Em Caná da Galileia...


Domingo XIV do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

SOMOS OS TRABALHADORES, NÃO A SEMENTE

 “Naquele tempo, designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente…” A Alegria do Evangelho recorda-nos que somos “Igreja em Saída”, que somos missionários pelo simples facto de sermos cristãos. Não há outra maneira de viver a nossa fé senão anunciando-a aos que nos rodeiam, como diz o Papa: “Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus. Não digamos mais que somos «discípulos» e «missionários», mas sempre que somos «discípulos missionários»” (EG nº 120)

Jesus enviou os discípulos dois a dois, num gesto de muita humanidade, mas também de muita prudência. Na verdade, acompanhados estamos mais seguros e somos mais felizes; mas acompanhados, também corremos menos riscos de transmitir uma opinião pessoal ou erros doutrinários, pois somos de imediato corrigidos ou contrabalançados pelo irmão. Assim hoje também: o Senhor continua a enviar os seus discípulos, reunindo-os em comunidades, paróquias, movimentos, e reunindo a grande maioria na primeira de todas as comunidades, a família, para que, juntos, sejam mais felizes; e para que, juntos, se corrijam e edifiquem uns aos outros.

Jesus não enviou os discípulos em sua vez, mas “à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir.” Somos os trabalhadores da seara, não somos a Semente. O nosso trabalho consiste em preparar a terra para a Sementeira, os corações para a Palavra Encarnada, Jesus. Mas se depois Ele não vier, de nada valeu ter a terra pronta, os corações amolecidos! O verdadeiro trabalho de conversão só pode ser feito pelo próprio Senhor. Assim, não adianta organizarmos belos encontros cheios de animação, cantos e jogos, capazes de atrair multidões, se pararmos aí. Isso também o mundo é capaz de oferecer! É preciso depois oferecer-lhes Jesus, presente especialmente na Palavra e nos sacramentos da Confissão e da Eucaristia. Então sim, haverá conversão, e teremos cumprido a nossa missão.

“Não andeis de casa em casa”, diz-nos o Senhor, encorajando-nos a não procurar continuamente a novidade e a aventura, mesmo em termos espirituais, antes a alegrarmo-nos com a rotina e os companheiros habituais, em casa como na paróquia, na comunidade como no movimento.

“Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria”. Assim nos sentimos nós também, quando regressamos de missões concretas, transbordando alegria, emoção e gratidão. Quase que conseguimos ver, como Jesus, “Satanás cair do Céu como um relâmpago”, quando, numa Eucaristia muito participada, uma oração muito carismática, ou cânticos muito emotivos, nos entregamos à alegria de evangelizar.

Mas Jesus, mestre da verdade, não nos quer perdidos em ilusões. “Não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem”, diz. Não nos alegremos porque as nossas missões são bem-sucedidas! A nossa alegria não pode depender dos resultados que obtemos. Deus não olha sequer para eles! Para Deus, o que importa é o amor que colocamos em cada gesto, a intenção por detrás de cada ação, mesmo que tudo pareça ter fracassado.

“Alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus,” conclui Jesus. Já em Isaías, o Senhor anunciara: “Em Jerusalém sereis consolados”, para que não nos esquecêssemos de que a nossa pátria é o Céu, a Jerusalém Celeste. E que é o Céu senão o amor de Deus? Sabermo-nos realmente amados, eis a verdadeira alegria, a carícia divina que nos envolve como a mãe que transporta “os meninos de peito” ao colo.

Quem assim se alicerça no amor divino antecipa a felicidade eterna, trazendo para o aqui e o agora da sua vida presente aquele futuro de amor que o profeta anunciou: “Farei correr para Jerusalém a paz como um rio.” Por isso, Jesus anuncia: “Nada poderá causar-vos dano”, nem serpentes, nem escorpiões, nem a doença, nem a perseguição, nem a pobreza, nem a maledicência, nem a traição. Somos ovelhas no meio de lobos, mas hão de ser os lobos a ter medo das ovelhas! “Recorda: tudo o que te deprime e inquieta é falso. Eu to asseguro em nome das leis da vida e das promessas de Deus”, escreveu Teilhard de Chardin. Alicerçados em Deus, o nosso nome escrito no Céu, estaremos sempre a salvo.

Hora da missa. Viemos dois a dois, três a três, família a família… A “cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”, em que Paulo se gloriava, está diante de nós, feita altar. Diante dela, tudo o resto deixa de ter importância. Os nossos nomes estão escritos no Céu, sim, mas foram escritos a Sangue, tatuados por uma lança e três cravos afiados… Sentir-nos-emos suficientemente interpelados para subirmos a esta mesma cruz, aceitando alegremente qualquer ferida – ou estigma – que o amor possa abrir em nós, como abriu n’Ele? Então, também o mundo estará “crucificado para nós e nós para o mundo”. Nada mais desejaremos do que deixar tudo e partir em missão, não para longe, não para o fim do mundo, mas tão simplesmente de volta à nossa rotina, à seara do nosso trabalho e da nossa família…

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