Em Caná da Galileia...


Domingo XVIII do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga (o jornal entra agora de férias, pelo que esta rubrica regressará no final de agosto)

O QUE ACUMULAMOS NO CELEIRO?

Hoje, a Palavra vai introduzir-nos nos nossos próprios celeiros, para verificarmos o que por lá acumulamos. Estaremos a tornar-nos ricos aos olhos de Deus?

“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, diz Coelet na primeira frase do seu livro, frase que continuará a repetir até ao fim. É um refrão que também eu gosto de repetir, quando dou conta dos sentimentos e pensamentos que me ocupam ao longo do dia. Fazemos e dizemos tanta coisa por vaidade! Em casa, no trabalho e até na paróquia, quantas vezes agimos para parecer bem, para que nos elogiem, para que falem de nós! Raramente a nossa intenção é realmente pura, raramente agimos ou falamos por amor, sem qualquer outro motivo que não agradar a Deus e servir o irmão. É um bom exercício, este de examinarmos a nossa intenção antes de qualquer gesto generoso! Estaremos então a tempo de a purificar, oferecendo a Deus o desejo de um coração puro.

Mas Coelet não se refere apenas a intenções. Ele questiona o próprio resultado do nosso trabalho. De que nos serve tudo o que aprendemos, construímos e possuímos? Coelet afirma: “Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que nada fez”. E no Evangelho, Jesus termina a parábola do Rico Insensato de forma parecida: “Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?”

A resposta parece-nos evidente: para os nossos filhos e netos, para o nosso povo, para a História! Não somos, todos nós, herdeiros uns dos outros? Não trabalhamos nós, para que os nossos filhos possam herdar o fruto do nosso trabalho? O problema, contudo, é mais profundo: e eles? Irão eles morrer, deixando também tudo a outros? O que levamos, então, connosco? O que levarão os nossos filhos e netos com eles, quando também eles se apresentarem diante do Senhor? Que herança, afinal, lhes estamos a deixar? Porque para o Céu, nem nós, nem eles, podemos levar dinheiro, fama, poder, saúde, glória, saber científico ou tecnológico.

No dia 13 de setembro de 1917, a pastorinha Lúcia, ingenuamente, tentou oferecer a Nossa Senhora um frasquinho de água-de-colónia que alguém lhe entregara para o efeito. “Isso não serve para o Céu”, respondeu Maria, sorrindo delicadamente enquanto recusava o presente. E quando alguém apresentou ao santo Padre Pio a sua tese de doutoramento, um livro grossíssimo, pedindo-lhe que abençoasse “a obra da sua vida”, o Padre Pio mandou-o embora com um olhar fulminante: “A obra da tua vida, um conjunto de palavras?!” Coelet acrescentaria: “Também isso é vaidade.” De facto, quer os nossos problemas, quer os nossos sucessos, não passam de “erva que de manhã reverdece; de tarde ela murcha e seca”, como canta o salmista.

Entre todos os nossos grilhões, que nos prendem à terra e nos impedem de voar para o alto, está “a avareza, que é uma idolatria”, diz S. Paulo. O Papa Francisco chama ao dinheiro “a caca do diabo”, e Jesus despede de imediato dois irmãos que O querem fazer árbitro das suas partilhas. Percebemos, nas palavras do Senhor, desprezo e repulsa em relação às questões monetárias. Afastemo-nos, também nós, de todas as discussões por causa de tão vil assunto, se não queremos provocar a ira de Deus.

O que levamos então connosco, no dia da nossa morte? O que é que vale a pena acumular nos nossos celeiros? Porque como diz Jesus, o importante é “tornar-se rico aos olhos de Deus.” E S. Paulo aconselha: “Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra.” A Madre Teresa de Calcutá tinha a resposta pronta a esta pergunta. Dizia ela com simplicidade: “Para o Céu, só levamos o que tivermos dado.” As riquezas, a sabedoria, os talentos, os frutos justos do nosso trabalho, só têm algum valor se forem repartidos pelos irmãos e oferecidos a Deus todos os dias e a toda a hora.

Não teria sido essa a atitude certa do Rico Insensato? À sua própria pergunta: “Que hei de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita?” Devia ter respondido assim: “Irei distribuir a colheita pelos meus irmãos mais necessitados.” Nessa noite, ao entregar a sua alma, teria encontrado cheios os celeiros celestes.

Hora da missa. Trago diante do altar do Senhor o pão e o vinho, frutos da terra e do meu trabalho. Trago diante do altar do Senhor os meus sonhos e fracassos, o meu sucesso e as minhas preocupações. Tudo desejo oferecer, porque não tenho aqui onde guardar a minha colheita… “Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração”, rezo com o salmista. Hoje mesmo pode ser o meu último dia. É preciso que me apresse! É preciso que mate de vez o “homem velho” que ainda sou, com a sua “imoralidade, impureza, paixões, maus desejos e avareza”, e me revista do “homem novo”, “Cristo, que é tudo e está em todos.” Os meus olhos contemplam de novo o altar, onde Ele Se entrega por mim. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, repito, e logo acrescento: tudo, menos isto. “Isto é o meu Corpo, entregue por vós…” Eis a única verdade: o amor. Só ele nunca acabará.

2 Comments

  1. Catarina Silva

    Linda reflexão ❤️

  2. Célia Canadas

    Que benção, todas estas palavras. Muito obrigada🤲🛐

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *