Em Caná da Galileia...


Domingo XV do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

A PALAVRA ESTÁ PERTO DE TI

As leituras de hoje são um belíssimo resumo de toda a História da Salvação – a salvação de cada um de nós, e a salvação de cada irmão, que Deus quer realizar através de cada um de nós.

“Escutarás a voz do Senhor teu Deus”, diz-nos Moisés. Somos tentados a reagir: para ti, Moisés, era tão fácil! Tu falavas com o Senhor “face a face”, e o teu rosto inteiro se iluminava na sua presença! Para nós, não é assim tão evidente. A voz de Deus nem sempre Se faz ouvir por cima das vozes do mundo, essas sim, sonoras e claras!

Mas Moisés tem a resposta pronta: não precisamos de êxtases ou revelações para escutar a voz de Deus. De facto, escutamo-la cada vez que tiramos a nossa Bíblia da estante onde apanha pó e a lemos, para podermos cumprir “os seus preceitos e mandamentos que estão escritos no Livro da Lei.” Assim, na maior parte das situações do nosso dia-a-dia, não precisamos de mais nenhuma revelação para além do que está escrito nas Escrituras. Os Dez Mandamentos, o Sermão da Montanha, as parábolas de Jesus e cada um dos seus gestos proféticos são suficientes para iluminar o nosso viver e o nosso agir. “Os mandamentos do Senhor são claros e iluminam os olhos”, diz o salmista. De facto, os mandamentos do Senhor são tão evidentes, que nos custa compreender a cegueira do nosso mundo, proclamando leis tão contrárias à de Deus e apelidando-as com palavras bonitas como tolerância, respeito e direitos humanos…

Sim, mas – como nós gostamos dos “mas”! – a Palavra do Senhor é demasiado exigente. Só alguns iluminados a conseguem praticar! Será? De novo, Moisés responde: “Este mandamento que hoje te imponho não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance.” Vários séculos antes de Jesus nascer, já Moisés proclamava o chamamento universal à santidade que, vinte séculos depois de Jesus, o Concílio Vaticano II vai restaurar, e que hoje o Papa Francisco resumiu na sua Exortação “Chamados à Santidade”: “Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. (…) Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra.” (nº 14)

“Esta Palavra está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática”, conclui Moisés. Façamo-la perto, então! Tenhamos a Bíblia à mão, de preferência, o missal com as leituras da missa diária, e não deixemos passar um único dia sem meditar nesta Palavra, explicando-a aos mais novos e partilhando-a com quem vive connosco. Veremos assim como “os preceitos do Senhor alegram o coração”.

Um doutor da lei aproxima-se de Jesus “para O experimentar”, diz o Evangelho. Quer saber o que é preciso para ser salvo. Tal como Moisés, também Jesus responde com as Escrituras. Está lá tudo, diz. Basta pôr em prática. Mas o doutor da lei, que conhecia bem a Lei, não a consegue entender. Este é, também, o nosso problema ao ler as Escrituras. Por vezes, falta-nos profundidade, para entender o que o Senhor nos quer dizer. Não desanimemos: a profundidade não se adquire de um dia para o outro, antes se vai adquirindo com muitas horas de oração. Mais importantes que os anos de estudo, são os joelhos gastos em oração diante do sacrário. É aí que as Palavras se descobrem “mais doces que o mel”, como diz o salmo.

Um pequeno leitor deste site em adoração, no dia da sua Primeira Comunhão

“Quem é o meu próximo?” Pergunta então o doutor da lei. Conhecemos a resposta, que podemos resumir assim: não perguntes “quem é o meu próximo?” Pergunta antes a ti próprio, “de quem me posso eu aproximar?” Podemos fazer-nos próximos dos irmãos que vivem longe, respondendo com generosidade a todas as campanhas em seu favor; mas não temos como fugir a aproximarmo-nos dos irmãos que vivem perto, ou até dentro da nossa casa, aqueles “por quem passamos”, como diz a parábola, aqueles que estão “ao nosso alcance”, como diz Moisés. O nosso primeiro próximo é o nosso cônjuge, os nossos filhos, os nossos pais. E segundo a parábola, é preciso “ser-se próximo” até ao fim. Penso na mãe que cuida amorosamente do filho com deficiência, da filha que cuida amorosamente da mãe demente. Penso na esposa que não abandona o marido alcoólico, no marido que recebe de volta a mulher que o traiu. Amar até ao fim. “Esta Palavra está perto de ti”…

Hora da missa. O Hino de S. Paulo aos Colossenses eleva os nossos corações para que participemos, ainda que sem nada entender, neste mistério insondável de Deus: “Cristo Jesus é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura…” Olhamos em volta, para os irmãos de quem o Senhor espera que nos tornemos próximos. A Igreja é um Hospital de Campanha, montado nos campos de guerra deste mundo sem Deus, repete o papa. Talvez Jesus nos quisesse dizer algo mais… Talvez Ele nos quisesse dizer que o Bom Samaritano é mesmo Ele, e nós, o homem ferido, caído, necessitado de socorro. Na “estalagem” da Casa de Deus, neste Hospital de Campanha que é a Igreja, estamos a salvo. Ele voltará! E a conta, essa, já Ele pagou, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus.” Ámen!

PS – E por falar em Bom Samaritano… Lembram-se do Serão Bíblico do nosso Primeiro Acampamento de Caná?

Família Power e três amiguinhos. O vídeo começou a ser filmado no momento em que o homem ferido é confiado ao estalajadeiro e à sua esposa… Sofia Portela à guitarra

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