o profeta Ezequiel, recordando o seu chamamento. Como no domingo passado e em tantos outros, também hoje nos é dito que a primeira ação de Deus nas nossas vidas consiste em fazer-nos levantar. “Levanta-te”, repete o Senhor do Génesis ao Apocalipse, e repete-o todos os dias. O Papa Francisco tem denunciado os “cristãos de sofá”, acomodados a este mundo, recebendo as notícias de sofrimento dos irmãos pelo televisor enquanto tomam uma bebida refrescante. Precisamos, hoje e sempre, que o Espírito do Senhor nos faça levantar, nos incomode, nos desinstale. Precisamos de nos sentir enviados.

Como o profeta Ezequiel, talvez o nosso principal obstáculo seja a sensação de inutilidade da profecia. Hoje, como ontem, somos enviados “a um povo de cabeça dura e coração obstinado”. Parece-nos que a denúncia e o anúncio são em vão e por isso não nos damos ao trabalho de nos levantarmos. Para quê? Mas Deus não olha ao resultado. A Ele, só importa o nosso esforço. “Saberão que há um profeta no meio deles”, diz-nos. Não desanimemos nem baixemos os braços ou a voz! Levantemo-nos e, com coragem, proclamemos: “Eis o que diz o Senhor”.

E foi para cumprir a sua missão que Jesus regressou um dia à sua terra. Fazendo uso dos seus direitos de judeu adulto, entrou na sinagoga e comentou a Palavra proclamada. Mas os seus conterrâneos não Lhe deram crédito: como se atrevia o carpinteiro da aldeia a comentar a Palavra de Deus? Essa era a tarefa dos Doutores da Lei e outros intelectuais. Jesus era de origem humilde, oriundo de uma terra que nenhum livro do Antigo Testamento ousa sequer mencionar, tal a sua insignificância.

Esta Palavra continua a ser pedra de tropeço para nós. De facto, não só no mundo, como também na Igreja temos imensa dificuldade em dar crédito a alguém que não tenha o Dr atrás do nome. Basta pegarmos num qualquer desdobrável anunciando um evento para nos apercebermos que a primeira informação que nos é fornecida é o título honorífico do palestrante e o curso que concluiu. Como os conterrâneos de Jesus, dois mil anos depois também nós temos dificuldade em dar ouvidos a um qualquer “filho de carpinteiro”, não importa o quão profético seja o seu testemunho.

E no entanto, Deus continua a confundir-nos. Escolhe três pastorinhos ignorantes, na mais remota aldeia serrana de Portugal, para lhes confiar uma mensagem para o mundo inteiro; escolhe doutores da Igreja entre gente iletrada, como Santa Catarina de Sena; escolhe para padroeiro dos sacerdotes um humilde padre com graves limitações intelectuais, tão graves que os seus superiores decidiram enviá-lo para a mais insignificante aldeia da diocese, Ars; vai buscar grandes papas “ao fim do mundo”, como o Papa Francisco afirmou no dia da sua eleição, ou como S. João Paulo II…

Aos Coríntios, S. Paulo explica a forma de agir de Deus: “Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder”, diz-lhe o Senhor. Deus sente uma atração irresistível pelo último lugar e pelos que o ocupam. A nossa miséria atrai a sua misericórdia como um íman. O nosso nada atrai o seu tudo como força gravítica. Pelo contrário, a nossa mania das grandezas afasta-O para longe de nós. Assim, precisamos de baixar a nossa voz para escutarmos a de Jesus; baixar a nossa cabeça para que o mundo veja a sua; diminuir para que Ele cresça. Só a humildade conquista o Coração de Deus.

Por isso S. Paulo considerava providencial o “espinho na carne” que tanto o incomodava, uma qualquer limitação física, psíquica ou espiritual com que teve de lidar talvez a vida inteira. Esta sua luta fazia-o tomar consciência do contraste entre a grandeza de Deus e a sua pequenez, abandonando a vaidade que nos torna ridículos diante de Deus e fixando em Jesus os seus olhos “como os olhos do servo se fixam nas mãos do seu senhor”.

Assim, é com alegria que somos desafiados a acolher as dificuldades, as doenças, a falta de reconhecimento dos demais, as limitações inerentes à nossa condição humana concreta: nada pode impedir o Senhor de agir em e através de nós! Pelo contrário: “quando sou fraco, então é que sou forte”.

Missa de domingo. Estamos aqui porque escutámos o apelo do Senhor: “Levanta-te!” E vamos escutá-lo de novo no fim, ao sermos, como Ezequiel e Paulo, enviados. Não vamos ripostar, lamentando não ter a fama, as condecorações, a saúde ou a inteligência adequadas, nem nos vamos vangloriar, considerando-nos superiores aos demais por algum título mundano. Vamos simplesmente, esquecidos de nós mesmos, entregar-nos ao seu cuidado e anunciá-l’O a todos com alegria. “Basta-te a minha graça!” Ámen.

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