Em Caná da Galileia...


Domingo XVI do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

COMUNICAVA COM PARÁBOLAS

“Naquele tempo, disse Jesus às multidões mais esta parábola…” Escrevo este texto na montanha, enquanto a minha família brinca na água e nas rochas, e o espaço entre nós traz as suas vozes montanha abaixo, sem que precisem de gritar. Aqui é fácil imaginar Jesus a contar histórias, a Sua voz rebolando nas encostas, e as multidões, silenciosas, acotovelando-se para não perder uma Palavra… Escutemos nós também!

“O Reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo”. “E Deus viu que era tudo muito bom” (Gn 1, 31), diz o Génesis. Esta bondade primordial da Criação é-nos restituída no Batismo, quando a semente da graça divina é infundida em nossos corações. E ao longo da vida, o Semeador continuará a semear boa semente no nosso campo. Não deixemos endurecer a terra!

“Quando todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.” É sempre esta a técnica do inimigo: esperar que adormeçamos para semear o joio no campo da alma, da vida, da família. Hoje, como nunca, é preciso que vigiemos. Porque no passado, se a família adormecia, a “aldeia inteira” vigiava por ela. Mas hoje, se a família adormece, a “aldeia global” não tem como proteger os nossos filhos do inimigo. As sementes do joio são lançadas no campo das crianças até durante os minutos diários em que veem desenhos animados nos canais públicos da televisão, como nos demos conta por estes dias no nosso país. Acordemos! Vigiemos! Não desiludamos o Senhor, que nos confiou a sementeira do campo dos mais pequeninos!

“Queres que vamos arrancar o joio?” Perguntam os anjos de Deus. E perguntamos nós, impacientes, ao Senhor, diante de tanto mal que vemos crescer à nossa volta e dentro de nós próprios. Que intransigência! Se dependesse de nós, há muito que o mundo teria acabado…

A grande surpresa é precisamente a resposta do Senhor: “Não! Não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa.” Qual o agricultor que deixa as ervas daninhas crescer ao mesmo tempo que as ervas boas? Só o Agricultor divino! Porque só o Agricultor divino chora a perda de uma só espiga. Para Deus, as multidões não existem, pois como dizia a Madre Teresa, Ele só sabe contar até um. O mesmo Pastor que deixa 99 ovelhas para dar a vida por uma, é agora o Agricultor que deixa o joio crescer para que não se venha a perder um só grão de trigo. Quanto ao joio, terá, na colheita, o seu destino – a fogueira, o Inferno, esse dogma em que muitos, infelizmente, deixaram de acreditar, mas que é continuamente reafirmado por Jesus.

Separar o trigo do joio é tarefa do Juízo, particular e final. A nós, Igreja, cabe-nos conviver, serena e alegremente, com bons e maus. Hoje, e perante o ataque generalizado do Maligno, que espalha o joio às mãos cheias, a tentação é a de separar. E até a vida familiar pode sofrer desta tentação, como diz o Papa: “Nenhuma família pode ser fecunda se se concebe como demasiado diferente ou separada. Para evitar este risco, lembremo-nos de que a família de Jesus, cheia de graça e sabedoria, não era vista como uma família estranha, como um lar alheado e distante da gente.” (AL nº 182) Nem as famílias, nem as paróquias podem cair num medo doentio do mundo. Imitemos o Mestre, que comia com os pecadores (cf. Mt 9, 11), e deixemos a Deus a separação final.

A verdade é que todos beneficiamos da infinita paciência de Deus. Pois se Ele nos exterminasse quando pecamos, qual de nós estaria ainda vivo? O poder de Deus, diz-nos a Sabedoria, manifesta-se precisamente na recusa em proceder da forma mais fácil e instintiva, isto é, em nos aniquilar: “mas Vós, o Senhor da força, julgais com bondade e governais-nos com muita indulgência, porque sempre podeis usar da força quando quiserdes.” O nosso Deus é um Deus de segundas, terceiras, infinitas oportunidades: “aos vossos filhos destes a esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.” Como o Senhor procede connosco, assim devemos nós proceder com os irmãos.

Talvez nos pareça, hoje, que o joio é mais abundante que o trigo. Na nossa mesquinhez tão mundana, talvez não nos estejamos a dar conta do que, de facto, está a acontecer nos nossos tempos de terrível apostasia, de igrejas esvaziadas e de compromissos com o mundo: “O Reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado”… No interior da massa, ainda que não o vejamos, vai crescendo, silencioso, o fermento do amor. Como diz o salmo, “todos os povos que criastes virão adorar-Vos, Senhor.” Vai mesmo ficar tudo bem!

Hora da missa. Espírito, “vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações!” A nossa forma de pensar é tão diferente da Tua! Senhor, que a Hóstia Santa que hoje vou receber Se torne fermento dentro de mim, capaz de levedar os meus pensamentos, as minhas ações, a minha vida inteira, a minha família e o pedaço do mundo onde eu vivo… Ámen!

2 Comments

  1. Estas reflexões fazem bem à Alma! Obrigada!

  2. Tantos pontos para refletir… Muito obrigada Teresa! 🙂

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