Em Caná da Galileia...


Domingo XVI do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

A MELHOR PARTE

As histórias do patriarca Abraão merecem ser conhecidas de cor por cada um de nós, seus descendentes, e escutadas com o mesmo carinho com que escutamos as histórias dos nossos avós, ao redor da mesa familiar. Quanto a aprender com este gigante da fé!

O calor apertava. “Abraão estava sentado à entrada da sua tenda”, descansando. “Ergueu os olhos e viu três homens…” Ou seria só um? A leitura vai alternando entre o plural e o singular, mas quando se lhes dirige diretamente, Abraão diz sempre” meu Senhor”. Os Padres da Igreja viram nesta confusão gramatical uma referência à Santíssima Trindade: Deus Uno e Trino. Sempre me pareceu muito próprio do Senhor esta forma de Se servir das nossas fraquezas – mesmo que apenas “fraquezas gramaticais” – para nos falar. Dois mil anos antes de Cristo, Deus apresenta-nos o mistério da sua essência na simplicidade de um relato primitivo.

“Logo que os viu, Abraão deixou a entrada da tenda e correu ao seu encontro”. Depois, com a ajuda de Sara, preparou-lhes uma refeição. E que refeição! Sara foi buscar farinha, amassou o pão e cozeu-o no borralho; Abraão foi ao rebanho buscar um vitelo tenro, que o seu servo tratou de “preparar”, ou seja, matar, esfolar, cortar, limpar, assar. Quanto tempo terá tudo isto levado? Quando nos queixamos das dificuldades da vida moderna, não nos damos conta de como a temos facilitada, com os seus hipermercados, talhos, frigoríficos, alimentos pré-cozinhados!

E no entanto, seremos capazes da generosidade de Abraão? Não precisamos de ir ao rebanho escolher um animal para preparar uma refeição, mas talvez tenhamos de sair do nosso conforto para ajudar um familiar doente… “Abraão ergueu os olhos”, diz-nos a Escritura. Num destes dias, numa repartição pública, quem me atendeu não se dignou sequer levantar os olhos do computador enquanto falava comigo… “Não passeis adiante sem parar em casa do vosso servo”, diz Abraão ao Senhor. Mas quando alguém nos toca à porta inoportunamente, fingimos que não estamos… “Enquanto comiam, ficou de pé junto deles debaixo da árvore”, lemos. Abraão e os três estranhos – ou seria só um? –conversaram então longamente. Mas nós preferimos passar a refeição familiar com a televisão ligada, e mandamos os filhos calar se interromperem o telejornal…

Dois mil anos depois de Abraão, estavam duas irmãs sentadas à porta da sua casa, em Betânia. Uma chamava-se Marta, a outra, Maria. De repente, uma grande agitação na rua fê-las perceber que Ele estava perto. Que alegria! Tal como Abraão, também elas iam ser visitadas por Deus e pelo Homem, por Deus feito Homem, por Deus escondido no Homem… Marta e Maria abriram a porta da sua casa e acolheram-n’O com intenso entusiasmo.

Com Jesus, vinham também os doze Apóstolos. As duas irmãs não tinham mãos a medir: era preciso preparar uma refeição suficiente para todos, bem como um lugar para dormirem. “Marta atarefava-se com muito serviço.” Mas Maria, com uma ousadia rara numa mulher judia de então, “sentada aos pés de Jesus” na atitude típica do discípulo, “ouvia a sua Palavra.”

Que fez Marta de errado que merecesse a censura de Jesus? O trabalho era mesmo muito, e alguém tinha de o fazer. Não foi exatamente o que fizeram Abraão, Sara e o servo, preparar uma bela refeição? Jesus não censura Marta pelo seu empenho. É a sua dispersão interior que o Senhor censura. Enquanto Abraão pôs todo o seu empenho em servir os três misteriosos visitantes, nunca retirando deles o olhar, nunca afastando deles o pensamento, Marta estava dispersa, “inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária.” Abraão preparou uma refeição para depois, calmamente, a saborear com os seus visitantes. Marta não teve tempo para comer com Jesus. Serviu-O, levantou a mesa, lavou os pratos. Perdeu “a melhor parte”, disse-lhe o Senhor.

Dois mil anos antes de Cristo, o episódio de Abraão em Mambré já ilustrava “o mistério que ficou oculto ao longo dos séculos e que foi agora manifestado aos seus santos”, como diz S. Paulo. E que mistério é este? “Cristo no meio de vós”, escondido no nosso próximo. Praticando a hospitalidade para com o irmão, praticamo-la para com o próprio Jesus, o mesmo que passou por Betânia e foi recebido por Marta e Maria. A recompensa, às vezes nesta vida, às vezes só no Céu, é sempre a cem por um: “Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho.” Mais, não podia Abraão desejar.

Hora da missa. Que agitação é esta na praça? Que cânticos, que entusiasmo, que estremecimento é este cá dentro e à minha volta? Ergo os olhos… O Deus Uno e Trino está sobre o altar, escondido na refeição que vamos partilhar. Não, não fui eu que a preparei: foi o próprio Senhor que “correu ao rebanho” e escolheu o Cordeiro Imaculado, foi o próprio Senhor que amassou a farinha e cozeu o pão. Ele vai passar à minha porta, a refeição nas mãos para me oferecer… Terei tempo, terei fome para O acolher? Como Maria, também eu quero escolher a melhor parte…

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